Por influência do governo Bolsonaro, Brics muda posicionamento sobre Palestina e exclui apoio a refugiados

Declaração final também ignora crise sul-americana; Líderes dos cinco países membros não fizeram qualquer menção à forte instabilidade no continente

Bolsonaro e Ernesto Araujo. Foto: Instagram/Reprodução

Jornal GGN – O Brasil sediou em Brasília, nesta semana, entre nos dias 13 e 14 de novembro, o encontro da XI Cúpula do BRICS. O encontro do bloco formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul terminou por revelar um governo Bolsonaro mais pragmático, segundo avaliação de analistas.

Em entrevista ao site Congresso em Foco, o professor de relações internacionais da Universidade de Brasília, Juliano Cortinhas, observou que a gestão bolsonarista, que havia levantado discursos criticando a China, por exemplo, se alinhando com os Estados Unidos, “tem colocado o pé no freio da ideologia” e “começou a ser mais pragmático”.

“Tanto que houve um processo de aproximação com os chineses que se concretizou na visita de Bolsonaro a Beijing e agora com a visita de Xi Jinping ao Brasil. O BRICS serviu, então, para amenizar essas diferenças e colocar a política externa no lugar dela. Deixaram de lado assuntos nos quais não ia haver convergência para se concentrar em temas de posicionamento comum. E, assim, foram dados passos na direção de uma maior convergência econômica”, avaliou.

O resultado veio com o anúncio da China de disponibilizar um fundo de US$ 100 bilhões para o Brasil.

Por outro lado, a ideologia bolsonarista teve influência no encontro, como mostra a declaração final da XI Cúpula que ignorou a crise sul-americana, mudou o posicionamento sobre a Palestina e o apoio do bloco a agência da ONU para refugiados palestinos.

Embora o continente latino-americano esteja vivenciando um movimento de instabilidade em décadas – a prolongada crise venezuelana, a instabilidade e protestos na Bolívia e no Chile – o documento que marcou o debate não fez qualquer referência a essas questões.

Questionado por jornalistas, o Itamaraty respondeu que a Cúpula abordou assuntos de “envergadura global”.

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“Venezuela não está na agenda, não é um tópico para essa cúpula”, disse ainda Wang Xiaolong, enviado especial para a cúpula do ministério das Relações Exteriores chinês.

Em matéria na BBC News Brasil, a repórter Mariana Schreiber destaca que o novo documento contrasta com a Declaração de Fortaleza, produzido ao final do encontro sediado na capital do Ceará, em 20014.

“Acreditamos que o diálogo fortalecido entre os BRICS e os países da América do Sul pode desempenhar papel ativo no fortalecimento do multilateralismo e da cooperação internacional, para a promoção da paz, segurança, progresso econômico e social e desenvolvimento sustentável em um mundo globalizado crescentemente complexo e interdependente”, destacava a declaração de cinco anos atrás.

Na ocasião, onze líderes sul-americanos foram convidados e participaram da Cúpula. Neste ano, nenhum país externo ao bloco participou do encontro, “rompendo uma tradição que vinha desde 2013”, pontua Schreiber.

A declaração final da XI Cúpula do BRICS também aderiu à posição do governo Bolsonaro sobre o conflito entre Israel e Palestina, retirando do texto um trecho, escrito na declaração final de 2018, de que o status de Jerusalém deveria ser definido ao final de negociações de paz entre Israel e Palestina. Além disso, o BRICS excluiu o apoio à agência para refugiados palestinos (UNRWA).

*Com informações da BBC e do Congresso em Foco

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