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A tranquilidade de passear pelas culturas do sincretismo, por Matê da Luz

A tranquilidade de passear pelas culturas do sincretismo

por Matê da Luz

Vem mais em forma de desabafo do que de postagem, e dá conta de comentários contrários ao conteúdo que compartilhei onde algumas lendas de Iansã são apresentadas em forma de mangá. 

Entendo sim, e como, a necessidade social de branquear as culturas, todas elas, para que caibam em narrativas coerentes a quem interessar possa. Tem até pai de santo branco, malhado e de barba feita benzendo e prescrevendo banho de ervas em bazar de natal na cidade de São Paulo - e isso não deve preocupar ninguém, já que quem é do axé jamais trocará a prescrição de ifá, aconselhada pelos búzios, que normalmente envolve ervas frescas e específicas pro seu orixá e pro seu momento, por um banho feito em casa com um suposto fundamento de terreiro. Fundamento, pra quem sabe fundamentar, não se compartilha assim, comercialmente e, então, não tem porque entrar numa briga ou sequer ter arrepios com isso. 

Da mesma forma acontece quando Iansã aparece num trabalho de faculdade abordada sobre a ótica japonesa, apresentada em filme de mangá. A cultura iorubá é riquíssima e pede espaço? Sim, sem dúvida alguma, mas tampouco deve se sentir incomodada com a releitura. A imensidão cultural há de abrir os espaços, e não limitá-los, desde que haja respeito e coerência para com os conteúdos de uma e de outra e, aos meus olhos, a abordagem mantém esse respeito, além de ressaltar as características fundamentais do orixá, criando espaço para a disseminação das lendas, para o aprendizado sobre as histórias. 

Para Henri Wallon, pensador francês que estudou interpretações e cognições em diferentes fases da vida, sincretizar significa reunir. Portanto, ao utilizar outras óticas para falar de um assunto sem separá-lo de seu fundamento básico pode ser absolutamente válido, bonito e precioso, e não ofensivo e discrepante. Atualizemo-nos e, no mais, sigo tranquila: a fé e o respeito que construo rotineiramente acerca das culturas nas quais transito permanecem inabaláveis. 

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Meio Junguiano

   No começo, como qualquer neófito, quer de "biblia", "hóstia" ou candomblé, fui muito contrario a qualquer forma ou concepção de sincretismo, não por ser burro, mas por estar na ignorancia de uma suposta radicalidade.

    Mas após muita, muita mesmo, leituras e viagens, em contatos com diferentes culturas, mesmo não sendo do ramo da sociologia percebi que em varias delas aspectos ( alguns mais academicos podem se referir a arquetipos ), possuem muitas semelhanças. 

    Por exemplo é possivel realizar um "mangá" bem japonês, substituindo-se Yansã pelo deus xintoista Susano-o, o irmão de Amaterasu ( a Deusa principal do xintoismo - uma Yemanjá "niponica" ), que é o responsavel pelos "ventos e tempestades", e na mesma situação colocar um " Omulu japonês", o Deus Yomi.

     Resumindo : Em todas as culturas ancestrais, arquétipos ou mesmo construções neles baseadas existem, mas problemas de aceitação quando referidos as culturas afro, mesmo que iguais as ocidentais ( tipo Zeus X Xangô ), foram e são relegadas ao plano de "inferiores", porque vieram da Africa, o " Continente Negro ".

     O sincretismo no caso brasileiro e caribenho trouxe para o candomblé uma dimensão religiosa e cultural que não existia na Africa, nem hj. existe, pois os orixás eram circunscritos a determinadas regiões - exemplo de Yansã que era cultuada somente na foz do Rio Niger , ou de Xangô restrito a seu Reino ( que ainda existe na Nigéria ) - ou os "orixás" daomeanos como Nanã, Sapata, Logun, muito diferentes da cosmogonia yorubá, mas que foram aqui e no caribe reunidos em uma unica cultura de resistência, muitas vezes utilizando-se do "sincretismo".

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Carlos Antonio

Gostei muito da história de

Gostei muito da história de Iansã em forma de mangá. Parabéns. E esse seu textinho sobre sincretizar é muito pertinente. Vou pesquisar as ideias de Henri Wallon. Compreendo o sincretismo também dessa forma. 

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achei muito legal, muito válido...

principalmente por possibilitar que pessoas de todas as idades tomem conhecimento

facilitar que palavras, figuras e sentimentos se movimentem e se entrelacem é sempre muito bom para todas as idades

e mangá é isso

 

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Ivani Martins dos Santos

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