Trump e sua tropa. Os anormais que viram regra

     

    Do Jornal da Unicamp, 28/03/2019

     

    Em 2017, um grupo de 27 psiquiatras e especialistas em saúde mental organizou um livro de artigos que pode parecer estranho. E é, mas deveria produzir um outro sentimento: o medo, mas o medo que não paralise. Foi editado por Bandy X. Lee e se chama The Dangerous Case of Donald Trump (ed. St. Martin’s Press, NY].

     

    Os organizadores partem de alguns consensos e conhecimentos acumulados pelos especialistas.  Começam por lembrar que todas as sociedades, em diferentes níveis de consciência, adotam modos de ver, pensar e comportar que são considerados desejáveis ou “normais”. E que, em consequência, seria possível identificar o que chamar de normalidade maligna.

     

    Há muitas dessas “normalidades” que se estabelecem apesar de seus resultados nefastos. Caso famoso, lembram eles, seria o da  participação de médicos (incluindo psiquiatras) em sessões de tortura.  Algo que ocorreu em diferentes países e em diferentes momentos da história, inclusive no Brasil, sob a ditadura militar.

     

    Um outro exemplo, menos óbvio, era o envolvimento de especialistas, organizados em comissão do governo americano, que visava “orientar” os cidadãos daquele país a conviver com a ameaça atômica, preparando-se para elas como se fosse um fenômeno natural, tal qual um terremoto, por exemplo. A comissão envolvia médicos, psiquiatras, psicólogos, cientistas sociais e especialistas em comunicação.

     

    Uma outra forma de “normalidade maligna”, dizem eles, é introduzida por Donald Trump e seu governo.  Um presidente visivelmente perigoso se torna “normalizado” e essa normalidade ameaçadora passa a dominar não apenas o governo, mas, também, aqueles que a ele se opõe. Determina a dinâmica da vida social e do debate político.

     

    A inserção do “Perigoso Caso Trump” nessa lista decorre deu seu narcisismo e paranóia, que, transplantados para a esfera de governo, podem provocar danos irreparáveis.

     

    Uma das principais características desse anormal – talvez a dominante – é o que chamam de “déficit de confiança”. O empresário excêntrico não confia em ninguém e, por extensão, faz da desconfiança um modo ‘natural’ de existir, algo que se deve cultivar. Se essa anormalidade – intrínseca ao doente eleito – se tornar generalizada, sabe-se lá que mundo teremos.

     

    Para concluir o pensamento, vale citar:

     

     

     

     … o alicerce fundamental do desenvolvimento humano é a formação de uma capacidade de confiar, absorvida pelas crianças entre o nascimento e os primeiros dezoito meses. Donald Trump tem se gabado de sua total falta de confiança: “as pessoas estão demasiado confiantes. Eu sou um cara muito desconfiado”(1990). “Contrate as melhores pessoas e não confie nelas” (2007). “O mundo é um lugar cruel e brutal. Até seus amigos andam atrás de você: eles querem o seu trabalho, seu dinheiro, sua esposa “(2009)

     

     

     

    O parecer desses especialistas não foi algo ocasional ou isolado, no debate norte-americano. A sanidade mental de Trump – ou sua capacidade de agir civilizadamente – foi posta em dúvida diversas vezes. Houve quem imaginasse esse fator como razão suficiente para iniciar um processo de impeachment.

     

    Alguns críticos, porem, botaram um pé atrás. O problema, dizem eles, é que, seguindo esse tipo de procedimento, de fato estamos dando um pontapé na própria democracia, ao invés de melhorá-la ou de prepará-la para enfrentar tais armadilhas. Desse ponto de vista, a solução, no caso Trump, não é submetê-lo a exame por especialistas, destituí-lo e interná-lo em um manicômio (se é que vão recriar os manicômios). Isso quer dizer que ao invés de melhorar o sistema e a qualidade do processo de escolha, nós criamos uma comissão de censura feita por “gente melhor”. E daí temos que ter um sistema para escolher essa “gente melhor”. Um círculo que facilmente leva a soluções ainda mais autoritárias.

     

    O problema mental de Trump seria caso de nenhuma relevância se não pensamos no sistema doente que o produziu como presidente. Afinal, ele não é o maluco da esquina. Se fosse, até poderia “ficar solto”.  O problema é entender que o “risco Trump” tem apelo entre milhões de apoiadores.

     

    Outros críticos levantaram outro dilema, quando Trump começou a revelar fixações ainda mais doentias, difundindo horrores ou atacando até adversários mortos. Basta lembrar quantas vezes ele atacou o falecido John McCain, o herói de guerra que concorreu com Obama. Em suma, Trump parecia ter mergulhado em pleno delírio.

     

    A questão é sugerida por  Peter Wehner, em artigo no The Atlantic (março de 2019). Wehner concorda que Trump é um “espírito atormentado” e uma personalidade em desarranjo. Mas pergunta: que importância devemos dar aos tweets excêntricos e mesmo obscenos de Trump?

     

    Dizem alguns que não se deve dar a ele esse trunfo, porque isso nos mantem em um estado de agitação permanente e de depressão, o que é fazer o seu jogo. Mas, por outro lado, deixar barato pode ser um modo de reduzir nossa sensibilidade e ‘normalizar’ Trump.

     

    Em resumo, como dissemos, ele não é o maluco da esquina, não é qualquer um. É o cara que pode apertar o famoso botão vermelho da bomba. E é o cara que propaga sentimentos, de um modo ou de outro.

     

    Sua forma de difundir maldade e ódio é terrível. Ataca o fraco, os espíritos tolerantes e até mesmo os mortos, como McCain. Em suma, podemos até concordar que a alma de Trump  “não está bem”. Mas, como ele é presidente, isso quer dizer que a nação não está segura. Está sempre pronta a declarar guerra aos outros – ou a si mesma.

     

    Visto aqui, do lado de baixo do Equador, temos com o que nos preocupar. Primeiro, porque as estrepolias de Mr. Trump acabam por nos afetar profundamente. Segundo, porque sabemos que ele não é o único psicopata que está em vias de normalização.