A “independência” que se busca hoje no Brasil, por Sr. Semana

A principal diferença entre a política externa de hoje e as anteriores, que também defendiam a submissão aos Estados Unidos, é a presença de uma ideologia fundamentalista messiânica cristã.

A “independência” que se busca hoje no Brasil

por Sr. Semana

De 1500 a 1822 o Brasil foi colônia portuguesa. Diferentemente das monarquias inglesa e espanhola, a portuguesa proibiu o estabelecimento do ensino superior e a publicação de livros na colônia. Hoje se busca uma reforma administrativa que ameaça o futuro da rede de universidades federais largamente expandida e qualitativamente desenvolvida nos últimos anos e uma tributação de livros que deve impactar negativamente o mercado editorial.

De 1822 a 1889 foi um império com imperadores descendentes diretos do rei de Portugal, totalmente submisso à Inglaterra. Hoje um descendente é um dos políticos influentes no governo.

No início da República, nosso primeiro embaixador nos Estados Unidos era o intelectual e estadista Joaquim Nabuco. Hoje por pouco não temos um deputado escrivão da polícia federal no posto. De Washington, Nabuco escrevia ao seu amigo Machado de Assis: “Eu em diplomacia nunca perdi um só dia o sentido da proporção e o da realidade. … As maiores nações procuram hoje garantir-se por meio de alianças; como podem as nações indefesas contar somente consigo? E desde que o nosso único apoio possível é este [dos Estados Unidos], por que não fazermos tudo para que ele não nos venha a faltar?”[1] Hoje, apesar do notável crescimento da importância econômica e política do Brasil no cenário internacional e do surgimento de outros apoios possíveis, esta visão de Nabuco ainda é compartilhada pela elite militar brasileira.[2]

Da segunda metade do século XX à segunda década do XXI, presidentes (ou ex-presidentes que poderiam retornar ao poder pelo voto) que buscavam alguma independência dos Estados Unidos foram depostos (Jango e Dilma) ou presos (Lula), alguns talvez assassinados (Jango e JK) e um levado ao suicídio (Getúlio).

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A principal diferença entre a política externa de hoje e as anteriores, que também defendiam a submissão aos Estados Unidos, é a presença de uma ideologia fundamentalista messiânica cristã. É um retorno à visão de Antônio Vieira,[3] em versão evangélica pentecostal e neo-pentecostal, acrescida de um extremismo de direita e de um supremacismo branco contrário à proteção que Vieira defendia para a população indígena. Estes acréscimos assinalam a chegada ao Brasil, no fluxo colonialista cultural norte-sul em constante expansão desde o início da República, do que há de pior na associação entre religião e política nos Estados Unidos. Trocou-se o messianismo católico pelo evangélico, Portugal do século XVII pelos Estados Unidos do XXI, e D. João IV por Donald Trump como o representante de Cristo na terra para eliminar os infiéis (por conversão ou extermínio) e assim estabelecer as condições para o retorno de Cristo em Jerusalém. O projeto é substituir a independência da nação brasileira (dos cidadãos brasileiros) pelo domínio da “nação” cristã (dos cristãos fundamentalistas). O projeto envolve o fim da independência da ciência, da educação, da arte e da imprensa, com a liquidação do estado laico através da transformação dos primeiros cinco preceitos mosaicos (o primeiro é Deut. 5.7: “Não terás outros deuses diante de mim”), escritos “em duas tábuas de pedra” (Deut. 5.22), em cláusulas pétreas da constituição (os demais cinco, começando com o “Não matarás”, serão relativizados).

[1] Carta de Nabuco a Machado de 13 de fevereiro de 1908, publicada em Machado de Assis, Correspondência, coordenada por Sérgio Paulo Rouanet em 5 vols, São Paulo: Global, 2019, vol. V, p. 294 (correspondência 1031).

[2] Ver matéria de Igor Gielow publicada na Folha de São Paulo em 07/02/2020, acessada em 06/09/2020, https://www1.folha.uol.com.br/mundo/2020/02/elite-militar-brasileira-ve-franca-como-ameaca-nos-proximos-20-anos.shtml.

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[3] As principais obras messiânicas de Viera são, em latim, a Clavis prophetarum, sive de Regno Christi, in terris consumato e, em português, a inacabada História do futuro; esperança de Portugal; 5o. Império do Mundo. Ver Antônio Vieira, Obras Escolhidas, organizadas por Antônio Sérgio e Hernâni Cidade, Lisboa: Livraria Sá da Costa, 1953, volumes VIII e IX.

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1 comentário

  1. Tendo visitado os EUA muitas vezes desde 1970, e até residido lá por um ano, parece-me que, além da teocracia, uma grande diferença entre as épocas anteriores de submissão e a atual é que, desde a II Guerra Mundial, os EUA queriam parceiros, mesmo que submissos, e apoiavam em certa maneira seu desenvolvimento. A partir dos Bush e de suas guerras, agora não querem parceiros, querem áreas destruídas e caóticas, onde suas companhias possam atuar sem controle, defendidas por mercenários locais ou estrangeiros. É uma grande vergonha que tenham conseguido isto no Brasil apenas com uma guerra midiático-jurídica, com muito apoio local, e mais que total submissão, além do apoio teocrático a eles e a Israel. Nossas instituições e nossos recursos estão sendo rapidamente destruídos, e tem gente que se preocupa em ver o que foi falado no discurso do marionete de plantão.

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