Um governo da morte e para a morte, por Rafael Alves

     

    “… mais importante que a sua vida, é a sua liberdade”.

    A frase acima foi dita pelo atual mandatário do país, ainda em 2017, como pré-candidato à presidência, ao posar em um estande da empresa Taurus, fabricante de armamentos, fazendo propaganda de um fuzil e uma pistola.

    No sétimo dia em quarentena, após retornar do exterior, tenho por um lado o alívio por não apresentar sintomas da Covid-19, por outro lado surge o pensamento de que talvez estivesse mais seguro em um dos países pelos quais passei recentemente, já que em nenhum deles o governante tentava deliberadamente matar a população.

    Laymert Garcia dos Santos havia apontado em Viva a morte!, ainda durante a campanha eleitoral, a pulsão de morte presente, o discurso da morte e do extermínio ao longo de toda a trajetória do então candidato, hoje presidente da república.

    Laymert também nos lembra da ficção de Susan George, que alcançou um realismo aterrador, a ponto da autora ter de confirmar que não se tratava de um relatório vazado.

    “Susan George, no livro O Relatório Lugano – Sobre a manutenção do capitalismo no século XXI, examinou como o caráter genocida está implícito na estratégia global do neoliberalismo, quando constatou que o sistema atual é uma máquina universal de destruição do ambiente e de produção de perdedores. Procurando colocar-se na posição daqueles que mais lucram com ela, descobriu que eles estavam inquietos porque, na perspectiva destes, ficava cada vez mais óbvio que o capitalismo é excludente, isto é, que não se pode ao mesmo tempo promover o capitalismo no século XXI e tolerar a reprodução de bilhões de humanos supérfluos para o sistema.

    O que S. George compreendeu foi o modo como, para os neoliberais, tornava-se incontornável o problema da redução de população e, com ele, a discussão de estratégias para “resolver” a questão dos excluídos; ou seja, para falar com franqueza, a discussão de um processo de seleção que o poeta Heiner Müller qualificou certa vez como “limpeza social”, a partir das escabrosas experiências de “limpeza étnica”. Mas a “solução” não poderia significar uma reabilitação de sistemas genocidas como o Holocausto, pois como dizem os especialistas do Relatório: ‘O modelo de Auschwitz é o contrário do que precisamos para atingir o objetivo. (…) A seleção das ‘vítimas’ não deve ser responsabilidade de ninguém, senão das próprias ‘vítimas’. Elas selecionarão a si mesmas a partir de critérios de incompetência, de inaptidão, de pobreza, de ignorância, de preguiça, de criminalidade, e assim por diante; numa palavra, elas encontrar-se-ão no grupo dos perdedores.’”

    Marcia Tiburi, aponta em um texto recente que “a ameaça de extinção não deve ser descartada como um absurdo”, considerando o momento atual como decisivo para uma crítica ao neoliberalismo como forma avançada do capitalismo,  a filósofa aponta que  “o capitalismo é biopolítico e tanatopolítico. Ele calcula quem deve viver e quem deve morrer e isso está cada vez mais evidente na estrutura do sistema. O acesso à saúde é uma prova disso”.

    É impressionante constatar que o ocupante do Planalto partiu do discurso de morte para ações concretas contra a vida dos indígenas, dos trabalhadores, daqueles em situação de vulnerabilidade, no limite do planeta e, agora, chegou ao limite de usar o próprio corpo como arma!

    “Agora Bolsonaro acrescenta um projeto de extermínio do povo e admite fazer do seu próprio corpo o veículo da morte quando encontra pessoas e age sem os critérios de segurança sanitária da quarentena respeitada em todo o mundo”.