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O que eu ganho com a literatura, professor?, por Urariano Mota

O que eu ganho com a literatura, professor?

por Urariano Mota

Esta semana, participei do Projeto Outras Palavras, que a Secretaria de Cultura e Fundarpe realizam em Pernambuco. Esse é um projeto que leva escritores para conversar com alunos da rede pública sobre literatura. Para mim, foi uma experiência fundamental. O colégio aonde fui, a Escola de Referência em Ensino Médio Maria Vieira Muliterno, no Alto da Bela Vista em Abreu e Lima, é uma vitória de educadores e alunos. Ainda não posso escrever sobre o que vi e senti no Maria Vieira Muliterno. Por enquanto, sou incapaz de falar do ânimo de alma dos estudantes com quem conversei. Mas bem posso retomar uma experiência semelhante, que não teve a alegria desta semana.

Nos tempos em que pensei ser professor, sempre tentei dizer a jovens estudantes que a literatura era fundamental na vida de todos. Mas quase nunca tive sucesso nessas arremetidas rumo a seus espíritos. Minhas palavras pareciam não fecundar. Primeiro porque a literatura ministrada a eles, em outras aulas, destruía todo o gozo de viver. Os mestres, profissionais ou burocratas, ensinavam-lhes a anti, a literatura para antas, com listas de nomes, datas e resumos de obras, nada mais. Em segundo lugar eu não fecundava porque o valor do sentimento, o sentido de uma rosa, o cântico de amor ou o desajuste de pessoas em uma sociedade corrupta nada significava para as tarefas mais práticas que se impunham.

– O que eu ganho com a literatura, professor?

E com isso, o jovem, quando de classe média, queria me dizer, que carro irei comprar com a leitura de Baudelaire? Que roupas, que tênis, que gatas irei conquistar com essa conversa mole de Machado de Assis? Então eu sorria, para não lhes morder. A riqueza do mundo das páginas dos escritores, a gratidão que eu tinha para quem me fizera homem eu sabia. Mas não achava o que dizer nessas horas quando o petardo de uma frase de Joaquim Nabuco ganhava a zombaria de toda a gente. Eu sorria e me punha a gaguejar coisas estapafúrdias do gênero os poetas são os poetas, Cervantes era Cervantes. E me calava, e calava a lembrança dos sofrimentos e humilhações em vida do homem Cervantes que dignificou a espécie.

– O que eu ganho com a literatura, professor?

Quando essa pergunta me era feita por jovens da periferia, excluídos, isso me ofendia muito mais que a pergunta do jovem classe média. Aos de antes eu respondia com uma oposição quase absoluta, porque não me via em suas condições e rostos. Mas aos periféricos, não. Eu passava a ser atingido nos meus domínios, na minha gente, porque eu olhava os seus rostos e via o meu, no tempo em que fui tão perdido e carente quanto qualquer um deles. Então eu não sorria. Aquilo, do meu semelhante, me acendia um fogo, um álcool vigoroso, e eu lhes falava do valor da literatura com exemplos vivos, vivíssimos, da minha própria experiência. Então eu vencia. Então a literatura vencia. Mas já não tinha o nome de literatura. Tinha o nome de outra coisa, algo como histórias reais de miseráveis que têm a cara da gente. Que importa? Que se dane o nome, vencia a literatura.

Vencia a qualidade maior da literatura: libertar nos brutos que somos o nosso melhor humano. É algo muito mais precioso, e eterno enquanto houver humanidade, do que tirar uma nota 1.000 na redação do Enem. Ou, se quiserem, pode ser criado até um  anúncio prático de comercial: com a literatura virem humanos, e ganhem uma nota mil para toda a vida.

Mas por enquanto sobre o Maria Vieira Mulierno ainda não posso falar.

*Vermelho http://www.vermelho.org.br/coluna.php?id_coluna_texto=8768&id_coluna=93

 

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Idéias!

A resposta à essa pergunta, e acho ela legitima da parte de crianças e adolescentes, poderia ser: ganha-se mundos; imaginação, conhecimento, aprende -se a argumentar, a estruturar o pensamento, a se descobrir, a questionar, a ser mais esperto que àquele que não lê e, por isso, ele desconhece muitas coisas; a também não ser manipulado facilmente, descobre-se mil vidas e muitas possibilidades... Acho que pode ser por ai.

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ze sergio

o que....

Caro sr., quando ensinamos alguma coisa à nossa juventude? Educação sempre foi tratada como uma forma de privilégio, de soberba sobre outras pessoas ou classes. Isto é histórico e acima de qualquer época histórica brasileira. "Doutor" é quase um Título de Nobreza. Não pelo significado intelectual, educacional, representativo na evolução do conhecimento, mas pura soberba. Nos colocamos no nível de América Latina. Quando? Não temos este direito. A América Latina é muito mais desenvolvida intelecto e educacionalmente. Não podemos nos comparar à Colômbia, Chile, Peru, México, Argentina, Uruguai...Basta ver como prezam por sua cultura, sua história, seus patrimônios históricos. Não nos falta literatura. Falta tudo, falta cultura. É preciso primeiro preparar o campo para lançar a semente. Não à toa somos uma Ilha de Ignorância cercada de Nóbeis por todos lados. Nos comparamos aos vizinhos? Nosso atraso é tamanho que não conhecemos nem nossos próprios vizinhos. Nisto nosso professorado ideologizado e esquerdopata também não ajudou em nada. Com esta vitimização, com esta censura e castração ideológica, com a patrulha do politicamente correto, manteve cabeças e cultura atrelados a uma única linha de pensamento. Basta ver a castração que ocorre nos meios acadêmicos? Se não for ideologicamente direcionado não é nem mesmo aceito nos meios culturais. A própria patrulha na liberdade de expressão, defendida por muitos, até numa simples prova de analise de conhecimentos para a aceitação em universidades, como no caso do ENEM, mostra isto. Liberdade de Expressão que seria submetida à censura de pseudo-protetores dos Direitos Humanos, mostra que nossa cultura e educação ainda não teve acesso ao Iluminismo. Não é só Literatura.. Nossa Cultura está atrasada ainda num 300 anos. .abs.     

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ze sergio

o que....

(...nuns 300 anos...). O professorado poderia trazer à literatura para perto do cotidiano brasileiro. Por exemplo ensinando Literatura de Cordel que é algo extraordinário. Fiquei 20 anos na escola (até ser expulso do primário) e nunca vi isto na sala de aula. Depois não adianta apelar para o fatalismo tupiniquim. abs. 

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Antônio Uchoa Neto

Tive experiência semelhante,

Tive experiência semelhante, mais rápida e eficiente, creio eu.
Há uns trinta, ou trinta e cinco anos, tinha uma imensa veleidade de ser escritor. Como J. D. Salinger, não conseguia escrever nada sem já visualizar tudo impresso, encadernado em livro.
Meu pai perguntou: "Mas tu queres ser escritor, num país de analfabetos, onde quem sabe ler geralmente tem dificuldade para entender uma frase com dois períodos? E vais viver de quê, enquanto isso?"

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