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Dominó de Botequim, o Retorno - Capítulo 3, por Rui Daher

Por Rui Daher

Vou considerar vocês terem lido o capítulo 2, mas o acharam tão ridículo, sem propósito, que por compaixão deixaram de comentá-lo. Ao reler, nem o achei tão ruim. Mas, em tempos de pós-verdade, como diria o síndico, Tim Maia, “vocês têm toda a razão”.

Boa parte ali não foi ficcional. Sou como me descrevi, mas perdi ainda mais o jeito depois do lançamento do livro. Frustrei-me. Não com a venda (70% da edição), mas com a fatalidade do fracasso a independentes na literatura.

Daí que, após dois anos, não sabia como reaparecer num botequim de tantas histórias, lembranças boas e amargas, amigos que continuaram próximos ou de quem não soubera mais. Única, isolada, uma foto-memória formada e registrada esteve sempre presente na saudade.

Quem escreve ficção não deve achar estar propondo soluções ou esperar respostas. Nada pode ser enquadrado, compartimentado, exatamente obtido. Mandamos às favas os esquemas que partam da história para anunciar o futuro. Tudo deve ficar solto no ar para nele se desmanchar e ser exalado como fumaça na infinita piteira que leva ao final da humanidade.

Por que, então, escrevemos ficção? Ora, simples, para que alguém possa perguntar: “lembra aquela passagem de Machado em “A Cidade e as Serras”? Ou era do Eça de Queirós?

Mudei muito neste último ano, depois de publicado o livro, mas não só por isso. Tempo curto e grosso, não? De nada, meu senhor, agradeço, mas é muito quando se vai de 71 para 72. Tudo fica menos nítido, mais melancólico. Experimente ouvir “Manhã de Carnaval”, de Luiz Bonfá, e o bucolismo do trombone que o interpreta. Surpreende. Afinal não era manhã de Carnaval?

Tinha medo do que sentiria e veria ao entrar no Botequim do Serafa. Não que desconfiasse da competência de quem organizou a nova casa e daqueles que hoje a dirigem.

Para lá chegar naquelas vestes deveria estar montado numa motocicleta, meio único, ainda que a ideia de um patinete passara em minha cabeça. Foi quando me lembrei de Cyryllus.

Conheci-o há muito tempo. Procurou-me quando escrevi um artigo defendendo os motoboys, afiançando a utilidade de seu trabalho e justificando sua agressividade. Leu-o no sindicato. Se bem me lembro, replicava um artigo da psicanalista Anna Verônica Mautner, na Folha, que furiosamente reclamava de seus gestos, buzinas e pontapés na porta de carros. Meu texto amparava-os, atacando nossa suposta supremacia, o sistema cruel que lhes era imposto pelos patrões, e a generalização impensável em uma psicanalista.

Teria mudado o número de seu celular? Liguei:

- Railway Express, Silvana, à sua disposição.

Hesitei:

- Devo ter-me enganado. Este não deve ser o telefone do Cyryllus.

- Não houve engano, senhor, mas o Dr. Cyryllus está em reunião. Quem gostaria?

- Um amigo, Rui Daher

- Aguarde um minuto na linha.

- Ruuuui Daher, meu Deus, como tenho pensado em você. Li seu livro. Não te procurei, achando que, famoso, nem se lembraria de mim.

- Famoso, eu? Pelo jeito, você sim com a Railway Express.

- O que você manda?

- Preciso de um favor.

- É pra já.

Resumo a história,

- Marcado, Rui. Domingo que vem, 29 de outubro, sete e meia, te pego em sua casa.

- Obrigado e abração, Cyryllus.  

Pensei, Railway Express, por quê? Por mais esquisitos, nomes e marcas não me surpreendem mais. Numa estrada do Paraná, não estranhei um motel chamado “Dragões em Fogo”. Cyryllus tem história pedregosa com nomes. Nasceu Cirilo e não gostou. Quando completou 18 anos, foi ao cartório e deformou-o até Cyryllus. Parece ter vivido feliz depois da mudança.   

 

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2 comentários

Comentários

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Cris Kelvin

Tento entender....

... a psicologia do escritor e sua relação com aquele e que o lê; não falo de você,  em particular, mas de todos que publicam e (porque cargas d’agua)    não tem interelocução; outro dia, tive um arranca rabo com uma amiga; dizia, ela, que o GGN não é espaço para publicar certas coisas; coisas, diga-se,   poéticas, sem lastro com a literalidade, a que a maioria não está acostumada;  ela, minha interlucutora,   acha que  “cada um deve estar no seu quadrado”; não deveria publicar  aqui, disse ela, não seria o  meu espaço; contra argumentei que GGN era um espaço aberto à pluralidade, embora seus membros estivessem mais interessados na verdade factual, em vez das viagens que glosam o mesmos temas, sem beiras, mas ainda com eiras. 

E fico aqui,  matutando, a interlocutora me cobra: devemos escrever de maneira fácil (condena o elitismo); ; e eu l contra-argumento: e a liberdade?  concordo com toda essa coisa social, digo que não quero o próximo, mas o distante;  como explicar? muita água corre embaixo dessa ponte,  e as pessoas,, pela simples razão de quererem verdades acabadas, tangenciam o que se esfuma  em qualquer cachimbo ou piteira. O que esperar? t Nada, nem quando publicamos no fora de pauta do GGN, esperando ser compartilhado; até porque, com estrelinha ou sem, liberadas ou não,  não sabemos quais os critérios para a republicação, quem é o editor, se leu ou não leu,  o que  pen, sa, se uns bobos, muito embora, sejam apenas valores  relativos e questionáveis; mas vá lá  nenhum essentimento, “as portas da cidade também são santas”. .   Nada para se preocupar, embora um ou outro, anônimo ou com nome,  queiram um mínimo de  feedback.  

Então,  fico navegando nos fumos dessa piteira, desfeitos  no ar ao infinito,  sem prontas respostas,  lembrando, ao mesmo tempo, um recente  e desconhecido baião  que alguém fez para um poema de Jorge de Lima, na direção do nosso cultivado  e partilhado  sertão. Um abraço, caro Rui.  Se não me fiz, entender, perdoe.

 

 

CACHIMBO DO SERTÃO 

 

Aqui é assim mesmo.

Não se empresta mulher,

não se empresta quartau

mas se empresta cachimbo

para se maginar.

 

Cachimbo de barro

massado com as mãos,

canudo comprido, que bom!

 

— Me dá uma fumaçada!

 

- Que coisa gostosa 

só é maginar!

Sertão vira brejo,

a seca é fartura,

desgraça nem há!

Que coisa gostosa só é cachimbar.

De dia e de noite, tem lua, tem viola.

As coisas de longe vêm logo pra perto.

O rio da gente vai, corre outra vez.

Se ouvem de novo histórias bonitas.

E a vida da gente menina outra vez

ciranda, ciranda debaixo do luar.

Se quer cachimbar, cachimbe sêo moço,

mas tenha cuidado! 

- O cachimbo de barro

se pode quebrá.

 

(Jorge de LIma)

 

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zésergio

dominó....

Caro sr., sinto a falta da intelectualidade, dos personagens do poder, de uma certa elite (não no sentido depreciativo) próximo da sociedade brasileira (Bush quando do 11.09, estava lendo para crianças do prézinho. E era o Bush. O mesmo que fez um brilhante discurso, estes dias, em favor da democracia e igualdade, representados pela Republica Americana. E era o Bush). Quando vemos isto em Universidades Brasileiras? (geralmente às quintas e sextas com extensão de aulas no Boteco em frente ao Campus). Somos grande consumidor de cultura, mas desta forma, compramos milhões em livros de Harry Potter, ao invés de Cronistas e Contistas Brasileiros. Marketing e Consumo. E não Cultura. Não sei se fui claro. Mas no final a culpa é nossa mesmo.  (P.S. Só gostaria de lembrar que a FEBRE AMARELA, que matava e fazia o pânico, em MG, RJ, SP durante o Governo Dilma, depois que ela caiu, não desapareceu. Desapareceu apenas dos noticiários. Continua matando no estado de SP, agora já dentro da cidade de São Paulo. Mas  o espetáculo e o pânico, estes sumiram de telas e folhas cotidianas)

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Cris Kelvin

Não sei...

... como aquele "bobo" apareceu no texto:... nenhum endereço certo...   há erros de digitação.,. acho que refere  a mim mesmo....

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Cris Kelvin

Não sei...

... como aquele "bobo" apareceu no texto:... nenhum endereço certo...   há erros de digitação.,. acho que refere  a mim mesmo....

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