Super-herói do mal revela amoralidade dos super-heróis da América em \”Brightburn\”

    Talvez poucos conheçam a primeira versão do icônico super-herói norte-americano Superman: no começa da década de 1930, ele era um vilão com poderes psíquicos usados para dominar a humanidade. Mais tarde foi repaginado, cujos poderes passaram a ser usados para o “Bem”, e utilizado depois como herói da propaganda política na Segunda Guerra Mundial. O terror/sci-fi “Brightburn – O Filho das Trevas” (“Brightburn”, 2019) vai não só se inspirar nessa antiga versão do Superman como, através da iconografia heroica (com máscara e capa, só que agora vestindo o “Mal”}, jogar com a essência da galeria dos super-heróis dos EUA: a amoralidade, como uma “vontade de potência” que está acima do Bem e do Mal – tudo que é feito com uma boa intenção, não pode ser mau. É apenas o “destino manifesto”. Filme sugerido pelo nosso leitor Felipe Resende.


    Criado pela dupla de autores em histórias em quadrinhos, Joe Shuster e Jerry Siegel, o personagem Superman veio ao mundo em 1938 através da revista Action Comics # 1, nos Estados Unidos. A história todos sabemos: nasceu no planeta fictício Krypton e foi mandado à Terra pelo seu pai, um cientista, momentos antes do planeta ser destruído. O foguete caiu na Terra na cidade de Smalville onde o jovem foi descoberto por um casal de fazendeiros. Cresceu e foi descobrindo que tinha habilidades diferentes dos humanos. Já adulto, assume a identidade de um repórter, Cark Kent, e, nas horas vagas, luta contra vilões que pretendem dominar o mundo vestido com o seu tradicional uniforme azul e vermelho.

    Mas, o que poucos sabem, é que na primeira versão do Superman, no início dos anos 30 quando as HQs ainda não eram tão populares, ele foi então concebido como um vilão, cujos poderes psíquicos eram usados para manipular pessoas e dominar a humanidade.

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    O terror/sci-fi Brightburn – O Filho das Trevas, 2019 (e como quase sempre, os títulos em português parecem não entender nada…), vai claramente fazer uma releitura dessa, digamos assim, pré-história do icônico herói das HQs. Mas uma releitura que fala menos do protagonista e muito mais da cultura que o circunda – a chamada “América Profunda”, de “rednecks” que costumam presentear com rifles embalados em caixas de presente, meninos aniversariantes de 12 anos. Como acompanhamos a certa altura do filme.

    E como essa cultura é baseada num profundo processo de negação psíquica – demora três mortes e uma horrível mutilação para alguém ligar para a polícia para tentar alertar sobre a ameaça que representa o menino Brandon Breyer, um jovem de 12 anos esquisito, com inimagináveis poderes psíquicos e telecinéticos e, acima de tudo, muito temperamental.

    Além de matar em série todos aqueles que ameaçam se interpor no caminho, sente-se um ser superior e cria um bizarro uniforme de super-herói com capa e máscara caseiras.

    Negação psíquica

    Mas o gênio do filme Brightburn é falar menos do menino alienígena e muito mais sobre nós mesmos. Um menino extraterrestre que descobre em si mesmo, na medida em que cresce, tantos poderes poderia ser facilmente colocado no plot clássico de aliens com um plano de dominar o mundo – sua queda naquela pequena cidade como parte de um plano extraterrestre de dominação e destruição.

    A crítica especializada parece não ter compreendido muito bem a proposta da dupla de roteiristas Brian e Mark Gunn: veem o filme como inverossímil e com os personagens mais burros e improváveis da recente cinematografia de terror – levam muito tempo para fazer cair a ficha, apesar de todas as evidências. E quando pensam fazer alguma coisa, o filme acabou e está todo mundo morto no estrago generalizado – e isso não é spoiler!

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    Brightburn é um filme sobre como uma cultura local (a América Profunda, irradiada para todo o planeta) é baseada em processos de negação e racionalização psíquicas. E como o jovem alienígena parece espelhar essa cultura terrestre e reinterpreta-la a partir de uma nietzschiana “vontade de potência”, sem qualquer plano, propósito ou estratégia. Apenas “tomar” o mundo a partir de uma premissa de superioridade manifesta.

    A chave de compreensão de Brightburn é o bizarro uniforme que Brandon inventou para emular os super-heróis da Terra.

    O Filme

    Tory (Elizabeth Banks) e Kyle Bryer (David Denman) é um casal de fazendeiros em dificuldades para engravidar. Ela, talvez mais do que o marido, deseja desesperadamente um filho. O filme começa em alta rotação: quando Tory e Kyle iniciam outra noite para tentar a gravidez tão desejada, são interrompidos por um violento estrondo: algo caiu do céu, direto no celeiro da fazenda.

    Um meteorito? Não, como veremos com mais detalhes mais à frente: é uma pequena nave espacial, levando um pequeno bebê. Será que Deus ouviu às orações de Tory? Mandou um bebê, vindo diretamente das estrelas, só para ela?

    Tory e Kyle são fazendeiros, o “sal-da-terra” de um América Profunda e religiosa, que acredita na inocência e na bondade, ao lado de celeiros cheios de armas e homens que passam as noites bebendo e jogando sinuca, enquanto as esposas ficam em casa em atividades caseiras como pintar quadros e cuidar dos filhos.

    Essa é a pequena cidade de Brightburn. Onde um casal adota um bebê alienígena sem muitos questionamentos, como fosse um presente de Deus. É dado a ele o nome de Brandon Bryer (Jackson Dunn), que cresce com os pais omitindo sua origem alienígena: ele foi apenas “adotado”. Enquanto a nave espacial foi cuidadosamente trancada no porão do celeiro.

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    Brandon leva uma vida aparentemente normal (apesar dos pais nunca terem visto ele sangrando, machucando-se ou fraturando algum osso do corpo, coisas que seriam normais de um menino que mora no campo), até que, aos 12 anos, começa a ser despertado algo de sobrenatural: torna-se sonâmbulo, ouve vozes que parecem leva-lo ao celeiro. Mais precisamente, na porta do porão trancado com cadeado.