O reacionário, o niilista e o democrata

     Quando a maioria da população não quer uma nova ditadura, mas desiludida com Bolsonaro, um quarto dessa população abaixa as armas e manda a democracia à merda.
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    A Folha publica neste 01 de janeiro de 2020 uma interessante pesquisa sobre apoio da população brasileira à democracia.

    A manchete é um tanto quanto contraditória – “apoio à democracia cai no primeiro ano do governo Bolsonaro” – para em seguida afirmar “pesquisa aponta crescimento da parcela da população que avalia como negativo o legado deixado pela ditadura militar”.

    Assim, teríamos ao mesmo tempo perda de poio à democracia e conscientização do mal que fazem as ditaduras.

    Vamos então separar a manchete da análise estatística.

    O apoio do brasileiro a democracia

    Pelos dados da pesquisa, podemos estimar que a grande maioria dos brasileiros apoia a democracia – algo como 65% da população. Já os reacionários jamais estão abaixo dos 10% e há que se pensar por que ainda temos algo como 20 milhões de pessoas amantes da ditadura.

    Mas o dado mais interessante e assustador que a pesquisa traz é de que para cerca de um quarto dos brasileiros – 25% – tanto faz viver em uma democracia ou em uma ditadura. E esse niilismo, tão típico dos brasileiros, é nosso maior risco à democracia.

    Democracia – quanto mais melhor

    O interessante nessa pesquisa é que ela apresenta dados de longo prazo – 30 anos – desde 1989 até 2019. Em outras palavras, praticamente o período da redemocratização. E, ao contrário da intenção da manchete, o apoio à democracia cresceu conforme a população foi vivenciando-a. Passou de 43% em 1989 para 62% em 2019.

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    Filhotes da ditadura

    Porém, a informação mais relevante da matéria é a de que sempre houve apoiadores da ditadura.

    Eram 20% em 1989 – às vésperas de nossa primeira eleição depois da Ditadura de 64 – hoje são 12% da população. Caiu o apoio à ditadura, mas ele nunca esteve abaixo de 10%.

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    Não e à toa que Bolsonaro se elegeu por 28 anos para o Congresso ainda que tenha sido um deputado omisso por todo esse período. Ele representa essa parcela reacionária da população – os filhotes da ditadura.

    Os analfabetos políticos, os niilistas e os desiludidos

    Aqueles para quem tanto faz ditadura ou democracia – sempre formaram um contingente em torno de 20% da população. Eram 22% em 1989 e são os mesmos 22% em 2019.

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    Esse grupo varia em relação aos que apoiam a democracia, ganha e perde componentes. E, embora a Folha não subdivida das datas no gráfico, não é difícil estimar que o período em que o niilismo atávico do brasileiro em relação à democracia foi menor foi justamente o período do PT no poder – acensão e queda e todo o movimento popular compreendido entre esse dois momentos.

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    Bolsonaro – e a volta do pendulo niilista – esperança e desilusão

    E finalmente chegamos à manchete: “apoio à democracia cai no primeiro ano do governo Bolsonaro”.

    Não aumentou o apoio à uma nova ditadura. Esse apoio está no seu nível mais baixo – 12%. Mas houve um novo movimento pendular entre o apoio à democracia e o niilismo.

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    Paradoxalmente, a eleição de Bolsonaro em 2018 representa o pico do apoio do brasileiro à democracia 69%.

    Porém, em apenas um ano, Bolsonaro conseguiu consumir toda essa esperança depositada pelo povo na sua própria capacidade de pelo voto colocar no poder e dele retirar os bons e maus governos. E a desilusão e o niilismo voltaram a crescer – em 2019, são 22% da população – que somados aos 4% que não souberam responder à pesquisa, nos levam a algo como um quarto da população de desiludidos.

    Retroagimos à 1989. Alguma novidade?

    PS: a Oficina de Concertos Gerais e Poesia deseja a todos os seus fregueses e amigos um 2020 de saúde e realizações.