Jarbas Passarinho e as razões para justificar o Golpe de 64

Jarbas Passarinho e as razões fajutas para tentar justificar

o Golpe de 1964 – por Marcos Doniseti!



Na semana passada assisti, na TV Brasil, a reprise de um programa (o

3 A 1), que é apresentado pelo jornalista Luiz Carloz Azedo. Um dos

quadros reprisados promoveu um debate rápido sobre o Golpe de 64

e a Ditadura Militar.


Os convidados do programa eram Marco Antonio Tavares Coelho,

ex-integrante do velho Partidão, o PCB, o filho de Vladimir Herzog,

Ivo Herzog, e o ex-ministro da Justiça (na época do AI-5) do regime

ditatorial, o coronel Jarbas Passarinho.


O programa começou com o jornalista questionando Passarinho a

respeito das razões pela qual os militares promoveram a derrubada

do presidente legítimo e constitucional do Brasil e que era João

Goulart, o Jango.


Resumidamente, Passarinho apresentou 3 razões que, a seu ver,

justificavam o Golpe de Estado contra Jango e que são as seguintes:


‘O Golpe Preventivo’ – Jango e as Esquerdas teriam um plano para

dar um Golpe de Estado e implantar uma ditadura no país;


‘Quebra da disciplina e da hierarquia dentro das Forças Armadas’ –

As revoltas de sargentos e marinheiros estavam destruindo, segundo

Passarinho, com a disciplina e a hierarquia dentro das Forças

Armadas e tais revoltas eram estimuladas pelas Esquerdas. 


‘Guerra Fria’ – Segundo Passarinho, a Guerra Fria entre os EUA e a

URSS gerou reflexos aqui no Brasil, onde teria se reproduzido o

conflito entre forças de Direita e de Esquerda, tal como acontecia no

cenário internacional entre os soviéticos e os estadunidenses.


Agora, vou procurar comentar e analisar estes três motivos

apontados, por Jarbas Passarinho, como razões para que

acontecesse o Golpe de Estado contra o presidente legítimo e

constitucional do Brasil, que era João Goulart. 


Com relação ao primeiro item, Passarinho justificou-se dizendo que

Leonel Brizola defendia o fechamento do Congresso Nacional com o

objetivo de implantar uma Ditadura. Isso é verdade. E tal posição era,

também, defendida por setores das Esquerdas mais radicais do

período.  


Mas, este posicionamento não era unânime entre as lideranças e as

forças esquerdistas e nacionalistas do período, não. João Goulart,

por exemplo, jamais defendeu tal posição. 

 

Ele até fazia críticas à atuação do Congresso Nacional (o que é

perfeitamente normal e democrático… Não há nada de golpista nisso),

mas daí a defender o fechamento do Congresso Nacional vai uma

longa distância. 


Tanto isso é verdade que, mesmo depois de ter se aliado às forças

Nacionalistas Radicais (aliança esta que foi formalizada no comício

da Central do Brasil de 13/03/1964) Jango recusou-se a adotar esta

ideia de fechar o Congresso Nacional e adotou uma estratégia

distinta, que foi a de organizar grandes manifestações populares pelo

Brasil inteiro a fim de pressionar o Congresso para que este

aprovasse as Reformas de Base. 


Assim, o comício da Central do Brasil era para ser o primeiro de uma

série de grandes manifestações populares mas, em função do Golpe

de Estado, elas não foram realizadas, é claro. 


Novamente, pode-se dizer que não há nada de errado, ilegal ou de

golpista nisso. 


Pressões populares pacíficas e organizadas para que os

parlamentares (nas três esferas: federal, estadual e municipal) tomem

certas decisões são perfeitamente normais e legítimas em qualquer

regime democrático-representativo. Não há nada de golpista nisso. 


Passarinho chegou, inclusive, a citar o livro ‘Combate nas Trevas’, de

Jacob Gorender, no qual este diz que Jango tinha intenções

continuístas, ou seja, de tentar mudar a Constituição para poder se

reeleger.


Já li o livro de Gorender e o fato concreto é que ele não prova, de

maneira nenhuma, e em parte alguma da sua obra, que Jango tinha

planos continuístas. Gorender não apresenta nenhum documento

que prove a sua tese.

 

O ex-líder do PCB e do PCBR limita-se a citar uma declaração de Luiz

Carlos Prestes a respeito do assunto e mais nada, o que é muito

pouco para provar qualquer coisa. Declaração oral ou escrita de

Jango que prove as intenções continuístas do então presidente,

Gorender não apresenta em nenhuma parte do seu livro. 

 

E no livro ‘João Goulart – Uma Biografia’, o historiador Jorge Ferreira

também diz a mesma coisa. Ele afirma, claramente, que não há nada

de concreto que confirme as intenções continuístas ou golpistas de

Jango.  


E como Jango era o presidente da República, qualquer tentativa de

fechar o Congresso Nacional e implantar uma ditadura esquerdista

no país seria inviável sem a sua participação. 


Somente Jango, na condição de presidente da República e de

comandante-em-chefe das Forças Armadas, teria condições de

comandar um golpe. E como Jango não tinha intenção nem de fechar

o Congresso Nacional e nem de se reeleger, é totalmente equivocado

usar este argumento para justificar o Golpe de 64, como faz Jarbas

Passarinho.


Já com relação à quebra da disciplina e da hierarquia nas Forças

Armadas, é verdade, sim, que as Esquerdas radicais estimulavam e

apoiavam as revoltas de marinheiros e de sargentos dentro das

mesmas.


Aliás, esse foi, a meu ver, o erro mais grave cometido pelas

Esquerdas nacionalistas e reformistas do período, pois isso jogou

quase toda a oficialidade das Forças Armadas contra elas. 


Mesmo aqueles oficiais que defendiam e legalidade e o respeito à

Constituição (na biografia sobre Jango, Jorge Ferreira diz que 90% da

oficialidade era legalista), voltaram-se contra Jango, Brizola e contra

as Esquerdas quando perceberam que eles não apenas toleravam

mas, principalmente no caso dos grupos nacionalistas mais radicais

e de Brizola, estimulavam tais revoltas. 


Jango ainda tentava negociar e conter tais revoltas, mas não

conseguiu, pois sua autoridade como Presidente da República

praticamente se esfarelou nas últimas semanas do seu governo. 


Exemplo disso foi que Jango mandou o ministro da Marinha, Paulo

Márcio Rodrigues (indicado ministro pelo CGT), demitir e prender o

Almirante Aragão e também prender os marinheiros rebelados, o

ministro não cumpriu com as suas determinações. E mesmo assim,

Paulo Márcio continuou ministro, como se nada tivesse acontecido. 


Quando se chega a esse ponto, é porque o presidente não manda

mais nada. 


Logo, a fala de Passarinho não está errada, não. 


  1. Mas, ele se esquece de algo muito importante, que é o fato de que

  2. quem começou com essa história de quebrar a disciplina e a

  3. hierarquia dentro das Forças Armadas foram os grupos direitistas

  4. mais conservadores. 

     

    Exemplo perfeito disso foi o chamado ‘Manifesto dos Coronéis’,

  5. de 1953, que foi assinado pelos militares ligados às forças mais

  6. conservadoras e que atacou o presidente da República, Getúlio

  7. Vargas, e o então ministro do Trabalho, João Goulart, pelo fato de

  8. estarem defendendo o reajuste de 100% para o salário mínimo. 

     

  9. Tal crise acabou desembocando, inclusive, numa tentativa de

  10. Golpe de Estado, em Agosto de 1954, que foi abortada e

  11. derrotada, apenas, porque Vargas cometeu suicídio e mandou

  12. divulgar a Carta-Testamento. 

     

    E também não se pode esquecer das outras tentativas de Golpe

  13. de Estado feitas pelas forças direitistas, como em Novembro de

  14. 1955, quando tentaram levar adiante um Golpe que tinha como

  15. objetivo inviabilizar a posse dos recém-eleitos JK e Jango na

  16. presidência e na vice-presidência da República, respectivamente. 

     

    Aliás, tal tentativa de Golpe de Estado das Direitas começou com

  17. um ato de insubordinação e de indisciplina por parte de um

  18. membro do movimento golpista, que foi o Coronel Jurandir B.

  19. Mamede. Este, fez um discurso violento (no dia 31/10/1955) no

  20. qual atacou a vitória de JK e de Jango para o governo do país e

  21. disse que eles não podiam assumir o comando da Nação porque

  22. não tinham sido eleitos com a maioria absoluta dos votos. 

     

    É bom lembrar que a Constituição brasileira da época não exigia a

  23. maioria absoluta para coisa alguma… Bastava obter uma maioria

  24. simples para considerar-se como legítima a vitória de qualquer

  25. candidato à presidência da República. E também não existia, é

  26. bom lembrar, nem segundo turno. 


    E uma outra peculiaridade do período era o fato de que se podia

  27. votar em um candidato à presidente de uma chapa e no vice de

  28. outra chapa. Em 1955, JK e Jango, da mesma, foram eleitos. Mas,

  29. em 1960, isso não se repetiu, pois Jango era o vice do Marechal

  30. Lott, e foi eleito para o cargo derrotando o vice de Jânio Quadros,

  31. que era Milton Campos, da UDN.


  32. Logo, o coronel Mamede defendia, abertamente, um Golpe de

  33. Estado que impedisse a posse de JK e de Jango.


    O ministro da Guerra (equivalente, hoje, ao cargo de Ministro do

  34. Exército), o honrado e íntegro Marechal Lott (e grande defensor

  35. da Legalidade Constitucional), exigiu que Mamede fosse punido,

  36. mas o então presidente Café Filho (que estava comprometido

  37. inteiramente com os planos dos golpistas) negou-se a fazê-lo,

  38. provocando a demissão de Lott. 

     

    Assim, abriu-se o caminho para o Golpe de Estado, que foi

  39. barrado graças à mobilização dos generais legalistas do Exército,

  40. a qual Lott acabou aderindo, decidindo comandar o contra-golpe

  41. preventivo a fim de garantir a posse dos recém-eleitos JK e Jango

  42. no governo do país. 

     

    Portanto, configurou-se, em Novembro de 1955, mais uma

  43. situação em que as Direitas golpistas tupiniquins praticaram uma

  44. nítida e clara quebra da hierarquia dentro das Forças Armadas a

  45. fim de se promover um Golpe de Estado que resultaria na

  46. implantação de uma Ditadura Militar. 


      

    Foi a reação de generais legalistas e que sentiam que o Marechal

  47. Lott havia sido ludibriado e humilhado pelo presidente Café Filho

  48. (pois este havia se recusado a punir o Coronel Mamede) que

  49. desencadeou o contra-golpe que garantiu a posse de JK e Jango

  50. no final de Janeiro de 1956. Portanto, neste caso, a quebra da

  51. hierarquia e da disciplina militares foi obra das Direitas golpistas

  52. e, em função disso, o Golpe das mesmas foi derrotado. 

     

    E as tentativas golpistas das Direitas retrógradas não cessaram e,

  53. mesmo depois da posse, JK-Jango enfrentaram mais duas
  54. tentativas de Golpe de Estado organizadas pelas forças
  55. Conservadoras, que aconteceram em 1956 e em 1959. Estas foram
  56. as revoltas militares de Jacareacanga e de Aragarças,
  57. respectivamente.

 

As duas revoltas aconteceram com o apoio de forças direitistas,

principalmente do eterno golpista Carlos Lacerda, com o objetivo

de derrubar o governo legítimo e constitucional do Brasil, que era

o de JK-Jango. 

 

Assim, mais uma vez, foram as Direitas golpistas que levaram

adiante novas tentativas de se quebrar a disciplina e a hierarquia

dentro das Forças Armadas e acabaram derrotadas. 

 

E em 1961, as mesmas forças conservadoras e direitistas que

haviam fracassado em suas tentativas golpistas de 1954, 1955,

1956 e 1959, tentaram um novo Golpe de Estado, a fim de impedir

a posse de João Goulart na presidência da República após a

tentativa de Golpe travestida de renúncia por parte do então

presidente Jânio Quadros. 

 

E os golpistas da Direita reacionária novamente fracassaram,

devido à fantástica ‘Campanha da Legalidade’, liderada pelo então

governador gaúcho Leonel Brizola e que derrotou a tentativa

golpista e garantiu a posse de Jango na presidência da

República. 

 

Assim, antes mesmo de 1964 e das revoltas de sargentos e

marinheiros tumultuarem as Forças Armadas, já existia uma longa

e interminável tradição de quebra da disciplina e da hierarquia

dentro das mesmas por parte das forças mais direitistas da

sociedade brasileira da época. 


Foram estas forças que inauguraram, por assim dizer, estes

movimentos de quebra da hierarquia e da disciplina militares, bem

como da Legalidade Constitucional. 

 

Em sua biografia sobre João Goulart, Jorge Ferreira mostra que

foi somente após a vitória do contra-golpe preventivo de

Novembro de 1955, que foi liderado por generais legalistas do

Exército e pelo então ministro da Guerra, o Marechal Lott, que as

Esquerdas começaram a desenvolver atividades políticas dentro

das Forças Armadas com o objetivo de formar um ‘dispositivo

militar’ que sustentasse a legalidade democrática no país. Antes

disso, isso não acontecia. 


  

Desta maneira, as Esquerdas começaram a falar, na época, da

existência na de um ‘soldado cidadão’, ou seja, de um Exército

comprometido com a defesa da Constituição e da Democracia,

que garantiria a estabilidade política do país e que se oporia ao

‘Exército anti-popular, golpista e retrógrado’ e que era ligado às

forças mais direitistas do país e que vivia promovendo Golpes de

Estado ‘a torto e a direito’. 

 

Mas, quando isso começou a acontecer, as Direitas

Conservadoras já tinham uma longa tradição de tentar quebrar a

hierarquia e a disciplina dentro das Forças Armadas, fazendo isso

muito antes que qualquer esquerdista. 


Logo, foram as forças direitistas que mantiveram e fortaleceram,

entre 1945 e 1964, a tradição golpista dentro das Forças Armadas,

algo que remetia à Proclamação da República. 

 

E Passarinho parece se esquecer, como já afirmei aqui, que o

presidente da República é, também, o comandante-em-chefe das

Forças Armadas. 

 

Logo, qualquer tentativa golpista de derrubá-lo representa,

inegavelmente, uma quebra da disciplina e da hierarquia dentro

das Forças Armadas. 

 

E não se pode esquecer que todas as tentativas de Golpe de

Estado (vitoriosas ou não) entre 1945 e 1964 foram organizadas e

levadas adiante pelas forças direitistas e conservadoras.

 

Portanto, ninguém contribuiu mais, entre 1945-1964, para quebrar

com a disciplina e a hierarquia dentro das Forças Armadas do que

as ações golpistas das Direitas Conservadoras, que foram as

mesmas forças políticas-sociais que organizaram e apoiaram o

Golpe de Estado que derrubou Jango da presidência da

República. 

 

Assim, quando as Esquerdas começaram a agir no mesmo

sentido, as Direitas já tinham acumulado uma vasta experiência

em promover a quebra da autoridade dentro das Forças Armadas.


Não havia nenhuma novidade nisso.


Portanto, atribuir às Esquerdas, como faz Passarinho, a

responsabilidade pela quebra da hierarquia e da disciplina nas

Forças Armadas é um absurdo total. 

 

Finalmente, a questão da Guerra Fria que, segundo Passarinho,

impactava a realidade brasileira e influenciava fortemente o

alcance e a intensidade dos conflitos políticos e sociais que

aconteciam no Brasil neste período. 

 

Mas, esta questão não pode ser considerada como sendo

importante para desencadear o Golpe de 64 e por várias razões,

como:



A) As quatro principais lideranças populares do Brasil, nesta

época, no campo dos grupos Nacionalistas, eram Jango, Brizola,

Arraes e Prestes. Dos quatro, apenas este último era, é claro,

comunista. Os outros três eram líderes nacionalistas e

reformistas, mas não eram comunistas. Nunca foram.

 

B) Dentro dos principais movimentos sociais e populares do

período (CGT, UNE, Ligas Camponesas, intelectuais), a

hegemonia não era do PCB, mas do PTB. Este partido é que

detinha, por exemplo, o controle da maioria dos sindicatos de

trabalhadores e não o PCB. 

 

Os comunistas, por isso mesmo, abandonaram aquela política de

oposição radical à Vargas e à influência do PTB sobre os

operários (política esta que durou até 1954, mas que foi

abandonada após o suicídio de Vargas), decidindo atuar de

maneira conjunta com os petebistas. 

 

E o PTB não era, e nunca foi,comunista. Seu programa e suas

principais propostas tinham um nítido caráter Social-Democrata,

de Centro-Esquerda, defendendo a adoção de um Capitalismo

nacionalista e com significativa intervenção do Estado na

economia e na área social. 

 

Estas eram ideias e políticas também adotadas por países da

Europa Ocidental, EUA, Canadá, enfim, por todo o mundo

desenvolvido da época. 

 

A não ser que alguém considere que tais países eram

Comunistas, não se pode atribuir ao PTB janguista da época uma

natureza revolucionária e tampouco comunista. Somente notórios

desinformados podem acreditar numa bobagem monumental

dessas. 

 

Na verdade, a principal influência ideológica sobre o PTB do

período 1945-1964, principalmente depois que Jango se tornou o

presidente nacional do partido, em 1953, era o Trabalhismo

britânico, que de comunista não tinha absolutamente nada. 

 

As ideias da Igreja em defesa da justiça social também exerceram

influência no PTB janguista. 


Logo, de comunista o PTB não tinha coisa alguma. Ele era um

típico partido de Centro-Esquerda, Social-Democrata, Nacionalista

e Reformista. Comunista, jamais.

 

 

E como o PTB foi o partido político que mais cresceu nesta época,

tendo aumentado consideravelmente a sua bancada no

Congresso Nacional nas eleições de 1962, tendo deixado a UDN

muito para trás em número de deputados federais eleitos (o PSD

elegeu 116 deputados federais, contra 112 do PTB) não se pode

dizer que o crescente número de trabalhadores e tampouco os

líderes e integrantes dos movimentos sociais que votavam no

PTB fossem comunistas. 

 

Entre os comunistas, com certeza, o voto no PTB era maciço, mas

isso acontecia em função da ilegalidade do Partidão e também

porque, entre os partidos legalizados da época, o PTB era o único

que aceitava fazer alianças políticas, mesmo que informais, com o

PCB. 

 

Logo, de comunista, o PTB não tinha absolutamente nada. 

 


C) O próprio PCB, naquele momento, dizia que a prioridade não

era a de promover uma Revolução Socialista no Brasil, mas uma

Revolução Nacional-Libertadora que deveria ser levada adiante

através de uma aliança com a Burguesia Nacional progressista. 

 

Tal aliança foi feita justamente porque o PCB percebeu que não

dava para atuar dentro dos movimentos sociais da época falando

mal de Vargas, das leis trabalhistas e do PTB. Quando tentaram

fazer isso, eles chegaram a ser apedrejados pelos trabalhadores

(como Jorge Ferreira conta em seu livro ‘O Imaginário

Trabalhista).

 

Assim, mesmo que o PCB não tivesse, naquela época,

abandonado a intenção de fazer do Brasil um país Socialista, não

era essa a orientação que predominava no Partidão naquele

momento. 

 

D) As principais propostas de mudanças e de transformações da

sociedade brasileira defendidas pelo PTB e pelas Esquerdas

Nacionalistas neste período não tinham um caráter Socialista. 


Elas possuíam, sim, características fortemente Nacionalistas e

Estatistas. 

 

Defendia-se, por exemplo:

 


A) A reforma agrária, que foi feita em todos os países capitalistas

desenvolvidos e que, logo, não pode ser tachada de comunista,

até porque ela amplia o número de proprietários particulares na

área rural. E a propriedade privada dos meios de produção não é

uma das características fundamentais do Capitalismo?;

 

B) A erradicação do analfabetismo, o que é fundamental para

qualquer país que deseja se desenvolver, seja Capitalista,

Socialista ou o ‘ista’ que for; 



C) Maior intervenção do Estado na economia, algo perfeitamente

normal nesta época, pois era exatamente isso o que acontecia no

mundo inteiro, incluindo os EUA e a Europa Ocidental, onde

predominava o Welfare State ou Estado de Bem-Estar Social. 


Nestes países, os setores mais importantes da economia eram

controlados por empresas estatais e o discurso neoliberal não

encontrava apoio suficiente na população. Isso somente foi

acontecer na década de 1980, depois que Reagan e Thatcher

passaram a governar os EUA e o Reino Unido, respectivamente. 

 

 

D) A extensão do direito de voto aos analfabetos, com o objetivo

de ampliar a participação popular no processo político, o que

fortalece a Democracia em vez de enfraquecê-la. Afinal, a

Democracia não é o sistema onde predomina a vontade da

maioria da população? Sem participação popular real, efetiva, a

Democracia não existe. 

 

E) A extensão dos direitos sociais, trabalhistas e previdenciários

para os trabalhadores rurais, o que era fundamental para se levar

justiça social e democracia à area rural brasileira, onde as

relações de trabalho capitalistas já eram hegemônicas e estavam

plenamente estabelecidas e há muito tempo.

 

Essas propostas não tinham nada de Socialistas ou Comunistas.

Isso é uma asneira monumental. 

 

Na verdade, elas constituíam um amplo programa de reformas

políticas, sociais e econômicas que visavam conciliar o sistema

capitalista brasileiro com um elevado grau de justiça social e com

a manutenção da Democracia, melhorando-se a distribuição de

renda e as condições de vida dos mais pobres e dos

trabalhadores. 

 

Jango nunca se cansou de dizer isso, mas parece que muitos dos

seus inimigos não perceberam, embora alguns mais esclarecidos

entre os direitistas da época soubessem disso, sim. 



Tais propostas tinham como objetivo, portanto, promover um

amplo processo de inclusão política, econômica e social, pois

somente assim (pensavam as Esquerdas Nacionalistas do

período) seria possível se construir um país desenvolvido, justo,

moderno, democrático e soberano. 

 

É por tudo isso, inclusive, que vários estudiosos do período

chamam essa época de ‘Nacional-Estatista’. 


De fato, a implantação do Socialismo não era o que estimulava

estes movimentos sociais, bem como a maioria das suas

lideranças e tampouco os trabalhadores da época, mas a

construção de uma Nação soberana, moderna, democrática e com

uma distribuição de renda mais igualitária. 

 

Tal programa, portanto, não tinha nada de Socialista ou

Comunista. 

 

Assim, pode-se concluir que a Guerra Fria não foi, nem de longe,

um aspecto importante para desencadear o Golpe de 64. Ela foi

mais um pretexto, utilizado posteriormente pelos defensores do

Golpe, do que uma causa efetiva do movimento golpista que

derrubou Jango da presidência da República. 

 

A exploração do sentimento anti-comunista pelos golpistas foi

real, mas isso se fez muito mais para explorar os preconceitos, o

medo e o elitismo das classes mais abastadas da sociedade da

época do que pelo fato do Brasil estar caminhando,

inexoravelmente, rumo à construção de uma sociedade

Socialista. 

 

Não estava, pois não eram socialistas o programa e as propostas

de mudanças defendidas pelas Esquerdas Nacionalistas do

período. 

 

Na verdade, dentro mesmo destas Esquerdas Radicais havia

divergências sobre qual o melhor caminho para se promover as

mudanças. Jango e o PTB, que seguia, quase que inteiramente, a

sua liderança, pregavam o caminho democrático-parlamentar. 

 

Esta foi a estratégia de Jango e, até pouco antes do Golpe de 64,

também do PCB. 

 

E havia a estratégia de Brizola e de importantes lideranças dos

movimento sociais (CGT, das Ligas Camponesas, e de setores da

intelectualidade e dos estudantes), que pregavam o caminho do

confronto, com o fechamento do Congresso Nacional, pois este

rejeitava todas as tentativas de se aprovar as Reformas de Base. 


Aliás, este foi um dos principais motivos que levou à

radicalização dos movimentos sociais do período, bem como por

parte de Brizola. 

 

Afinal, como o Congresso Nacional não permitia que estas

reformas fossem implementadas pela via democrática e legal,

muitos líderes e integrantes dos movimentos sociais passaram a

defender o fechamento do mesmo, algo que era rejeitado pela

imensa maioria da população brasileira. 


Aliás, a defesa desta tese não tinha sustentação sequer entre a

maioria dos trabalhadores que apoiavam as Reformas de Base. O

caminho democrático, defendido por Jango e pelo PTB, era o

preferido da imensa maioria da população. 


 

Porém, sempre que Jango tentou aprovar as Reformas de Base no

Congresso Nacional elas foram rejeitadas. As direitas as

rejeitavam por as considerarem radicais demais. E as Esquerdas

mais radicais as consideravam moderadas demais. Imprensadas

entre os dois grupos, elas nunca foram aprovadas pelo

Congresso Nacional, infelizmente. 

 

Na biografia de Jorge Ferreira sobre Jango, informa-se que,

segundo pesquisas feitas neste período, as Reformas de Base

eram desejadas pela maioria absoluta da população. 

 

Mesmo na cidade de São Paulo, cerca de 60% dos mais ricos e

das classes médias queriam a implementação das Reformas de

Base. 

 

Se em SP, capital do conservadorismo político da época, o

sentimento dominante era assim, imagine-se o que acontecia nos

demais estados brasileiros. 

 

Portanto, em função de tudo isso, pode-se afirmar claramente que

as três razões apontadas por Jarbas Passarinho para justificar o

Golpe de 64 são falsas e sem nenhum fundamento histórico. 


O tal golpe preventivo contra um suposto ‘Golpe das Esquerdas’ é

uma ficção, pois todas as tentativas golpistas levadas adiante, no

Brasil, entre 1945-1964, partiram das Direitas e não das

Esquerdas. 

 

Além disso, o projeto continuísta ou golpista de Jango também

nunca passou de ficção científica, e é fruto mais do desejo

daqueles que possuem uma visão histórica ou pessoal negativa a

respeito de Jango, do que de provas históricas concretas que

confirmassem a veracidade de tais projetos por parte do

presidente João Goulart. 


 

A quebra da disciplina e da hierarquia dentro das Forças Armadas

era, ainda em 1964, uma tradição iniciada ainda nos 1920, com as

chamadas Revoltas Tenentistas, que colocavam oficiais de média

e de baixa patente (os chamados ‘tenentes’) contra a alta

oficialidade (Generais, Coronéis, etc). 

 

E o próprio fato das Forças Armadas intervirem no processo

político vinha desde a Proclamação da República. Culpar as

Esquerdas por tudo isso só pode ser piada. 

 

E as Direitas Conservadoras continuaram com essa política

depois de 1945, tento realizado inúmeros Golpes de Estado no

período mais democrático da história do Brasil até aquele

momento, que foi o de 1945-1964. Nunca tínhamos tido tanta

Democracia, no Brasil, como nesta época. 

 

E de que maneira as Direitas Retrógradas tentavam chegar ao

poder neste período extremamente democrático da história

brasileira? Através de sucessivos Golpes de Estado. A UDN que o

diga… 

 

Seus líderes, principalmente Lacerda, viviam batendo nas portas

dos quartéis implorando para que os militares promovessem

Golpes de Estado. Ganhar eleições com o voto do povo, que é

bom, nada, né?


E quanto à Guerra Fria, o argumento de Passarinho também não

se sustenta, pois nem os movimentos sociais (estudantil,

operário, camponês, intelectuais), tampouco os principais líderes

nacionalistas e reformistas do período (Jango, Brizola e Arraes

em especial) e menos ainda as propostas defendidas por ambos

eram Socialistas ou Comunistas. 


O programa defendido por tais líderes e movimentos sociais

tinham um caráter Nacionalista e Reformista, mas não era nem

Socialista e nem Comunista. 



Alguns destes líderes e militantes eram mais moderados e outros

eram mais radicais, mas a imensa maioria destas lideranças não

desejava implantar o Socialismo ou o Comunismo no Brasil. 

 

Assim, é melhor os defensores do Golpe de 64 inventarem

argumentos bem melhores do que esses três que analisei acima a

fim de justificar o seu posicionamento a respeito do assunto, pois

estas três argumentos defendidos por Jarbas Passarinho não tem

nenhuma sustentação histórica. 

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