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Para onde vão os Estados Unidos? Ou não vão?, por Reginaldo Moraes

Estados Unidos – colosso imune à mudança?

por Reginaldo Moraes

no Jornal da Unicamp

Alguns livros somem do radar, mesmo dos estudiosos especializados. Mas, de repente, quase por acaso, olhamos para eles, folheamos o que rabiscamos nas suas margens e lembramos do que diziam e do que faziam lembrar. É o caso de um livrinho de Barrington Moore Jr: Reflexões sobre as causas da miséria humana e sobre certos propósitos para eliminá-las (livro de1972, publicado no Brasil em 1974).

Um dos enigmas enfrentados pelo livro tem notável atualidade: afinal, por que os norte-americanos, pioneiros na universalização da escola primária e na escola média, vanguardistas na massificação do ensino superior, detentores da maior máquina de ciência, tecnologia e cultura do mundo, convivem com o fato de elegerem primatas inferiores para a presidência da república? Afinal, isso não seria mais próprio de repúblicas bananeiras? 

Existe algo mais fundo a determinar tal maldição? Quando ainda candidato, Barak Obama disse uma frase aguda, mais ou menos assim: o problema não é apenas sair do Iraque, é sair de uma mentalidade que nos enfia em seguidos Iraques. Terminou seu governo celebrando e confirmando a força desses limites. Será esse elemento um fator explicativo para as perguntas acima?

BM diz que no desenvolvimento norte-americano, em especial na segunda metade do século XX, há “consideráveis elementos de uma prosperidade guerreira”. Não acredita que isso tenha qualquer traço de “destino”. Pelo contrário, vê possibilidade de mudança, mas...

O seu argumento é complexo: a guerra e o desperdício suavizam as crises e minimizam, por exemplo, as demandas por redistribuição de renda, poder e prestígio. O capitalismo americano é popular e engendra o que Paul Baran e Oskar Lange chamavam de ‘imperialismo do povo’.  Porém, o que se verifica, diz BM, é “ausência de uma demanda de mudança – não a impossibilidade de mudança”.

A chave para explicar a permanência ou a mudança é a “incoerência, apatia e confusão daqueles que se beneficiariam com políticas diferentes” e que assim podem permanecer porque “os outros pagam os custos”. Em suma, o “imperialismo do povo” tem como empurrar as coisas com a barriga enquanto alguém – fora do jogo - pague o pato.

A argumentação pode ser questionada em seus fundamentos, mas não é o que pretendo fazer aqui. Apenas chamo a atenção para um ponto inquietante da cadeia lógica de BM. Dado o enquadramento que descrevemos acima, seria difícil esperar transformações profundas que se produzam dentro do sistema político, com apoio de massas a reestruturações da desigualdade, por exemplo. Mesmo as mudanças incrementais, nesse quadro, seriam aquelas do famoso lema do Gattopardo: mudar algo para que tudo continue na mesma.

A crer na análise de BM, o sistema social parece quase completamente imune a esse tipo de sacolejo. A possibilidade da ruptura parece quase que totalmente atrelada a acasos, atos inusitados ou a causalidades que não controlamos. E aí vem uma passagem luminosa do livro, justamente aquela que me fez escrever esta crônica.

No final do livro, BM pergunta se poderia haver “uma quebra ou colapso importante do aparelho político sem prévio apoio de massa para sérias mudanças sociais”. E menciona uma possibilidade muito sugestiva:

Há ainda algumas boas razões históricas e sociológicas para sustentar que tal colapso poderia ocorrer e permitir uma sucessão revolucionária. (...) num ambiente urbano a criação de uma massa revolucionária é uma transformação muito rápida. Fundamentalmente, ocorre através da quebra do fornecimento de bens e serviços de que uma cidade depende. Nos anos recentes têm ocorrido numerosas paralisações parciais por uma variedade de causas que nada têm a ver com a revolução em sua concepção comum, tais como greves ou quase greves de empregados-chave: polícia, bombeiros, lixeiros, professores e empregados dos correios. Elas mostraram a vulnerabilidade da cidade à interrupção dos serviços. Uma das possibilidades mais ameaçadoras e sociologicamente interessantes é uma repetição de interrupção do fornecimento de energia elétrica que afetou grande parte do Nordeste não há muito tempo {BM refere-se ao apagão de 1965]. Sob a capa de bom humor do último corte de luz havia uma preocupação, não necessariamente apaziguada pelas freqüentes emissões assegurando a população de que o Pentágono estava funcionando normalmente e tinha certeza de que não se tratava de caso de emergência. Energia elétrica é muito mais importante para uma cidade moderna do que o fornecimento de trigo para a cidade de Paris no século XVIII. “

Isso foi publicado em 1972. Um outro grande blecaute aconteceria em 1977. Mas o mais inquietante ocorreu em agosto de 2003. Afinal, atingia em cheio uma cidade traumatizada pelo famoso evento das Torres Gêmeas, ocorrido dois anos antes. Um apagão monstro paralisou e assombrou cidadãos e autoridades de boa parte do nordeste americano, incluindo a cidade de Nova Iorque. O noticiário registrou múltiplos aspectos do evento – um choque na vida das pessoas, nos seus sentimentos e ansiedades. Boatos, improvisações, percepção de vulnerabilidades desconhecidas  - essa era a crônica daquelas 24 horas dos nova-iorquinos. Para outras cidades, o apagão durou até 90 horas.

Metro, iluminação das ruas, casas e lojas, tudo no escuro. Evidentemente, comunicações prejudicadas. A rigor, o único sistema estável era o rádio – e quem tinha um aparelho a baterias ou pilha ouvia as insistentes mensagens das autoridades policiais, tentando acalmar ou advertir, a depender do cliente.

Assim, naquele dia e nos dias seguintes, um simples passeio pelo noticiário internacional pertinente mostrava o quão instável, efêmera e pouco confiável é a ordem das coisas, no coração do globo. E quão dependente ele é - nas menores e mais cotidianas realidades -- daquilo que aquele coração suga do resto do mundo. Por exemplo, em usinas de energia termoelétricas movidas a carvão e petróleo.

Hegel dizia que o mocho de Minerva, a sabedoria, levanta vôo ao anoitecer. Pelo jeito, esqueceu de mencionar a necessidade do fornecimento de energia... não foi o mocho que alçou vôo. Durante o eclipse das usinas, os fantasmas, temores e sentimentos baixos afloravam.

O livro de Barrington Moore talvez exibisse uma premonição. Por vezes, o terremoto vem de onde menos se espera. Será que isso se deve a uma falha no subsolo ou nas nossas percepções, que não registram o que deviam registrar?

 

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Rui Ribeiro

A prosperidade guerreira não existe mais

A prosperidade guerreira acabou. As guerras dos EUA e de seus aliados contra o Afeganistão e contra o Iraque desencadearam a crise nos EUA e as guerras contra a Líbia e a Síria não permitiram a recuperação. Desde certo tempo, as guerras dão mais prejuízos do que lucros, tanto para os agressores quanto para os agredidos. Foi por causa disso que o Trump afirmou que os EUA deixariam de ser belicistas. Mas infelizmente ele não manda em nada, exceto se as suas políticas coincidam com os interesses e caprichos da elite norte-americana e imperialista.

"Me dirijo a nuestro loco líder (Barack Obama): no ataques a Siria - si lo haces, ocurrirían muchas cosas malas. De esta lucha, Estados Unidos no obtendrá nada”. Tuit de Trump em 05-09-2013.

Porque aquela Pombinha de 2013 se tornou esse falcão?

É porque a ficha ainda não caiu para o Deep State de que as guerras não mais trarão lucro aos Magnatas dos EUA, permitindo que eles jogam as migalhas dos despojos para a população.

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Eugenio Arima

Ir ou vir, eis a questão

Sempre fui dado a perguntar sobre tudo, uma espécie de curioso profissional. Um dia, perguntei a avó da minha ex-esposa, uma pessoa simples mas vivida em extensão e intensidade raras, qual era a invenção que ela achava mais importante. Ela respondeu candidamente, água, gás e luz. Já tirou água de poço, rachou lenha ou viveu escuridão sob velas? acrescentou.

Corei de vergonha por não haver como ela, pensado tão estrategicamente sobre as invenções que transformaram de fato, a sociedade. Não se iludam os moderninhos: antes do computador e internet, foi e é preciso energia, muita energia para atender a toda crescente demanda de "informação".

Parece trivial, mas até as paredes sabem que sem água a vida não é possivel. Sem água encanada, a disponibilidade para o trabalho, para se alimentar, se tornam extremamente difíceis, como bem lembrou a vovó. Mas o que o governo atual e o término do desastroso governo Dilma fizeram? facultaram o acesso às fontes de água potável por empresas estrangeiras (já repararam quantas marcas de água mineral ostentam discretamente "the coca cola company"?), pior, privatizaram a distribuição e tratamento.

Quanto ao gás, nada diferente. Este governo aprofunda ainda mais a entrega do petróleo nacional. Aos cândidos de plantão, que acreditam que a cadeia do petróleo está no fim, observem melhor o mundo a sua volta, que não é feita de carros eletricos, mas de usinas termoelétricas, de transporte pesado (trens, navios, caminhoes), de plástico, de fertilizantes. Está ainda muito distante substituir de modo econômico essa cadeia. Nem vou falar dos milhares de empregos vinculados a essa cadeia. Enfim, mais uma vez, entregue a interesses privados.

Energia? o modelo estúpido de divisão em tres, estabelecendo um modelo concorrencial entre elas e oligopolista em relação aos consumidores, é incompetente e danoso ao interesse nacional. Sem energia, não há indústria, não há bancos, não há comércio, não há quinquilharias elétricas e eletronicas. Para os katinguentos de plantão que se arvorarão: numa eventual guerra entre os EUA e o Brasil, a AES se recebesse ordens para desligar seus sistemas no país, deveria obedecer a sua matriz, ou alegaria que não pode quebrar um contrato? Se vale a ideia que os EUA determinam embargos às companhias que tentam negociar com os países "proibidos" (e.g. Cuba, Coreia do Norte, Iran, etc), porque não fariam o mesmo no caso hipotético? então não falem em livre-comercio, não falem em terrorismo quando os EUA exportam armas a torto e direito. Mas de que adianta discutir com trogloditas?

E nítidos que esses fatores são absolutamente necessários à segurança nacional, segurança esta cada vez mais entregue a interesses estrangeiros por meio das suas multinacionais. Por sinal, é por esta entrega irresponsável que vejo o risco de intervenção, respaldada na defesa da soberania e interesses nacionais. É estratégico, é vital para a sociedade o controle sobre seus recursos estratégicos.

É sobre estes fatores que se assentará a riqueza ou pobreza nacionais. A ideia de que o importante seja apenas a tecnologia, resvala na superficialidade técnica e de conhecimento dos seus defensores, pois não há tecnologia sem insumos básicos. 

O Brasil está perdido.

 

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Rui Ribeiro

Eugenio Arima ouviu o galo cantar mas não sabe onde

A apropriação das águas pelos estrangeiros não é culpa dos governos de plantão, mas do capitalismo. Mesmo que se oponham a essa apropriação, os governos de plantão nada podem fazer.

O poder político é apenas um ventríloquo nas mãos do poder econômico.

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Eugenio Arima

Ir ou vir, eis a questão

Sempre fui dado a perguntar sobre tudo, uma espécie de curioso profissional. Um dia, perguntei a avó da minha ex-esposa, uma pessoa simples mas vivida em extensão e intensidade raras, qual era a invenção que ela achava mais importante. Ela respondeu candidamente, água, gás e luz. Já tirou água de poço, rachou lenha ou viveu escuridão sob velas? acrescentou.

Corei de vergonha por não haver como ela, pensado tão estrategicamente sobre as invenções que transformaram de fato, a sociedade. Não se iludam os moderninhos: antes do computador e internet, foi e é preciso energia, muita energia para atender a toda crescente demanda de "informação".

Parece trivial, mas até as paredes sabem que sem água a vida não é possivel. Sem água encanada, a disponibilidade para o trabalho, para se alimentar, se tornam extremamente difíceis, como bem lembrou a vovó. Mas o que o governo atual e o término do desastroso governo Dilma fizeram? facultaram o acesso às fontes de água potável por empresas estrangeiras (já repararam quantas marcas de água mineral ostentam discretamente "the coca cola company"?), pior, privatizaram a distribuição e tratamento.

Quanto ao gás, nada diferente. Este governo aprofunda ainda mais a entrega do petróleo nacional. Aos cândidos de plantão, que acreditam que a cadeia do petróleo está no fim, observem melhor o mundo a sua volta, que não é feita de carros eletricos, mas de usinas termoelétricas, de transporte pesado (trens, navios, caminhoes), de plástico, de fertilizantes. Está ainda muito distante substituir de modo econômico essa cadeia. Nem vou falar dos milhares de empregos vinculados a essa cadeia. Enfim, mais uma vez, entregue a interesses privados.

Energia? o modelo estúpido de divisão em tres, estabelecendo um modelo concorrencial entre elas e oligopolista em relação aos consumidores, é incompetente e danoso ao interesse nacional. Sem energia, não há indústria, não há bancos, não há comércio, não há quinquilharias elétricas e eletronicas. Para os katinguentos de plantão que se arvorarão: numa eventual guerra entre os EUA e o Brasil, a AES se recebesse ordens para desligar seus sistemas no país, deveria obedecer a sua matriz, ou alegaria que não pode quebrar um contrato? Se vale a ideia que os EUA determinam embargos às companhias que tentam negociar com os países "proibidos" (e.g. Cuba, Coreia do Norte, Iran, etc), porque não fariam o mesmo no caso hipotético? então não falem em livre-comercio, não falem em terrorismo quando os EUA exportam armas a torto e direito. Mas de que adianta discutir com trogloditas?

E nítidos que esses fatores são absolutamente necessários à segurança nacional, segurança esta cada vez mais entregue a interesses estrangeiros por meio das suas multinacionais. Por sinal, é por esta entrega irresponsável que vejo o risco de intervenção, respaldada na defesa da soberania e interesses nacionais. É estratégico, é vital para a sociedade o controle sobre seus recursos estratégicos.

É sobre estes fatores que se assentará a riqueza ou pobreza nacionais. A ideia de que o importante seja apenas a tecnologia, resvala na superficialidade técnica e de conhecimento dos seus defensores, pois não há tecnologia sem insumos básicos. 

O Brasil está perdido.

 

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jose carlos vieira

extra! Extra!

esclarecido o ataque cubano aos diplomatas americanos.

os serviços secretos da ilha mobilizaram um exército de grilos e cigarras para perturbar o sono dos herois.

http://www.moonofalabama.org/2017/10/us-diplomats-retreated-in-horror-of...

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Brnca

Decadência

Os Estados Unidos estão em decadência como já aconteceu com todos os impérios anteriores e quando um poderoso país entra na rota da decadência fica violento além do que já era e a guerra é a solução. É por aí que temos de olhar/analisar os Estados Unidos HOJE.

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Os EUA não podem ser usados

Os EUA não podem ser usados como exemplo de nada, como referência de nada, porque eles trapaceiam.

É o único país do mundo que pode cobrir as suas despesas emitindo dinheiro sem lastro e sem causar hiperinflação ou maxidesvalorização da moeda, já que o Dolar é o padrão do comércio mundial e sempre existe demanda para ele.

Como estariam os EUA sem esse cheat de dinheiro infinito? Mas essa moleza está acabando...

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WALDOMIRO PEREIRA DA SILVA

Quando será o proximo apagar

Quando será o proximo apagar das luzes?

Por aqui me parece que esta bem proximo.

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ADROALDO LIMA LINHARES

Máfia maçonaria tucana dos inférno! Tomaram os 3 poderes e tudo+

Para onde eles vão não sabemos, mas temos certeza que querem ir de graça e sendo carregados...

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