Resenha: Ian McEwan – Amsterdam


Ian McEwan – Amsterdam

Gradiva – 191 páginas

        Atenção: esta resenha foi escrita para quem já leu o romance. Vou revelar aspectos importantes do final da história, portanto fique esperto. Se pretende ler o livro algum dia, talvez seja o caso de pular fora neste momento. Eu avisei.

        “Amsterdam” (título no Brasil – a tradução analisada está em português de Portugal) fala da amizade entre Vernon, editor de um grande jornal, e Clive, famoso compositor erudito. A partir do episódio da morte de uma ex-amante comum (Molly), eles fazem um pacto sinistro: na hipótese de um ou outro adoecer a ponto de não apresentar condições de decidir pela própria vida, consentem mutuamente na aplicaçào da eutanásia (o autor, providencialmente, não emprega esta palavra uma única vez em seu texto), a fim de evitar um processo de humilhação e sofrimento.

        A partir daí, no decorrer da trama e por rumos distintos, ambos se enveredam para fracassos em suas carreiras (a essência de suas vidas).  Vernon decide publicar em seu jornal fotografias comprometedoras de um ministro inglês, que também fora amante de Molly (a mulher devia ser uma fera!). A vida íntima do político, capturado em trajes íntimos femininos pela falecida, é exposta à execração pública, com a justificativa de salvar o país de um homem com idéias reacionárias, além de recuperar o periódico de seus índices declinantes de vendagem. Nesse contexto, vale dizer, a maledicência presente nas redações é dissecada com mordacidade. O tiro sai pela culatra, por motivos que não cabe aqui discutir. Vernon passa a ser acusado pela concorrência de ser um jornalista atrasado e intolerante, capaz de tudo para alcançar o sucesso. Cai em descrédito, é demitido, seu poder desmorona. Fracassa e associa o amigo ao seu fracasso.

        Por sua vez, Clive, movido por um pretenso sentido de ética, opõe-se à idéia de publicar as fotos, o que o leva a um sério desentendimento com Vernon. O músico enfrenta, no rastro dessa discussão, um processo de esvaziamento criativo. Resolve refugiar-se num cenário de montanha para buscar o final de sua Sinfonia do Milênio, que representa o ápice de sua vida profissional. A inspiração, contudo, não vem a contento. Lá, ele presencia, à distância, a discussão exacerbada entre um homem e uma mulher que, mais tarde, seria confirmada como sendo uma tentativa de estupro por parte de um persequido da polícia. Clive afasta-se da cena, obcecado por encontrar o seu momento criativo. Vernon, cruzando informações do jornal com declarações do amigo, passa a acusar o músico de ter negado socorro à vítima em troca do sucesso na carreira. Nos últimos capítulos, o final da sinfonia vai se revelar medíocre, praticamente um plágio de Beethoven. Clive fracassa e associa o amigo ao seu fracasso.

         A dificuldade em assumir suas próprias limitações e deficiências de caráter transforma-se em acusação recíproca. Há, entretanto, uma reconciliação fingida. Dominados por seus egos gigantescos, conduzidos ao belo cenário de razoabilidade e tolerância da cidade de Amsterdã, levam a cabo seu pacto de morte, por meio de um brinde regado com taças de champanhe envenenadas. A eutanásia transforma-se, assim, numa espécie de assassinato “consentido”, um suicídio sem culpa. O final, portanto, é trágico e irônico (embora lhe falte clareza), seguindo a veia de humor negro do escritor. Nesta parábola moral, o narcisismo, o egoísmo humano, a mentira, a mesquinhez e a busca cega da fama são tingidos com os nuances sombrios da morte.

        “Amsterdam” recebeu o Booker Prize em 1998. Considero que existem romances melhores de Ian McEwan, um dos meus autores prediletos. “Sábado”, “Reparação”, “O Inocente” e “Na Praia”, nesta ordem de preferência, causaram-me impacto maior.


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