Os paradoxos do Dia Internacional da Mulher de 2011

8 de março de 2011: dia da celebração, mais uma vez, do Dia Internacional da Mulher. Como em toda celebração, aqui importa reconhecer as conquistas e comemorar as vitórias obtidas, ainda que simbólicas, ou evocativas de novas possibilidades e utopias.

Então, não há como deixar passar desapercebido o grande feito do ano que se passou, a vitória eleitoral, para o cargo mais alto do poder político no país, de Dilma Roussef, que já ingressou na história como a primeira mulher a presidir o Brasil.

A vitória de Dilma Roussef, se é relevante pelo fato dela ser mulher, o é também por sua trajetória militante, desde a sua juventude, em que corajosamente uniu-se àqueles que combateram a ditadura militar, tendo sido inclusive presa política e vítima da tortura do regime de exceção que se implantou no país entre 1964 e 1985.

Os desafios que se apresentam a Dilma Roussef são grandes. Em primeiro lugar, trata-se de bem gerir o Estado brasileiro, que é bastante complexo, por tratar-se o país de uma nação com quase 200 milhões de habitantes. Em segundo lugar, por representar a continuidade do governo do ex-presidente Lula, que ao final de duas gestões, obteve índices de aprovação popular altíssimos, superiores a 80%. Em terceiro lugar, porque o cenário internacional ainda sofre os impactos da maior crise da economia capitalista desde os anos 30 do século passado, a 80 anos.

Mas, o paradoxo das comemorações do Dia Internacional da Mulher de 2011 reside no fato de que enquanto de um lado celebramos a conquista política e social das mulheres oriundas de trajetórias de luta, compromisso e militância sócio-política, papel representado por Dilma Roussef, de outro, somos confrontados pelo lançamento nos cinemas de todo o país do filme sobre Bruna Surfistinha, a prostituta que se popularizou narrando, via seu blog na internet, relatos dos programas que realizava com seus clientes e suas reflexões sobre sua condição e conflitos pessoais.

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O filme sobre Bruna Surfistinha é uma romantização de uma das mais degradantes condições da mulher, a prostituição. O filme tem cenas que deixam entrever a condição de miserabilidade em que vive a maioria das prostitutas, desprovidas de qualquer outro bem que possam oferecer à sociedade, além de seu corpo, tratado unicamente como objeto sexual. Há cenas, também, que demonstram a violência do mundo da prostituição, relatando a ocorrência de roubos entre as mulheres. Evidencia quanto a falta de local de moradia é motivo para mais outra exploração e espoliação das mulheres. Revela, ainda, a exposição ao consumo de drogas e como o dinheiro obtido com os programas servem apenas para pagar o vício, criando um círculo degenerativo das mulheres inseridas nesse universo.

Mas, como que por poesia, a prostituição é apresentada como um universo de acesso a opções de consumo que o trabalho não propicia. Além disso, lazer, festas, diversão, eis a face alegre que se apresenta disponível às “garotas de programa”, segundo a versão do filme de Bruna. E, com um pouco de criatividade e marketing, o blog, a garota rejeitada e humilhada do colégio pode converter-se numa celebridade instantânea nacional.

Qual a trajetória que devem construir para si as mulheres?

Do esforço, preparação pessoal, compromissos com a transformação social, a democracia e a igualdade social, caminho representado por Dilma?, ou o abandono da luta pela condição da igualdade de gênero, a submissão ao padrão machista que explora o corpo feminino, sem construir com ele nenhum vínculo além do prazer narcísico, para ganhar dinheiro com programas, aceitando a exploração e a indigência a que é submetida a maioria das mulheres que vivem da prostituição, percurso trilhado por Bruna Surfistinha?

 

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Publicado originalmente no blog Unipress

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