E os neoliberais querem voltar a ser “social-democratas”

    A segunda leva de sofistas

    Finalmente pude assistir a longa palestra de André Lara Resende na FFLCH/USP e conhecer de maneira um pouco mais aproximada as ideias daquele que vem sendo no Brasil o tradutor da Teoria Moderna da Moeda (MMT, em inglês). Para quem tem algum interesse pelo platonismo, é sempre interessante escutar os argumentos dos sofistas.

    Com o sistema neoliberal completamente falido, sistema este configurado depois da dissolução da União Soviética e dissolvido com a crise financeira de 2008, não causa surpresa que alguns elementos que almejam uma posição de independência dentro do meio em que vivem, surjam como arautos de movimentos de renovação. Ao contrário de Jorge Paulo Lemann, que conseguiu eleger 18 candidatos nos mais diferentes partidos políticos para buscar, na política parlamentar, um novo espaço para o neoliberalismo, André Lara Resende não se utiliza de mensageiros e, agora, adquire um papel importante como tradutor ou introdutor no Brasil das ideias da esquerda norte-americana.

    Contudo, junto a ele, jovens e também economistas mais experientes, estudam com afincos os velhos pressupostos keynesianos diante do fascínio exercido pelas políticas de flexibilização quantitativa: nunca se jogou tanta liquidez nos mercados e as altas taxas de inflação esperadas pela teoria econômica tradicional não se concretizaram. Ora, a solução para os problemas atuais estaria exatamente na criação do problema criado pela forma de lidar com a crise econômica, ou seja, naquilo que Mario Draghi uma vez chamou de “helicopter money“.

    O círculo vicioso

    O problema é muito elementar: o sistema financeiro está viciado na expansão monetária aparentemente infinita que seguiu a crise de 2008, porém, mesmo com tanta injeção de recursos, não conseguiu dar conta de superar a crise. O “setor avançado” por décadas (e acentuado dramaticamente nos últimos anos) vem encontrando problemas de fome, miséria, sub-salário e empregos precarizados, além da epidemia de opioides nos EUA, em particular.

    O fim súbito da política de expansão monetária iria levar imediatamente todo o sistema financeiro à falência. Por outro lado, não há opção para se reativar os investimentos na economia física, isto é, em obras de infraestrutura de grande envergadura e investimentos em ciência e tecnologia como os programas espaciais e o desenvolvimento da fusão nuclear, sem deixar de criar riqueza fictícia para agentes econômicos como a Apple [aqui], que usam dos fartos recursos oferecidos para investirem em si próprias, criando bolhas sobre bolhas. Esse sistema está fadado ao colapso, como muitos hoje tem plena consciência (de intelectuais eminentes a institutos internacionais). É o que venho chamando há algum tempo da péssima opção que tem aparecido hoje, entre novos e velhos liberalismo, e a extrema-direita, ou seja, entre Capitalismo e Anarquia [aqui].

    Logo, por que então trazer para o Brasil o keynesianismo 2.0 e toda sua rede de práticas monetárias ancoradas na flexibilização quantitativa? Como essa importação traria impactos para nossa economia?

    O diálogo do sofista

    Com a crise de 2008, André Lara Resende diz que resolveu rever suas antigas posições. Como dito acima, os Q.E. (quantitative easing) não teriam produzido inflação e, assim, teriam implodido a teoria macroeconomia. Em sua palestra, ele recorre a toda uma antiga fábula dos inícios do sistema monetário, até a substituição da moeda metálica pelo papel moeda, onde necessariamente o Tesouro seria o responsável por fornecer lastro ao dinheiro emitido… Enquanto isso, ia e voltava em citações de autores não necessariamente ortodoxos que estavam fascinando-o nos últimos tempos. Ele descobriu agora que a economia não se move apenas por modelos teóricos, mas que a empiria tem um papel relevante na análise econômica. Um gênio.

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    Mas não é só. Sua afirmação mais chocante, sem dúvida, ou o que mostra o que fez sua conversão na estrada de Damasco foi um ato de pura fé, é a de que a inflação é só expectativa. Isso é de uma genialidade tão grande que tenho que conter o riso… Desculpe.

    Parece que foi chocante o desmonte das suas teorias econômicas diante da constatação empírica de que a emissão monetária abundante não causa inflação. A economia já não é mais motivo para reflexões, para filosofia, ciência ou coisa do gênero, e se tornou numa fortíssima crença não menos embriagante do que outrora os modelos teóricos macroeconômicos. Ele chega a dizer e a redizer que não seria mais economista, que talvez fizesse qualquer outra coisa no futuro. Depois de sua conversão, a livre disponibilidade para, talvez, um novo enlevo místico.

    (diz que, como FHC, não era mais economista; ao ser indagado se assim não estaria repetindo o gesto do Príncipe da Privataria do “esqueçam tudo o que disse”, ele responde que FHC nunca disse para esquecerem o que ele disse…)

    Contudo, o suposto choque psicológico que ele sofreu é correlato de uma percepção sensorial completamente deturpada. Natural para quem pensa que inferir causação em economia é impossível. Ele dá o exemplo, para essa afirmação, que o BC brasileiro baixou a taxa de juros e a inflação caiu. Ora, mas não poderia ser o contrário: o BC baixou a taxa de juros por causa de uma economia em recessão permanente e, adicionalmente, por causa da crescente e gritante disparidade das taxas internas com as externas? Como seria natural, os juros podem baixar e a inflação baixar, os juros aumentarem e a inflação acompanhar, etc.: tudo depende da análise de variantes econômicas mais abrangentes.

    Um dado pitoresco dessa situação foi o posicionamento de Resende sobre a baixa da taxa de juros feita por Tombini no governo Dilma: ele agiu errado não porque baixou os juros, mas por ter sofrido pressão política para fazê-lo. Se a economia é movida pela fé ou pela “expectativa”, um presidente do Banco Central não pode ceder a pressões de agentes públicos (já a de agentes privados…). O que mostra, em geral, que ele continua sendo o reacionário de sempre, um neoliberal.

    Em resumo, sua crença ou fé de que a economia de uma modo geral deriva de um fenômeno da criação expectativas é bem característica não só de alguém com seu histórico de neoliberal ortodoxo, como também da ignorância hoje reinante de que a flexibilização quantitativa não produziu inflação. Pude escrever longamente sobre isso e não vou revisar cada argumento por aqui. Só faço uma pergunta: por que se esperar cinco, dez ou até mais tempo para se aceitar os efeitos perversos – a criação de toda uma nova divisão social do trabalho – que a injeção de recursos no mercado financeiro causou? [o artigo mencionado pode ser acessado aqui]

    Alcebíades interrompe o Banquete

    Uma observação curiosa para quem assistiu as quase três horas de debate na USP foi a intervenção algo extemporânea de Luis Nassif bem no final dos trabalhos, quando o espaço para perguntas já tinha há muito se encerrado. Ele questionou algo que para mim parecia de fato bem saliente desde o início da fala de André Lara Resende. Vou colocar os questionamentos com as minhas palavras e quem quiser ver como Nassif as resumiu acesse seu artigo aqui.

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    O que seria na Nova Teria Monetária a noção de gasto eficiente? Para Resende, os gastos correntes de governo são um estorvo, mas não os de investimento. Um primeiro questionamento: como um vive sem o outro? Com a máquina do Estado voltada para investir, ela tende a se tornar mais complexa. Num programa como o PAC, por exemplo, municípios minúsculos tiveram que contratar engenheiros e técnicos para levarem ao governo federal os estudos necessários para se liberar recursos para a execução das obras. Numa outra aponta de análise, pode ser observado como a NASA ou o Pentágono são órgãos estatais altamente complexos precisamente por mexerem com orçamentos altíssimos e precisarem coordená-los da maneira mais eficiente possível. Idem para a Petrobrás, Eletrobrás e o pouco que ainda nos resta…

    Adicionalmente, e aqui menciono a intervenção de Luis Nassif, como diminuir o tamanho do Estado, o gasto com pessoal, se ele é fundamental para a manutenção de atividades básicas como educação e saúde? Como dito acima, com o incremento dos investimento nas duas áreas, é natural que o aparelho de Estado se torne maior e mais complexo. O que se poderia ter em conta, nesse caso, é o seguinte: como máquinas estatais grandes e complexas se tornam parasitárias? O caso do Pentágono e suas relações promíscuas com o setor privado, sem dúvida, seria um excelente caso de estudo. Aqui, a corrupção generalizada que fez o EUA estar atualmente atrás em termos armamentistas da Rússia [aqui], aponta não só o fenômeno evidente do desvio de dinheiro, mas que o de que a indústria bélica tem de estar atrelada a outras pesquisas de ponta, prioritariamente a aeroespacial e ao setor energético. O desmantelamento paulatino da NASA e dos investimentos em energias mais eficientes e limpas, como a de fusão nuclear, são diretamente proporcionais à falta de eficiência do setor público e do privado nos EUA na área militar.

    Nesse enquadramento, fica fácil como economicamente André Lara Resende aparecer como um novo progressista e politicamente continuar totalmente reacionário. Em entrevista anterior, por exemplo, disse com todas as letras que por ele se privatizava todas as empresas estatais. Em outra, diz que o liberalismo é o centro político, ou seja, a suposta neutralidade da posição técnica do especialista em economia conjugado com uma visão em favor das liberdades individuais os colocaria numa posição entre extremos. No caso, seria o caminho do meio entre Haddad e Bolsonaro. Posição, aliás, de FHC, Alckmin e da chamada “ala moderada”, não vinculada a João Dória, do PSDB…

    Um liberalismo limpinho e cheiroso

    Segundo Resende, durante os governos do PT, os estados de um modo geral aumentaram seu gasto corrente. Mas como seria diferente, se os estados e municípios receberam amplos recursos, desde os provenientes de programas sociais até os relativos a obras de infraestrutura e para a educação? Como aumentar investimentos apesar do Estado? Aqui fica ainda mais claro seu posicionamento e como a teoria neokeynesiana derivada da prática da flexibilização quantitativa teria implicações para o Brasil.

    O que se almeja é a manutenção do alto teor de endividamento atual do Estado, a ser suavizado através do incremento dos investimentos públicos no setor privado. Se repete a fórmula usada para “debelar” a crise de 2008: uma crise causada pelo excesso de liquidez do setor privado será resolvida pela injeção de liquidez do setor público. Se conjugaria o aumento do endividamento público em favor de iniciativas do setor privado que, talvez misteriosamente, não implicassem um aumento do poder do Estado. Em suma: despreza-se o sistema da dívida e se cria liquidez na busca de um crescimento econômico.

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    Fala-se da criação de um “banco de empregos”, algo similar ao programa da renda mínima, mas não se fala da necessidade de obras e do incremento dos investimentos em ciência e tecnologia. Fala-se de expansão monetária sem considerar a questão cambial. Não se trata em nenhum momento da discriminação que deve ser feita entre endividamentos criados para o desenvolvimento econômico e os que são criados diretamente para a manutenção do sistema da dívida, ou seja, da transferência de recursos públicos para parte significativa do setor privado que não tratá um centavo de investimento para a criação de empregos. Em última análise, e como já disse no primeiro artigo que escrevi sobre o tema, o sistema de crédito é inviável caso conviva com um sistema da dívida [aqui]. Trata-se de utopia, algo muito característico desse tipo de nova crença que André Lara Resende que trazer para o país.

    Os novos convertidos que gostam de citar George Soros como um benfeitor, citar Vargas Llosa e acariciarem Fernando Henrique Cardoso, além de fazerem penitência diante do erros assumidos com a crença antiga com a queda do muro de Berlim e a suposta vitória retumbante do “estado e bem estar e social democracia”, procuram se renovar diante não de um novo paradigma econômico, mas trazer subsídios para que o velho paradigma continue valendo sob novas bases.

    Nassif resumiu em outro artigo muito bem os custos da conversão religiosa de Resende: “Sua autocrítica chega algumas centenas  de milhões de dólares a mais em seu patrimônio, fruto dos ‘erros de avaliação’ cometidos”. Ele fala do que ganhou com informações privilegiadas durante o Plano Real. Depois de ficar podre de rico e com o paradigma neoliberal mortalmente comprometido, faz uma profissão de fé tão fajuta como os planos econômicos implantados durante o turbulento reinado do Farol de Alexandria.

    A posição atual de Andre Lara Resende não pode ser vista em separado das movimentações de Jorge Paulo Lemann. Se o PSDB foi praticamente a madrinha do golpe de Estado, forneceu quadros técnicos e planos políticos-econômicos para o governo Temer e, como que numa falha de cálculo, pariu o liberalismo tosco de Guedes e Bolsonaro, nada mais natural que essa ala “mais esclarecida” do liberalismo tenha que influenciar a política nacional com uma roupa diferente. Capitalismo e Anarquia.

    Leia também:

    Notas sobre a Nova Teoria Econômica

    Comissão Nacional da Dívida Pública

    Rogério Mattos: Professor e tradutor da revista Executive Intelligence Review. Formado em História (UERJ) e doutorando em Literatura Comparada (UFF). Mantém o site http://www.oabertinho.com.br, onde publica alguns de seus escritos.