Quem é Sebe Souza, provável dono da TelexFree?


As últimas semanas têm sido turbulentas na internet e redes sociais à medida que a discussão ao redor de um suposto golpe do esquema de pirâmide, focado na empresa TelexFree, tomou proporções imensas – motivada principalmente pela divulgação de um vídeo pelo youtuber Cauê Moura e pela cobertura do Blog do Nassif sobre o assunto.

A TelexFree é uma empresa que fornece serviços de VoIP (Voice Over IP, ou Voz sobre IP) de maneira semelhante a programas conhecidos, como o Skype. A grande polêmica sobre ela, entretanto, é sobre seu método de divulgação, auto-intitulado um “marketing multi-nível”, que na prática, seria uma forma de golpe do estilo pirâmide que promete dinheiro rápido para seus divulgadores.

Explicamos:

Um esquema de pirâmide, como o próprio nome sugere, tem uma ou um grupo de pessoas no topo e cresce de maneira progressiva para baixo, com mais e mais pessoas sendo adicionadas à base. O proprietário do esquema é o responsável pelo produto e aquele que mais lucra com ele. Para divulgação do produto, o proprietário chama uma série de pessoas que investem uma quantidade inicial para se tornarem divulgadores e, após o fim do contrato, supostamente recebem uma quantidade maior de dinheiro – baseada principalmente na quantidade de pessoas que conseguiu trazer para a rede de divulgadores da empresa.

O problema do esquema é que ele rapidamente se torna insustentável, já que, a cada “nível” da pirâmide, o número de divulgadores cresce e a quantidade de pessoas que eles devem trazer para o esquema também. Em um exemplo hipotético, um serviço que tivesse 10 divulgadores no primeiro nível (logo abaixo do proprietário) no segundo já teria 100 pessoas, no terceiro, mil, no quarto, 10 mil e assim por diante. Ao décimo nível, precisaríamos de 10 bilhões de pessoas. A população atual da Terra é pouco maior que 7 bilhões de pessoas.

pirâmide

Nesse esquema, apenas as pessoas com muitos contatos, além do próprio proprietário, obviamente, teriam a capacidade de lucrar. O resultado disso é uma massa de divulgadores que investem o dinheiro inicial, mas não são capazes de receber o prometido de volta, já que logo se veem sem pessoas para expandir sua rede. A promessa de dinheiro rápido logo se torna um investimento sem retorno. Segundo divulgadores, a TelexFree já faturou cerca de R$ 300 milhões em 2012.

No caso específico da TelexFree, é oferecido ao interessado em divulgar o serviço duas opções. Uma delas é chamada “Adcentral”, no valor de US$ 299,00 (cerca de R$ 586,67), que dá ao usuário o direito de postar um anúncio diariamente em sites específicos da Internet. Por isso, o usuário receberia US$ US$ 49,90 (R$ 97,91) semanalmente, em um lucro anual de US$ 2594,80 (R$ 5089,69). A Telexfree promete aos usuários que a diferença virá dos lucros de seu serviço VoIP, apresentando inclusive estatísticas sobre o crescimento do uso de seu programa. Entretanto, o produto oferecido pela empresa se mostra pouco competitivo no próprio mercado VoIP, com um plano mensal de 3 mil minutos em ligações por R$ 97,91 (US$ 49,90). Em comparação, o Skype oferece um plano de ligações ilimitadas para um país à escolha do usuário por R$ 25,99.

A Telexfree oferece ainda um outro plano de divulgador chamado “Adcentral Family”, no valor de US$ 1.375,00 (R$ 2.697,89) que promete um lucro anual de US$ 12.974 (R$ 25.456,29) através de cinco divulgações diárias. Assim como na “Adcentral”, o plano família não obriga o usuário a vender o produto VoIP em si, mas incentiva o recrutamento de outros divulgadores, através de um suposto aumento nos lucros trazido pelo trabalho feito pelos divulgadores que o usuário recrutou.

As discrepâncias logo levaram às indicações de que a empresa seria, na verdade, apenas uma fachada para um golpe. Um levantamento realizado pelo jornalista Luis Nassif mostrou que a TelexFree foi montada pelo empresário do capixaba Carlos Wanzeler. Carlos teria utilizado seu conhecimento no mercado de VoIP, obtido com sua empresa anterior, a Disk A Vontade, localizada em Vitória (ES), para montar o serviço e esquema da TelexFree.

O Canaltech entrou em contato com a Disk A Vontade, e um funcionário que preferiu não se indentificar afirmou que Wanzeler já não tem mais relações com a empresa desde 2011, que agora é de propriedade de Sebe Souza. A empresária, no entando, estaria viajando e só poderia responder ao contato no final do mês. Segundo o funcionário, a Disk A Vontade foi a responsável pela operacionalização da TelexFree assim que a empresa começou a ser montada no país, “emprestando” sua infra-estrutura por cerca de três meses em 2012. A TelexFree, inclusive, tem seu endereço registrado no mesmo local da Disk A Vontade.

Para passar credibilidade à nova empresa, registrada sobre o nome de Ympactus Comercial LTDA, Wanzeler teria localizado a empresa norte-americana especializada em VoIP Commons Cents Communications e do proprietário James Merril para convertâ-la na TelexFree Inc. No Brasil, Merril, que agora é sócio do esquema, passou a ser apresentado como o gênio do marketing multi-nível e como um exemplo de como o negócio pode render frutos rapidamente. Atualmente, Wanzeler é tesoureiro e diretor da TelexFree Inc, segundo outro levantamento do site Meu Dinheiro em Casa.

TelexFree

James Merril é apresentado como um exemplo de como o negócio pode render frutos rapidamente

O marketing multi-nível é um modelo utilizado por algumas empresas que também recrutam pessoas para a divulgação e venda. No Brasil, o sistema legítimo é conhecido e utilizado por empresas como Herbalife, que possuem uma rede de revendedores para seus produtos. A TelexFree, entretanto, está sendo acusada de distorcer o marketing multi-nível, colocando o foco não na venda de seu produto de VoIP, mas na própria divulgação da empresa e de sua rede através dos recrutados.

Uma busca rápida no YouTube, por exemplo, retornará dezenas de vídeos de “divulgadores” explicando como divulgar o TelexFree de maneira eficiente e maximizar seus lucros. Um dos principais porta-vozes da empresa, que também publica vídeos em seu canal para a divulgação da TelexFree, é o ator Sandro Rocha – conhecido como Sargento e Major Rocha nos filmes Tropa de Elite e Tropa de Elite 2: O Inimigo Agora é Outro. Rocha já publicou diversos vídeos mostrando os lucros que teve através da TelexFree, por exemplo, após um mês da compra do pacote de divulgador. Diversos usuários, entretanto, acusam o ator de utilizar de sua fama – o que o possibilitaria trazer muito mais pessoas para o TelexFree, aumentando sua renda – para divulgar o serviço e enganar outros possíveis usuários, que nunca conseguiriam atingir os números exibidos por Rocha sem a fama dele.

A empresa também utiliza diversos outros vídeos para divulgar os supostos benefícios de fazer parte de sua rede e construir seu próprio time de divulgadores, como o caso do ex-ambulante Pelé Reis, que teria ganhado muito dinheiro através do serviço.

Após um número cada vez maior de consumidores procurarem o Procon para socilitar informações sobre a empresa, o órgão no Acre encaminhou uma denúncia ao Ministério Público Estadual, ao Ministério da Fazenda e à Polícia Federal. De acordo com o inquérito civil instaurado, há possibilidades de infrações do Código de Defesa do Consumidor, como propaganda enganosa, omissão de informações e abuso de ignorância do consumidor, e da lei que impede “ganhos ilícitos em detrimento do povo ou de número indeterminado de pessoas mediante especulações ou processos fraudulentos”. (Lei Federal nº 1.521/51, art. 2º). Segundo a assessoria de imprensa do Procon de São Paulo, até o dia 28 de fevereiro nenhuma denúncia contra a TelexFree havia sido feita no órgão.

Através de sua página do Facebook, a empresa publicou ontem um comunicado do seu Diretor de Marketing, Carlos Costa, afirmando que está colaborando com todas as investigações e que acredita que elas são “positivas”. “Estamos trabalhando de forma séria, honesta e colaborando com todas as investigações, entregando dentro do prazo todas as documentações exigidas”, afirmou Costa em um vídeo.

Também ontem, a empresa pediu aos seus divulgadores que excluíssem todos os perfis paralelos da TelexFree na rede social como forma de combater os “excessos que estão sendo praticados como promessas de lucros rápidos, ênfase no cadastramento e não no serviço VoIP“, o que estaria “provocando elevados prejuízos em termos de imagem e credibilidade”.

O Canaltech tentou contato com a TelexFree, mas até o fechamento desta matéria não obteve resposta.

Luis Nassif

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