A esquerda faliu: a utopia que resta é se tornar classe média, por Wilton Cardoso

    A esquerda faliu: a utopia que resta é se tornar classe média

    Por Wilton Cardoso

    Do blog do autor

    Já tenho um filho e um cachorro
    Me sinto como num comercial de margarina
    Sou mais feliz do que os felizes
    (Zeca Baleiro)

    Num artigo contundente o historiador e cientista político Roberto Bitencourt procura chamar as esquerdas à realidade e despertar nelas seu original espírito de luta, lembrando que, no fim das contas, o jogo político é uma disputa de forças, no qual ganha o lado mais bem armado ou, no caso das esquerdas, com mais soldados. Bitencourt retoma a questão central da luta de classes e da necessidade do povo lutar contra a exploração, recorrendo, se necessário, à desobediência civil (das leis burguesas) e até à luta armada.

    Lembra a bem humorada tirada de Stalin, perguntando a seus interlocutores quantas divisões o Papa possuía, ironizando sua “capacidade moral” de interferir na Segunda Guerra. Para Bitencourt, as esquerdas estariam fazendo, hoje, papel de Papa, ao protestar contra o fascismo e a direita tradicional recorrendo a argumentos éticos e morais (o bom-mocismo), em vez de unir e armar (ideologicamente e até militarmente) o exército de trabalhadores explorados pelas nossas elites aliadas do imperialismo.

    O raciocínio de Bitencourt é realista e as esquerdas não vão conquistar o poder e promover a justiça social ou, quem sabe, uma revolução socialista, com bom-mocismo ético, notas de repúdio e discursos bonitos: como diz o ditado, de boas intenções o inferno está cheio. A questão que se pode colocar a Bitencourt e aos que pensam como ele é:

    E se o povo explorado não quiser de jeito nenhum se unir para formar um exército popular de resistência, seja ela ideológica ou armada?

    A resposta a esta objeção costuma ser:

    Os intelectuais e ativistas da esquerda (movimentos organizados, sindicalistas, membros de partidos) deveriam, então, procurar uma maneira de despertar a consciência nos explorados de que eles são… explorados. E, como tais, deveriam se unir numa luta comum para fundar um outro tipo de sociedade, social-democrata ou socialista, em que a exploração seja minimizada ou abolida.

    A teoria do abandono dos pobres pela esquerda

    Não são raros os intelectuais que, como Bitencourt, criticam as esquerdas de terem perdido contato com o povo explorado, deixando um vazio ideológico e político que foi ocupado pelas ações concretas (práxis) do cristianismo evangélico, da ideologia meritocrática neoliberal e, agora, do delírio raivoso da anticorrupção e da antipolítica, perpetrado pelo neofascismo bolsonarista via redes sociais.

    Segundo esta interpretação, por conta dessa omissão das esquerdas e a consequente ocupação das periferias pela direita evangélica, neoliberal e pela extrema-direita, o pobre se vê, ao mesmo tempo, como um filho temeroso de Deus e um capital humano individual, cuja fé e dedicação ao trabalho duro irá premiá-lo com uma vida confortável de classe média, de acordo com as leis divinas da teologia da prosperidade e a moral mundana da meritocracia.

    Esta visão de mundo religiosa, individualista e mercantil, em que cada pessoa se vê como empreendedora de si, teria sido inculcada nas massas exploradas, impedindo-as de perceber seu destino de uma perspectiva histórica e coletiva, a qual mostraria que o fracasso individual e familiar dos pobres e miseráveis não decorre do castigo divino nem de falhas individuais na capacitação para a inserção no mercado, mas de um sistema social (o capitalismo neoliberal) que inevitavelmente tende a gerar uma imensa massa de pobres em contraposição a uma pequena elite muito rica e poderosa. O que não deixa de ser uma verdade.

    A dupla questão é, primeiro, se esse hiper-individualismo que impregna as classes populares decorre da omissão das esquerdas, cujo vácuo de ação foi preenchido por grupos de grupos de direita que não perderam tempo em disseminar sua visão ideológica entre as massas pobres; e, segundo, se tal situação pode ser revertida por parte das esquerdas com uma ação efetiva de reaproximação e esclarecimento, fazendo com que os trabalhadores tomem consciência de sua situação de explorados e se tornem soldados (armados ou não) da justiça social ou até de uma revolução socialista. Eu me arrisco a responder a ambas as questões com um duplo não: nem a omissão das esquerdas, substituída pela proatividade da direita, é responsável pela visão de mundo individualista e meritocrática dos pobres, nem é possível reverter tal visão com ações práticas de aproximação e conscientização das massas.

    O individualismo despolitizado dos pobres, capturado por ideologias reacionárias como o fundamentalismo evangélico ou o neofascismo e que impede uma consciência de classes e, em consequência, uma luta de classes revolucionária ou mesmo reformadora do capitalismo (social-democrata), este individualismo decorre de um processo de agenciamento dos indivíduos que está fora do controle da esfera política e, portanto, das vontades coletivas e das boas ou más intenções de certos grupos sociais, sejam da direita ou da esquerda.

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    A visão (e a efetiva transformação) de si mesmo como capital humano e auto-empreendedor nada mais é do que a conformação final da subjetividade capitalista, cujos desejos e necessidades se reduzem finalmente às necessidades do capital. O sujeito pós-moderno do neoliberalismo, seja ele pobre, classe média ou rico, é definido por sua capacidade de trabalhar, ganhar e principalmente consumir. Essa redução dos sujeitos à mero capital humano não é resultado da disseminação, intencional ou não, da ideologia das elites dominantes entre os pobres, mas fruto do desenvolvimento “natural” da estrutura do sujeito moderno que, desde o início do capitalismo é, em potência, capital ou, para usar um termo de Marx, sujeito automático governado, de fato, pela lógica da mercadoria.

    O gozo do consumo e a utopia de ser classe média

    O consumo, ato em que a mercadoria finalmente cumpre o seu destino de reprodução do capital ao se reconverter em dinheiro, constitui, ao mesmo tempo, gozo sistêmico e individual, no qual o sujeito se reconhece e é reconhecido em sua plenitude como cidadão capitalista digno de respeito.

    Do ponto de vista subjetivo, o consumo individual, a vida confortável e até mesmo excessiva (consumista), passam a ser o objetivo maior dos sujeitos da sociedade mercantil, a partir do advento do neoliberalismo e sua pós-modernidade, na década de 1980. Não é à toa o recente sucesso da desmesurada teologia da prosperidade entre os pobres, que derrotou a utopia solidária e frugal da teologia da libertação.

    A utopia pós-moderna, desde então, não é mais a justiça social ou o socialismo, mas a sociedade de classe média. Individualmente, o sonho é ascender à classe média via poder de consumo e, coletivamente, a utopia é se construir uma sociedade massivamente de classe média, onde quase todos podem consumir com fartura (em excesso), como os norte-americanos, europeus e japoneses.

    Mas a maioria se tornar classe média não implica, no fim das contas, num ideal de distribuição da renda? Sim, mas esta distribuição de renda não se daria a partir de decisões coletivas conscientes, via ação estatal, por exemplo, de forçar um certo igualitarismo sócio-econômico, e sim por meio da ação individual obstinada e disciplinada voltada para o mercado, a começar pelos estudos básicos, passando pelo aprendizado profissional até a atuação no mercado, seja como trabalhador, gerente ou proprietário. Assim, os indivíduos mais dedicados e capazes seriam premiados, pelo mérito, com o acesso à classe média ou até mesmo à elite. O estado, nesta perspectiva, cumpriria apenas o papel (neo)liberal de deixar o mercado funcionar e as pessoas trabalharem livremente.

    Não é preciso dizer que esta utopia é uma ilusão cada vez mais distante no capitalismo atual, que promove exatamente o contrário: a tendência sistêmica, inclusive nos países ricos, é o empobrecimento das classes médias e exclusão quase total dos pobres da vida social, que se tornam supérfluos à produção de capital e perdem, na prática, o direito de existir como sujeitos. (Obs.: a emergência dos neofascismos atuais são uma resposta irracional e rancorosa ao fracasso da utopia pós-moderna de promover uma sociedade majoritariamente de classe média).

    A subjetividade empreendedora e a alma “classe média” como tendências espontâneas do capitalismo

    Ora, a constituição do “homem classe média”, sua autodisciplina para os estudos e o mercado, sua disposição para trabalhar, poupar e consumir, sua racionalidade comedida e sacrificial, voltada para a riqueza e o conforto futuros, sua formação, enfim, voltada para a produtividade do capital, foi fruto exatamente da luta sindical e das políticas sociais democratas da esquerda ocidental do pós-guerra.

    Ao invés de desenvolver uma consciência coletiva e politizada, o “homem classe média” produto da luta de classes sindicais ficou cada vez mais individualista e despolitizado, desaguando no “homem pós-moderno” neoliberal que se vê como capital humano individual e empreendedor. Mas este não seria o resultado lógico de uma solidariedade de esquerda que visava, no fim das contas, apenas a redistribuição do capital para as classes trabalhadoras, sem questionar, de fato, as relações sociais de base do capitalismo, entre elas o trabalho que transforma as pessoas em mercadorias?

    A partir do momento em que os indivíduos e famílias passam a receber algum excedente que lhe permitem um consumo além do suficiente à mera sobrevivência, as pessoas passam a se comportar como capitais particulares que concorrem, investem e negociam no mercado, reproduzindo a lógica da sociedade mercantil.

    O sucesso simbólico das vastas classes médias do primeiro mundo foi tanto que se espraiou como utopia a ser alcançada por todos os países do planeta. E o “homem classe média” passou a ser o modelo a ser atingido pelo pobre, despossuído de excedentes, mas que pode, por meio do sacrifício, do aprendizado e da disciplina, ascender à classe média por mérito próprio. Se não ele, pelo menos seus filhos, criados à maneira das crianças de classe média, com uma férrea dedicação aos estudos e à profissão.

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    A politização e consciência de classe que certos intelectuais tanto cobram que as esquerdas promovam, junto com o acesso ao consumo e as políticas de distribuição de renda, são simplesmente impossíveis de se realizar, mesmo que haja vontade política para tal. Isso porque, mantendo-se as categorias basilares do capitalismo, como o trabalho, a mercadoria, o dinheiro, o lucro, o mercado de consumo, o estado de direito e todo o arcabouço liberal da sociedade da mercadoria, a promoção do acesso ao consumo e da distribuição da renda resultará, automaticamente, na formação de uma subjetividade individualista e consumista, que se vê como capital individual.

    Mesmo que a distribuição de renda promovida pelas esquerdas venha acompanhada com uma vontade educadora de conscientização das massas, a estrutura social e psíquica do capitalismo prevalecerá como constituição fundante dos sujeitos e grupos sociais e o resultado da promoção da justiça social será sempre uma sociedade e uma subjetividade regidas cada vez mais pelo individualismo, meritocracia, autoempreendedorismo e consumismo. Em suma, as lutas políticas e os esforços distributivos das esquerdas, com a intenção de reforma humanista ou superação socialista do capitalismo, ao não criticar e abolir a esfera de produção do capital (principalmente o trabalho), acabam por reforçar a lógica capitalista, tanto na esfera coletiva, quanto individual.

    A alma “classe média” como realização final da subjetividade capitalista

    E mesmo a atuação das esquerdas, no sentido de conscientização de classe e promoção de lutas solidárias ou socialistas, em situação de aumento da desigualdade social e exploração do trabalho, como ocorre atualmente no Brasil, se torna impossível. Afinal de contas, a partir da década de 1980 a “alma” do “homem classe média” não constitui apenas a subjetividade das classes médias reais, mas também a dos pobres e miseráveis, que se tornaram, em potência, classe média. E procuram se adequar, da melhor forma possível, para realizar esta potência e ascender, de fato, às classes médias.

    Este desejo de ser efetivamente (monetariamente) classe média, ao mesmo tempo que já se é em potência (psiquicamente, espiritualmente) não se trata apenas de ideologia, de ideias que beneficiam as elites absorvidas pelas massas. Pelo contrário, o “espírito classe média” constitui uma estrutura real da psique individual, ou melhor, é o desenvolvimento final da subjetividade do homo economicus capitalista.

    Na aurora da sociedade burguesa, à época da Revolução Industrial, a subjetividade plena da sociedade mercantil, que absorve num único sujeito os pólos conflitantes do trabalho e do capital (do operário e do capitalista, do trabalhador e da elite) estava dada apenas em gérmen, na forma de pequena burguesia, subclasse social acessória e minoritária até a primeira metade do século XX. Com a democratização do capital promovida pela social-democracia no pós-guerra e o consequentemente advento das classes médias, a plenitude do sujeito moderno como homo economicus, patrão e empregado de si, começa a se consolidar, para se tornar dominante, enfim, no período neoliberal, em que a “alma” classe média (capital humano empreendedor de si) estrutura, inclusive, a mentalidade dos pobres.

    A classe média realiza a síntese entre os polos do capital e do trabalho. O homem classe média é, ao mesmo tempo, patrão e empregado de si mesmo, seja ele um assalariado ou um proprietário, pois sua autodisciplina e proatividade deve ser tal que ele não necessite de patrões ou feitores para realizar o seu trabalho. Daí à consolidação de uma sociedade “libertária”, pós-moderna, neoliberal, flexível e hiper-individualista, de desregulação total do trabalho é um passo, mais que lógico, necessário.

    Necessário ao capital para compensar a queda de lucratividade e desvalorização do valor provocada pela crescente automação da produção, que resulta em massas cada vez maiores de pessoas supérfluas ao capital. Mas a flexibilização do trabalho (na verdade sua precarização) é necessária também à nova subjetividade pós-moderna e sua visão de si como capital individual em concorrência com os demais.

    Novamente, não se trata da ideologia neoliberal introduzida nas massas, mas da estruturação psíquica dos sujeitos do capital ― que começa nas classes médias e se irradia para as massas pobres ― a exigir a liberdade/flexibilidade de sua atuação no mercado. A ponto de não mais fazer sentido existir um mercado de trabalho regulado e protegido da competição encarniçada, à parte dos outros mercados, mas apenas o mercado total, onde o trabalho entra como serviço individual (mercadoria a mais) a ser vendido.

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    Na utopia pós-moderna, partilhada cada vez mais por pobres, elites e classes médias, não há mais trabalhadores, mas pessoas-empresa em concorrência no mercado total capitalista. Não à toa, as reformas trabalhistas, sempre em direção à flexibilização das leis do trabalho, têm encontrado cada vez menos resistência para de serem aprovadas nas democracias ocidentais. O sujeito pós-moderno se identifica cada vez menos com um dos pólos da oposição trabalhador-proprietário e se vê, ao mesmo tempo, como patrão e operário de si-mesmo, empresa individual em concorrência com todos os outros capitais humanos.

    Isto implica na impossibilidade de existir uma consciência de classe por parte dos pobres, que se veem e efetivamente funcionam como capitais individuais, só que perdedores ― como as empresas derrotadas na concorrência capitalista. Esta situação psíquica corresponde, por sua vez, à situação social do capitalismo, cujos extratos sociais não se definem mais como classes sociais de acordo com a função dos indivíduos na produção, que até meados do século XX definia claramente uma classe operária e camponesa, uma pequena burguesia e os capitalistas.

    A desclassificação das classes

    O capitalismo do pós-guerra promoveu um paulatino processo de “desclassificação” das classes sociais, à medida em que a indústria e o campo foram automatizados, expulsando das fábricas e campos a imensa maioria dos operários e camponeses, que passaram a integrar os pobres e as classes médias urbanas, tornando-se trabalhadores, proprietários ou autônomos do setor terciário (comércio, serviços, funcionalismo público).

    A partir daí, as classes passam a ser definidas cada vez menos pela função do indivíduo no processo produtivo e mais por seu poder de consumo (renda) e, no caso das classes médias, pela posse do que Jessé Souza chama de capital cultural, ou seja, a disponibilidade de tempo e recursos para se formar instrumentalmente para o mercado e também culturalmente, com a finalidade de delimitar uma esfera elevada de prestígio, bom gosto e autoestima, em oposição aos pobres (desprestigiados, bregas e sem autoestima).

    Nesse novo arranjo de classe, o correspondente aos trabalhadores seriam os pobres e miseráveis, que Jessé Souza nomeia respectivamente de classes populares e ralé. Mas eles não são mais trabalhadores assalariados majoritariamente industriais como no início do século XX. Muitos são informais, autônomos, ambulantes, pequenos proprietários e mesmo entre os assalariados há enormes disparidades de renda e direitos: um terceirizado normalmente está, do ponto de vista de direitos e renda, num patamar inferior aos contratados diretamente.

    Esta heterogeneidade trabalhista dos pobres e miseráveis, muito bem observada por Maurílio Lima Botelho num artigo recente, impede a formação de uma consciência de classe e, em consequência, de uma frente ampla de luta de esquerda. Mesmo porque, esta realidade social fragmentada é alimentada (e também alimenta, num processo de causalidade mútua) a nova estruturação psíquica dos sujeitos, que se constituem (e se veem) não mais como trabalhadores e sim como capitais individuais em concorrência uns com os outros.

    Em última análise, a teoria marxista das classes sociais que alimentam o discurso e a ação das esquerdas, deixam de ser funcionais para a realidade empírica do capitalismo no pós-guerra e, principalmente, na quadra neoliberal, quando o processo de “desclassificação” se completa. Psiquicamente todos os indivíduos do século XXI são, em potência ou efetivamente, de classe média, ou seja, sua identidade estabelecida é a do auto-empreendedor, ao mesmo tempo patrão e empregado de si, microempresa individual em concorrência com as demais, sejam elas outros indivíduos ou empresas de fato.

    As esquerdas pouco podem fazer para mudar tal situação, a não ser que elas questionem as categorias básicas do capital na esfera de sua produção: o valor, a mercadoria e, principalmente, o trabalho. A mera solidariedade distributiva, que tenta corrigir as injustiças do capital na esfera de sua circulação, mesmo que se queira socialista e altamente politizada e politizadora, promove apenas a democratização do capital e a consolidação da subjetividade capitalista em que o sujeito se vê e efetivamente se torna um capital individual.