A importância do financiamento público de campanhas

Os EUA ainda são, para muita gente, o grande caso de sucesso da democracia ocidental. É onde as coisas “funcionam”, as instituições são fortes, e o capitalismo existe na sua forma plena, com liberdade total de ação e sem a interferência do governo. Um dos exemplos dessa não interferência é o lobby, que lá é uma atividade oficial. Existem inúmeras empresas especializadas nessa atividade, prestando o serviço de influenciar os políticos sobre qualquer assunto que o cliente esteja disposto a pagar. É um mercado milionário, que tem o seu lado moral, onde se montam campanhas, e cadeias complexas de relacionamentos são utilizadas para trabalhar as ideias dos deputados e senadores contra ou a favor de algum tema. Mas também existe, é claro, o lado sórdido, onde contribuições de campanha e “estímulos” (compra de votos?) são oferecidos para apoiar uma proposta.


Eu sempre achei que essa oficialização do lobby era uma coisa boa, pois trazia para a formalidade uma atividade que evidentemente existe em todos os países, inclusive no Brasil. Porém, recentemente fiquei estarrecido com o bloqueio na tramitação da proposta de lei sobre a restrição à venda de rifles de assalto. Segundo pesquisas divulgadas, o apoio da população a essa proposta chegou a 75% logo após o massacre na escola Sandy Hook, em Connecticut, e caiu para cerca de 60% agora. Mas no congresso, não houve apoio sequer para colocar a proposta em discussão.


Quando recebi a notícia do bloqueio, a primeira pergunta que me veio à cabeça foi: então quem os parlamentares estão representando? E a resposta é óbvia: a indústria bélica. É claro que eles sabem que ir contra a vontade da maioria da população pode trazer problemas para eles nas próximas eleições, mas a avaliação é de que perder o apoio financeiro da indústria bélica traria ainda mais problemas. As pessoas esquecem essas coisas rapidamente, e normalmente não lembram quem foi a favor ou contra na hora de votar. Além disso, eles têm o apoio das campanhas pagas pela mesma indústria, que martela diariamente na cabeça de todos que seria uma medida inútil. Não quero entrar no mérito da questão, pois o mais importante aqui é o completo descolamento entre a vontade popular e a vontade dos congressistas.


No Brasil, ainda vemos isso algumas vezes, mas normalmente, quando um tema se torna popular, o congresso acaba acatando a vontade da maioria dos eleitores, apesar do lobby das empresas também ser muito forte. Mas se continuarmos nesse ritmo, em breve chegaremos ao mesmo ponto deles, onde o congresso representa os interesses de quem pode pagar, e não dá a mínima para a vontade dos eleitores, a quem eles deveriam representar em primeira instância.


O financiamento público de campanhas pode não resolver todos os problemas, pois a corrupção continuará acontecendo, mas pelo menos deve ajudar a reduzir a influência das empresas na política, de forma a tentar equilibrar sua força à vontade popular. Nesse momento em que discutimos um projeto de reforma política no congresso, é importante termos na cabeça esse exemplo do que acontece nos EUA, para sabermos com certeza onde não queremos chegar.

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