O suicídio entre indígenas


Questão indígena: o suicídio pelo jejuvy


Por Lilian Milena, do Brasilianas.org

A taxa de suicídio entre indígenas é quatro vezes superior à média nacional, segundo o Mapa da Violência 2011 – Jovens do Brasil, que utiliza dados do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM) do Ministério da Saúde.

No contexto mundial, o Brasil é um país com baixo índice de suicídio (4,9 suicidas em 100 mil habitantes). Ainda assim, houve um aumento expressivo de 33,5% no total de pessoas que tiraram a própria vida entre os anos de 1998 e 2008, período em que o registro de óbitos nessa categoria passou de 6.985 para 9.328.

O autor do trabalho, o sociólogo Julio Jacobo Waiselfisz, chama atenção para municípios onde a taxa fica acima de 30 suicídios em 100 mil casos, marca de países que lideram a lista no nível internacional, como Lituânia e Rússia.

Os locais que encabeçam a lista de mortalidade suicida são de assentamento de comunidades indígenas, como Amambaí, Paranhos, Doutrados, cidades do Mato Grosso do Sul, e Tabatinga, no Amazonas.

“No ano de 2008, foram registrados pelo SIM exatamente 100 suicídios indígenas. Isso já daria uma taxa nacional de 20 suicídios a cada 100 mil índios, igual a quatro vezes a média nacional (4,9 suicídios em 100 mil)”, destaca Waiselfisz, levando em consideração dados da Fundação Nacional do Índio (FUNAI) que indicam uma população atual de 400 mil índios residindo em aldeias no país, correspondentes a 0,25% da população nacional.

Mato Grosso do Sul e Amazônia concentraram, em 2009, 81% do total nacional dos 92 suicídios indígenas registrados no ano. Como no mesmo período o estado do Amazonas contava com 83.966 indígenas, isso equivale a uma taxa específica para essa população de 32,2 em 100 mil. No Mato Grosso do Sul, que contava com 32.519 indígenas, a taxa representa 166,1 para cada 100 mil índios.

Os Guarani

O antropólogo Paulo Santilli, professor da Universidade Estadual Paulista (UNESP) e ex-coordenador Geral de Identificação e Delimitação da FUNAI, destaca que o Mato Grosso do Sul é uma região onde se concentram os índios da etnia guarani, a primeira a ter contado com os colonizadores europeus, no século XVI.

Segundo o especialista, o crescimento expressivo de suicídio entre os guarani, no Estado, especificamente, tem a ver com a cosmologia desse povo que concebe a própria humanidade proveniente de um cataclisma e na eminência de ocorrer um novo cataclisma.  

“Essa visão de mundo somada à forma violenta como foram e estão sendo privados de suas terras, e em condição estrema de penúria, exploração, violência, degradação ambiental, tem levado à falta de sentido da própria vida, especialmente dos jovens”, explica. A taxa de suicídios entre indígenas é predominantemente juvenil (15-24 anos). 

Os guarani compõem a maior parte da população originária do país, contabilizados em 50 mil. Na época do descobrimento, estima-se que 4 milhões de pessoas dessa etnia viviam no território nacional. Hoje a mesma população se encontra nos Estados do Espírito Santo, Rio Grande do Sul, Mato Grosso do Sul, São Paulo e em áreas fronteiriças com o Uruguai, Argentina e Paraguai.

O especialista em etnologia indígena, violência e uso de bebidas alcoólicas entre grupos originários Kaingang (interior de São Paulo), Krahô (norte do Tocantins) e Maxakali (divisa de Minas Gerais com Bahia), Rodrigo Barbosa Ribeiro, confirma que os dados de suicídios indígenas apontados pelo livro Mapa da Violência 2011 indicam a falta de perspectiva futura vivida por jovens índios.

“Estamos acostumados a pensar que o Estado de Direito resolve todas as situações, ou pelo menos problematiza a maior parte delas, mas não somos acostumados a pensar o que é ser uma minoria étnica, o que é ter perdido a sua autonomia política perante uma instituição que lhe é completamente estrangeira, e ter que lidar com isso ano após ano, século após século, como é o caso dos guarani”, explica.

Justificativas para o suicídio

Barbosa Ribeiro conta que presenciou a marginalização de índios por parte de todas as populações vizinhas às tribos. Constatou também o consumo exagerado de álcool em todas as aldeias onde trabalhou – o uso dessa bebida pode ser considerado uma forma de se refugiar das condições de vida que enfrentam hoje, e não porque o índio tem propensão ao alcoolismo.

O relatório “A morte por jejuvy entre os Guarani do sudoeste brasileiro”, do antropólogo Miguel Vicente Foti, publicado na Revista de Estudos e Pesquisas da FUNAI, em dezembro de 2004, destaca que 40% dos índios que tiraram suas vidas na região de estudo estavam alcoolizados no momento em que se mataram, e 56% deles realizavam o consumo regular de bebidas alcoólicas.

O autor do trabalho diz que a situação de confinamento de todas as tribos guarani resulta em condições individuais de desespero que podem culminar com a retirada da própria vida.

Atualmente grupos de guaranis vivem em dezoito aldeias nas oito reservas delimitadas pela FUNAI no Mato Grosso do Sul. Segundo Foti, o confinamento de tribos aumentou com a expansão das cidades de Dourados e Amambaí, no período militar.

“A floreta praticamente desapareceu dessa porção do Mato Grosso do Sul, o que se vê predominar é uma terra arrasada: vastidões tomadas pela soja e pela pecuária extensiva, espaços degradados e áreas urbanas precárias”, constata. Os índios sobrevivem da agricultura familiar, trabalho nas fazendas ou empregos diretos em organizações indigenistas, de forma precária, completa o pesquisador.

Foti destaca, no entanto, que os guarani manifestam forte interesse em absorver o poder da técnica civilizada. Barbosa Ribeiro identificou o mesmo nas tribos onde trabalhou.

“Eles não são inaptos, pelo contrário, se fascinam pela nossa tecnologia e muitas vezes têm habilidade de manejá-las”, conta.

O professor defende que além de melhorar as condições de acesso à terra, deve-se discutir, junto com as populações indígenas, novas alternativas econômicas respeitando as decisões do grupo, mas sem impor o modelo do homem branco. Entretanto, não existe nenhum trabalho realizado nesse sentido, ou seja, preocupado em discutir a fundo as causas do drama indígena e sob o ponto de vista indígena.

Foti, em seu artigo, confirma essa condição. Aponta que faltam alternativas ocupacionais culturalmente ajustadas e que não há interesse preciso de discutir com a própria comunidade qual seria a melhor saída e, ainda, que a principal alternativa para melhorar as condições de vida dessa população é viabilizar as aldeias em áreas mais abrangentes, de forma a manter a integridade dos povos.

Depressão 

O alto índice de suicídio na região é explicado pelo fenômeno jejuvy, palavra de origem guarani dos povos kaiowa e nhandewa (sub-etnias) e que pode ser traduzida por enforcamento.

Nas entrevistas, realizadas por Foti com essas populações é possível relacionar o ato do jejuvy aos sintomas da depressão, isso porque o suicídio foi interpretado nessas comunidades como a culminação de uma série de doenças: tremores (oryryi, osusu), ataques com perdas dos sentidos (hajyjeapa) e doenças psicológicas, descritas como estados de espírito intensificados: medo, teimosia, raiva, desassossego e desgosto.

Segundo o pesquisador, o modo como o território foi tirado dessas populações, a perda de memória e da qualidade de vida que tinham representam as maiores ameaças que já conheceram.

“É quase impossível qualificar o clima de desespero quando o assunto é esse, contrastando com a imagem de um Guarani típico, que raramente perde a serenidade. ‘Por que isto está acontecendo conosco’ parece ser a pergunta que fica no ar. Segundo um entrevistado, após uma avaliação sagaz de causas e conseqüências, perder o tekoha [aldeia] ‘é pior do que desaparecer’. Não é raro o discurso apocalíptico. Certa feita, um Guarani considerado mestiço (filho de pai branco e criado em fazenda), chorou cerca de meia hora diante de nosso gravador, dizendo apenas ‘ajuda nós’”.

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