O papel da nova classe média e da tradicional nos protestos

Por Cláudio Freire

Comentário ao post “A dificuldade em captar a voz das ruas

Nassif, você tem razão quando fala da dificuldade de entendimento dos novos tempos. Entretanto, entendo que sua premissa está incompleta. Explico-me.

Você afirmou: “Desde o advento da chamada nova classe C, discute-se nos dois lados – PT e PSDB  o próximo tempo do jogo. Ao construir o mercado de consumo de massa, o lulismo definiu o jogo e o vencedor dessa etapa. Mas abriu as portas para a segunda etapa, um novo quadro político radicalmente diferente do anterior.”

Este seu comentário está fundamentado na emergência da chamada classe C. Apesar de concordar contigo que algumas pessoas pertencentes a essa classe participaram dos protestos, não me parece que foram muito significativas no movimento.

Houve uma participação majoritária, num primeiro momento, de movimentos alinhados com a extrema esquerda (PSOL, PCO, PSTU e MPL). A partir do momento em que o governo paulista reprimiu violentamente os protestos, e a velha mídia viu neles uma oportunidade para desgastar o governo federal, o movimento cresceu esponencialmente, com a incorporação da classe média que eu classificaria de tradicional, majoritariamente, classe essa que tradicionalmente se informa pela televisão, pelos jornalões e pelas revistas semanais, e reverbera sem postura critica suas palavras de ordem.

Alguns analistas sociais vão mais longe. Entendem que essa classe média tradicional comprou o discurso da velha mídia. Tal discurso se baseou na crítica ao baixo índice de crescimento, em que pesem as ações do governo federal em defesa de um pacto produtivo firmado com a indústria nacional produtiva. Esse pacto foi feito em função do esgotamento da janela de oportunidade da alta dos preços das commodities. As principais ações do governo federal foram forçar a queda da Selic, seguida da queda do spread e da diminuição do custo de energia elétrica. O governo federal cumpriu sua parte no pacto, mas os industriais não o fizeram de forma plena, ao não fazer investimentos significativos. Isso gerou a frustação do baixo crescimento e deu base para o discurso catastrofista da velha mídia, no qual embarcou parte expressiva da classe média tradicional. Esta é, dita de forma muito simplificada, a interpretação do André Singer, por exemplo.

De qualquer forma, a classe média tradicional aderiu às manifestações de forma mais massiva do que a nova classe média, na minha opinião.

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