No Brasil, algum dia deixaram a esquerda acertar?, por Rui Daher

No Brasil, algum dia deixaram a esquerda acertar?

por Rui Daher

em CartaCapital

Penso não ser razoável focar a discussão em onde a esquerda errou. O erro da esquerda foi imaginar que o acordo de elites se daria por vencido.

Por onde passo, perguntam em qual setor trabalho. Respondo agricultura e ouço: “Ah, pra você tá bom. É a única coisa que hoje vai bem no Brasil”.

É verdade. Se melhorar piora. Mas a soja e o milho safrinha serão comercializados em mercado mais ofertado, portanto, a preços mais baixos. Nada a ponto de quebrar ninguém, a não ser os que fazem disso lucro. E o resto? Bem, feijão, arroz, hortaliças, legumes e frutas estarão na gangorra de sempre para virar notícia no Jornal Nacional.

Isso me desobriga da visão assim do alto e me impõe a lupa, não do agronegócio, mas do povo brasileiro em suas agruras.  

Vamos lá. Tenho escrito seguidamente nesta CartaCapital e em meu blog no GGN sobre os impasses da transição do capitalismo para um futuro ainda incerto. Depois de três décadas em que se travestiu de globalização com sucesso, saiu da esfera da produção, mercantil e de serviços, e impôs o foco nos ganhos financeiros. Começa a mostrar claros sinais de esgotamento.

Eric Hobsbawan logo flagrou isso. Outros cientistas sociais e economistas também. Mas ninguém teve coragem de anunciar o debacle próximo ou exercer práxis para abortar a crise. Deu no que deu. O planeta atinge o seu 10º ano de falta de vigor.

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O rentismo na economia capitalista está aniquilando investimentos públicos e privados, ampliando o protecionismo no comércio internacional, concentrando a acumulação financeira e patrimonial, o que faz desaguar em queda de empregos, renda e demanda interna nos países pobres e emergentes, e refúgio para vida melhor nos países ricos.

Ou não? Se assim não acham, devem estar lendo apenas os artigos de Samuel Pessôa e outros renitentes neoliberais, que privilegiam mais  os interesses patronais em troca dos gordos salários que recebem nas casas bancárias. Ah, agora, temos André Resende em momento ambiental-revisionista. Provável amor à fauna equina francesa.

Nesta semana, em evento promocional da CartaCapital, encarando projeto diante da irreversibilidade digital, ouvi Ciro Gomes e a economista Leda Paulani. De ambos, percebi argumentos irretorquíveis.

Pude, inclusive, entender a dialética dos que apoiaram a gestão do PT, Lula e Dilma, entre 2003 e 2016. Seria repetitivo narrar erros e acertos. Existiram, uns para o muito bem outros para o menos mal. O que estamos, hoje em dia, presenciando acontecer na política, na economia e no social do País é um arraso evidente. O silêncio em folhas e telas cotidianas é constrangedor.

Ouso dizer que a eles nada mais importa e nunca importou. Só valia defenestrar do poder um governo legitimamente eleito, que permitia rolarem as águas da Lava Jato, sem interferência, por mais implicados que estivessem. Agora, seu estado é terminal.

Aliás, se no século 17 a cafeicultura brasileira já fazia cagadas homéricas, por que não continuaríamos a fazê-las com as economia e sociedade brasileiras ad aeternum?

No debate de CartaCapital, Ciro Gomes citou ver fissuras (ele?) a permitir que retomássemos o caminho de uma democracia social. Remeteu-me ao filme “2001, Uma Odisseia no Espaço” (Stanley Kubrick, 1968). Eles, o monólito preto; nós, os macacos. 

Penso não ser razoável focar a discussão em onde a esquerda errou. No Brasil, algum dia deixaram-na acertar? Em que ciclo tivemos um sistema distributivo para valer? Os poucos momentos de benesses sociais, quando não logo abortados, passaram a ser fustigados pela elite econômica como “fora de moda”, “passadista” ou comparados aos de países hegemônicos ou com histórico de milênios. O único e recorrente equívoco da esquerda foi imaginar que o acordo secular de elites se daria por vencido.

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A vergonha Temer como presidente é exclusiva de elites e seus simulacros desavergonhados. Dizer que o povo brasileiro não soube reagir é desprezar as mazelas que aqui vivem as classes subalternas. Pedir-lhes mais? Combate? Resistência? Ora, bolas.

Frase bem lembrada pelo jornalista Jânio de Freitas, na coluna de 12/02, na Folha de S.Paulo: “Não há panelaços e bonecos infláveis para os acusados do governo Temer”.

Sabem por quê? Na hora em que eles sentam no vaso para o cocô diário, olham para o produto e pensam: “olha aí o meu mérito; com certeza muito mais bem feito do que o do Severino de Maria, que me serve o cafezinho”.

São genialidades ancestrais. Seus pais, como anotou Pierre Bourdieu, os colocaram nas melhores instituições educacionais, o governo pagou-lhes acesso às universidades públicas, o círculo social indicou-lhes os melhores empregos. Como não produzir o melhor cocô?   

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30 comentários

  1. Isso é um Discurso de ódio contra as Elites! Absurdo

    Absurdo! Se continuar assim teremos uma revolução Francesa! Estamos esquecendo de nossas tradições! Somos Coronelistas e é isso! Este País se fez com coronéis e com coronéis vai continuar! Onde já se viu? Distribuir oportunidades em Universidades e empregos melhores! Assim qualquer que se esforçasse poderia ocupar um cargo público, iniciar uma empresa, seguir carreira acadêmica!

      • Minha geração está sublimando…

        Algo que em outras foi direcionado a ações diretas…

        Perdemos a Coragem ou Ganhamos mais razão? o Senhor poderia analisar isso… 
        Saímos de Marx e voltamos a Hegel. Metáfisicos novamente nesta fase da humanidade, preferimos esperar a razão evoluir por si própria a mudar o real na praxis. Se bem que na alegoria do Senhor e do Escravo, Hegel dizia que o último não lutava por sua liberdade, não se arriscava, como o outro se arriscava para dominar e por isso triunfava!

  2. Quem sabe
    Como diz a velha canção de Geraldo Vandré, que embalou a luta contra a ditadura: “quem sabe faz a hora e não espera acontecer”.
    Depois de anos de espera, a esperança venceu o medo, e brilhou uma estrela. Mas se o PT (não a esquerda, pois parte da esquerda deixou o partido) errou, e errou muito, a culpa não é das elites. A hora de mostrar o que sabia fazer chegou. Porém o PT não soube fazer!

    • Sei lá, Cesário,

      sabe que muitas vezes penso assim, fico confuso, volto atrás. Claro que reconheço muitos erros, como apontei respondendo ao comentário de Brasiliensis. Se pudesse me estender, iria ainda mais longe. Mas, confesso, mesmo que tivéssemos sido perfeitos, nossa ação iria apenas até o limite de machucar os bolsos do 1%.

      Abraços

  3. O Brasil nunca será uma nação civilizada e próspera enquanto…

    O Brasil nunca será uma nação civilizada e próspera enquanto for colonizada pela elite através da mídia. A esquerda errou naquilo que os evangélicos acertaram. O que os evangélicos fizeram que permitiu capturar as bases sociais da esquerda foi investir todas as energias em mídia. E é justamente esse o maior erro da esquerda subestimar o papel da mídia na disputa por hegemonia na luta social.

  4. Tal padre em casa de china

    Caro Rui,

    Em primeiro a agricultura. Vou repetir o que falei a um amigo, empresário do setor de nutrição animal, este fim-se-semana. Desde quando uma boa safra é má notícia? Má notícia foi a quebra da safra 2015/16. Perde-se em preço e ganha-se em produtividade, é o balanço natural do mercado agrícola. Por exemplo, o preço do milho, em tempo de estiagem a R$ 44/sc, em plena safra está a R$ 31 em média, mas a estimativa aponta quase 30% de aumento em produtividade. Agora, se o desenvolvimento da agricultura se manterá, sobrevivendo à crise, vai depender, principalmente, do consumo interno, mas também da evolução do câmbio que não pode ficar a R$ 3,20/USD ou abaixo, da política de crédito para comercialização e plantio da próxima safra, do crédito para investimento em tecnologia, máquinas e equipamentos para a lavoura e dos investimentos em infraestrutura de logística (armazenagem, transporte e portos). Logo, logo saberemos. A agricultura foi o setor que mais se beneficiou o período desenvolvimentista de 2003/14 e o que, até agora, menos sentiu a crise, portanto, é o que mais tem a perder. Confesso que fico dividido, ademais, como em relação aos outros núcleos de apoio ao golpe. Pensando no Brasil e nos brasileiros, torço para tudo dar certo, contudo, ao lado da pena que sinto do pequeno e médio produtor, não consigo reprimir totalmente a expectativa de ver a cara dessa turma da CNA se PSDB/PMDB e caterva puxarem o tapete da agricultura como é, tremendamente, provável.

    Quanto ao fato da esquerda não ter conseguido acertar e cumprir o propósito declarado de desenvolver a economia e de apurar o sentido civilizatório da sociedade brasileira, por meio da inclusão e da disseminação indiscriminada dos direitos de cidadania, deve-se ao comportamento dos governos Lula e Dilma no tratamento que dispensaram à direita.

    Eu não gosto de ficar apontando erros, principalmente da Presidenta Dilma (passei a declinar o gênero após o golpe). Isso é autoimolação na medida em atinge o modelo progressita que defendemos e ignora que todo o quadro político após a campanha da reeleição não permite clareza de interpretação em relação ao que foi feito de certo ou de errado. Em situações-limite, qualquer medida que se tome, mesmo que tenha base e propriedade corretas, tem imensa chance de dar errado. Além do mais, analisar causa e efeito de decisões passadas, desconectando-as das exatas circunstâncias e do espaço de manobra presentes no momento em que foram tomadas, pode levar a conclusões equivocadas.

    O erro crasso, generalizado e que independeu das circunstâncias, foi o erro estratégico de tentar conviver republicanamente (seja lá o que isso quer dizer) com o inimigo e, em muitos casos, tratá-lo como aliado. Inimigo é uma palavra extrema. Define o adversário como algo a ser eliminado, liquidado, destruído. O Lula, PT, Dilma e a esquerda trataram inimigo como adversário e receberam de volta o tratamento dado ao inimigo. Ora, todos sabemos, os mais experientes de vida e os medianamente informados, que desde os primórdios do Brasil o roubo da coisa pública pelos ditos homens públicos nunca foi exceção, sempre foi regra e padrão. Roubaram e se locupletaram, roubam e se locupletam, roubarão e se locupletarão enquanto puderem. Logo, se ao longo dos 12 anos de governo do PT, não tivesse havido conchavos com larápios históricos e notórios, trazendo-os para dentro do governo para que continuassem no exercício de seu mister vocacional, o roubo descarado, não os veríamos agora encastelados no poder. Pior, não estariam Lula, o PT e Dilma no papel de acusados de “os mais corruptos de todos os tempos” em uma paródia do tipo papagaio come milho e periquito leva a fama. Se Lula, o PT e Dilma, não tivessem se esquivado de investigar e denunciar os malfeitos do governo da coalizão PSDB/PMDB/DEM, nos estados e na Federação, o resultado seria outro. Em primeiro, muitos dos esquemas que herdaram, a contar do Mensalão, teriam sido expostos, execrados e teriam tido menos chance de contaminar os seus próprios governos. Com certeza, hoje não estariam na condição de serem atacados e humilhados, com uma desfaçatez e uma hipocrisia únicas, por meliantes e facínoras de toda a espécie cujo lugar não é o de representantes do povo brasileiro. Talvez, se a condução da política tivesse, àquela época, reconhecido que há adversários e há inimigos e que a inimigo se dispensa tratamento distinto, tivéssemos passado por dificuldades e instabilidades de toda a ordem, mas sem dúvida seriamos uma nação melhor.

    Resumindo, e me ancorando em uma expressão do velho Rio Grande do Sul, Lula, PT e Dilma agiram tal qual padre que vai em casa de china, entra cheio de recato, com a melhor das cristãs e missionárias intenções e sai falado na praça. Pô, todo mundo sabe que padre não pode visitar o chinaredo! Tem que desenhar?

     

      

     

     

     

     

    • Olá Brasiliensis,

      Sua análise é perfeita tanto em relação ao agronegócio quanto à política praticada pelo PT no governo federal. Do primeiro, acho que apenas nos resta acompanhar o grau de protecionismo que passará a vigorar, a partir de 2017. 

      Da política, depois de tantas vitórias e conquista de popularidade, mesmo suportando mensalão, mídia, a maior crise da economia mundial depois de 1929, a coragem de deixar a Lava Jato correr leve e solta, mesmo sabendo do foco de suas ações, o afastamento dos movimentos sociais, e erros pontuais, mas fatais, de política econômica depois de 2013, entregaram de bandeja o golpe para a direita manter o secular acordo de elites.

      Ainda não tive tempo para responder aos seus e-mails, mas o farei.

      Abraços 

  5. Quando penso no servilismo da

    Quando penso no servilismo da Dilma diante da Globo, ou na lerdeza do Zé Cardoso. Imagino. Será que eles (da pretensa esquerda) queriam acertar?

    O Lula acertou. Talvez a conciliação naquele momento fosse a única alternativa.

    A Dilma não!  Precisávamos partir pra 2ª etapa de governo progressista. Pegou um país ‘voando’ em 2011 e na base do servilismo e da lerdeza pôs tudo á perder.

    E quanto ao governo Temer , será bem sucedido naquilo que se propôs: a destruição.

  6. Rui, amigo

    Fecho a porta entra o mau cheiro. Fecho as janelas entra o mau cheiro, fecho ouvidos entra o mau cheiro. Paro de respirar por segundos, morro.

    Acabou o filme e esse final era pior do que o dos outros?

    Quando foi que comprei esse ingresso pra trem-fantasma inconcebível? Estou sexagenária, talvez não me lembre… mas eu não comprei esse bilhete !

  7. Como sempre, Rui vai direto

    Como sempre, Rui vai direto ao ponto: capitalismo arruinando a civilização, a esquerda no poder sendo caçada pelos seus acertos, a classe média imbecilizada, a periferia de joelhos, sob o peso esmagador do monólito verde e amarelo. 

     

  8. É estranha mesmo, caro Rui,

    É estranha mesmo, caro Rui, essa cobrança de que o PT deveria ter aparelhado a coisa pública para se manter no poder porque tinha (tem?) um projeto bacana de prosperidade, independência e soberania nacionais. Me lembra estadunidense zoando de problemas que temos e que assumimos que temos, como se os EUA não tivessem problemas ainda mais graves…

    Se o PT tivesse aparelhado o estado em que se diferenciaria dos golpistas? E mais: se tivesse aparelhado o estado teria reforçado o solo adequado e necessário para o viscejar do que plantam os conservadores. Se tivesse aparelhado o estado nada dessa sujeirada que estamos vendo estaria desvelada. Essa sujeirada é feia de ver mas é a realidade…

    E a rigor o PT não é de “esquerda”. Onde já se viu “esquerda” que financia grandes firmas como a firma “Globo”?

    Precisa muita objetividade, muito bom senso, muita sensatez e pureza de intenção, fé inabalável no projeto de um país melhor para todos para criticar o PT ou as “esquerdas”. A maioria das críticas que vejo por aí são muito mais desabonadoras do que sugestões para que, corrigidos os problemas, se encontre soluções. Como diz Cazuza, “o pessoal gosta de escrachar, de ver a gente por baixo, prá depois aconselhar, dizer o que é certo e o que é errado”…

  9. É fundamental discutir os erros (e os de hoje também)

    Se fossem errinhos quaisquer, mas não! A hierarquia se calou, provavelmente parte da militância de carteirinha também. É hora, sim, de serem inventados mecanismos, de criatividade por exemplo para extinguir o processo de eleição via congresso com apresentação de catataus de teses dos mesmos pros mesmos, e eleição dos mesmos, numa luta interna como nos sin- dicatos em que há um faz-de-tudo pra escantear quem pense uma vírgula diferente, e todos caem na ilusão de construção de um pós-capitalismo. A hora é de Frente Democrática que aproxime e até faça concesssões a grupos, personalidades e partidos que usem ou não usem o nome de comunistas e socialistas. Como Luciana Genro falou num debate, o nome pouco importa.

    • Mais uma vez,

      resta à esquerda encontrar caminhos políticos, econômicos e sociais que diminuam a voltagem da financeirização, do rentismo, no planeta, e aumente a voltagem dos processos produtivos, mercantis e de serviços, através de investimentos públicos e privados. Não apenas no Brasil; mas no mundo todo. Transferir acumulação dos fluxos e ganhos financeiros e patrimoniais para a produção, resultando em emprego, renda e demanda. Fora disso não há saída. Agora esperar que Luciana Genro entenda isso é como fazer Ronaldo Caiado entender que biodiversidade é soberania. Ora bolas, luta de classes …

      Abraços.

    • Frente democrática? Concessões? O nome pouco importa?

      Talvez nestas expressões que colocaste é o que chamo a atenção como a origem do grande problema dos governos Lula e Dilma.

      Não adianta fazer um curso de etiqueta e saber comer com todos os talheres, copos e taças, pois há os partidos e os que protegem os “ricos” e continuarão a defendê-los e protegê-los, e quando houver dinheiro a ser drenado dos mais pobres isto será feito, mesmo que todos saibam se comportar a mesa.

  10. A “Carta ao povo brasileiro” era que nem Iogurte, tinha …….

    A “Carta ao povo brasileiro” era que nem Iogurte, tinha um período de validade curto, não era vinho Francês, que tem validade indeterminada.

    O maior erro do governo Lula (e coloco a origem da derrocada do governo Dilma na origem) foi achar que a sua “Carta ao povo brasileiro” poderia e ia durar muito.

    O erro básico da chamada “esquerda” brasileira foi não perceber que por mais que aliviasse as condições do andar de cima a “luta de classes” não estaria extinta.

    É inclusive interessante em notar que palavras simples mas que representam a base da economia mundial, como a tal “luta de classes” foi durante muito tempo esquecida e ignorada pela mesma “esquerda” que governou o país.

    O que os governos Lula e Dilma tentaram fazer e fizeram, foi renovar o capitalismo brasileiro, foi dar mais uma das sobrevidas que ele necessitava, porém “luta de classes” é um verdadeiro palavrão tanto para a direita como para a esquerda reformista (aí sem aspas) foi esquecida e ignorada.

    Tanto Lula como Dilma pensaram que dando um novo fôlego ao capitalismo nacional, como conseguiram, o resto estaria calmo, porém o que se vê neste momento é exatamente a cobrança aos proletários (palavra também esquecida por muitos) daquilo que conseguiram acumular durante o período reformista, nada fora do normal, nada que não era de se esperar, porém como a formação do nosso grande líder foi mais papando hóstias do que lendo ou se apoiando em setores verdadeiramente de esquerda, esqueceram do básico, que o capitalismo exige a acumulação do capital (pô parece até que saí de um manual do século XIX!).

    Agora ficam espantados todos aqueles que acreditavam em outras coisas e começam a procurar em outros locais as respostas que já foram respondidas em escritos do século XVIII e XIX.

    Vivemos um grande período em que a própria evolução tecnológica permitiu que ficasse escondida a concentração de renda mundial, e agora vem grandes mentes brilhantes falarem da falência do “rentismo da economia capitalista”!

    É um verdadeiro desprezo da história, é simplesmente tentar apagar no mínimo 400 anos do desenvolvimento pleno do capitalismo no mundo. Porra, quando que houve um capitalismo que não fosse rentista? Não há fazes nobres do capitalismo, dizem os mais desavisados. Havia no passado pessoas que pensavam em produzir para ganhar!

    Me desculpe o autor e seus admiradores, cada vez que vejo cretinices como estas fico mais irritado. Leiam pelo menos os livros clássicos da literatura internacional, como por exemplo, Germinal, lá há uma breve passagem sobre capitalistas rentistas. Ou seja, o velho e famoso Émile Zola descreve em 1885 uma conversa de capitalistas rentistas, pô coisa do passado, século XVIII, e se ler coisas do século anterior provavelmente acharei algumas.

    O que devem os reformistas de sempre esperar para o futuro, para que lá por volta de 2025 tenhamos um país de novo destroçado e talvez o Lindergergh como sucessor de Lula escreva uma Carta aos Brasileiros II, para com nosso esforço e concentração ficar os reformistas no governo durante um período de uma década e dar mais vinte ou trinta anos de sobrevida aos capitalistas (rentistas ou produtivistas, ou até melhor rentistas e/ou produtivistas).

    Com isto tudo ficam alguns tolos felizes, “Eu sou de esquerda, eu amo os pobres”.

    • O PT implementou uma espécie de getulismo tardio

      No poder, o PT implementou uma espécie de getulismo tardio, reavivando o nacional-estatismo soprado pelo vento da economia chinesa. Mas o projeto político, em si, era anacrônico e não podia durar muito tempo, e quando os bons tempos acabaram, o povão abandonou o PT e não protestou contra o impedimento de Dilma. Foi aí que a esquerda caiu em si, e sem querer admitir que o povo não está do seu lado, fica criando teorias conspiratórias para explicar o estranho fenômeno, jogando a culpa a mídia como se povão lesse editorial de jornal. Não há sinal mais evidente do desalento dos comentariatas de esquerda do que o retorno a um jargão ultrapassado de “luta de classes”, a convicção de que textos escritos nos séculos 18 e 19 explicam o mundo de hoje, construção de totens abstratos como a tal de “elite” e metáforas simplistas como Casa Grande X Senzala. Enquanto vocês olham para trás e só conseguem ver o próprio rabo, lá fora o mundo avança sem nós.

      • Pedro,

        Serve o mesmo final de minha resposta ao Maestri.

        “Nos últimos textos, tenho alertado, em consonância com muitos economistas e historiadores sérios, que essa necessidade de renovação serve ao capitalismo mundial e que esse é o perfil da nova luta de classes”.

        Se tiver interesse leia as três partes do artigo “As mariposa, a lâmpida …”, aqui no Blog

        Abraços 

      • Pedro,

        Serve o mesmo final de minha resposta ao Maestri.

        “Nos últimos textos, tenho alertado, em consonância com muitos economistas e historiadores sérios, que essa necessidade de renovação serve ao capitalismo mundial e que esse é o perfil da nova luta de classes”.

        Se tiver interesse leia as três partes do artigo “As mariposa, a lâmpida …”, aqui no Blog

        Abraços 

      • Meu caro Pedro da ABBM.

        Só por curiosidade ABBM significa o que? Associação Brasileira dos B…. M….? Perco o amigo mas não perco a piada!

        Meu caro amigo, a interpretação superficial de textos clássicos sem analisar a base filosófica dos mesmos é que leva o desconforto de alguns não virem os proletários e os camponeses com Foices e Martelos nas mãos, pois se tivesse alguma formação mais sólida não estranharia proletários digitando num computador ou até programando um CLP (não é palavrão) de uma máquina ferramenta, ou também manejando um trator moderno ou uma colheitadeira que com dados de GPS conseguem estabelecer os pontos de maior produtividade na lavoura.

        Porém, o problema é que sempre há os poréns, é que quem é dono do computador, ou da máquina ferramente com CLP, ou do trator ou ainda da colheitadeira, não são os que as operam. Os reais donos são aqueles que acumularam o capital para comprar estas máquinas, e como os capitalistas de antanho vivem centenas de quilômetros distantes da onde que estão sendo gerado a mais valia (bem antiguinha a palavra!).

        O grau de instrução destes novos proletários é bem superior aos proletários do século XVIII, com a diferença que o grau de cultura dos capitalistas dos século XXI parece ter diminuído em muito em relação aos capitalistas do passado, criando uma situação que torna-se quase que paradoxal, as fortunas são explicadas pela origem da fortuna e não pela capacidades dos afortunados.

        Infelizmente para ti, os textos (não os panfletos) escritos nos séculos XVIII (isto é 18 em algarismos romanos) e XIX (19), e se tornam nos dias de hoje perfeitamente atuais. Durante o reinado da social democracia europeia e do ápice do Fordismo norte-americano, para os bobos parecia que os termos como luta de classes, proletariado, capitalistas e mais valia pareciam que tinham perdido o valor, porém voltaram tão fortes que até o fascismo voltou junto.

        Quem está olhando para trás não são bem os que leem textos clássicos da mesma forma que quem lê Platão e Aristóteles não está voltando a Grécia antiga. Quem olha para a globalização como se fosse uma invenção nova do século XX (20), ou que acha que o neoliberalismo era diferente do liberalismo porque tinha um NEO antes é que está olhando para um passado recente que serviu para terminar com a social democracia e simplesmente mostrar que os velhos autores ainda estão vivos, e mais vivos do que nunca.

        • Respondendo

          Satisfazendo a sua curiosidade, ABBM são as iniciais de meu sobrenome. Eu costumava assinar aqui como Pedro Mundim, mas a partir de certo momento nenhum comentário meu saiu mais,  e eu suspeitei que alguém havia colocado um filtro para o meu nome. Quando mudei para Pedro ABBM meus comentários voltaram a sair. Uma coisa que os censores sempre tiveram em comum é o fato de serem burros e engana-los ser relativamente fácil.

          Então, o problema é que o computador, a máquina ferramenta, o trator e a colheitadeira não pertencem àqueles que os operam. E se pertencessem, aqueles que os operam poderiam coloca-los debaixo do braço, leva-los à mercearia e troca-los por todos os ítens de que necessitam, como fazem com o salário do final do mês? É óbvio que não. Eles apenas receberiam a incumbência de administrar esse bens que não são de consumo, mas bens de raiz, ou melhor dizendo, modos de produção, incumbência que hoje cabe aos capitalistas. No fim das contas, o que importa para o indivíduo é aquilo que ele consome em sua pessoa física. Mudar as máquina de dono não aumenta a produtividade delas, assim como pintar a geladeira de verde não a faz gelar mais. No fim das contas, todo trabalho razoavelmente complexo é repartido entre dirigentes e executores; os dirigentes recebem o nome de patrão no regime capitalista, comissário no regime comunista e membro do conselho no regime de autogestão, mas sempre são melhor aquinhoados que os executores, devido ao maior poder agregado à maior importância de seu papel. E se as coisas andam melhor quando as máquinas são operadas por aqueles que não são os seus donos, deve haver um motivo. Talvez porque a tentação de transformar bens de raiz em bens de consumo seja muito forte.

          Os textos clássicos são muito abrangentes, e por isso só são aproveitados por aqueles estudiosos que têm disposição para ir do geral ao particular. As teorias de Adam Smith também datam do século 18. Mas da Europa da revolução industrial ao atual mundo globalizado há uma imensa diferença em termos de complexidade. Naquele mundo onde havia poucas categorias de trabalhadores, todos amontoados nos mesmos galpões de fábricas, fazendo o mesmo tipo de trabalho e à noite voltando para o mesmo bairro dormitório, ficava fácil e até óbvio falar em luta de classes, bem como organizar-se e reivindicar em bloco: todos os proletários se pareciam, assim como todos os burgueses se pareciam. Esse mundo ficou para trás.

          Penso que se os comentaristas querem aprender mais sobre o povão, deviam ler menos textos clássicos e tomar mais lições com Lula e Sílvio Santos.

    • Maestri,

      concordo com a maior parte de sua análise, principalmente quando diz “O que os governos Lula e Dilma tentaram fazer e fizeram, foi renovar o capitalismo brasileiro”, e as consequências que você segue narrando.

      Nos últimos textos, tenho alertado, em consonância com muitos economistas e historiadores sérios, que essa necessidade de renovação serve ao capitalismo mundial e que esse é o perfil da nova luta de classes.

      Abraços

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