Aborto não é um esporte prazeroso, é uma solução de emergência, por F. Ponce de León

Três textos ou excertos de textos escritos por mulheres notáveis e republicados no blogue Poesia contra a Guerra

(Albi) Femme sur une plage – Fernand Cormon – vers 1874

Enviado por Felipe A. P. L. Costa.

Aborto não é um esporte prazeroso, é uma solução de emergência.

Por F. Ponce de León [*].

 “Primeiro o coração. Rasguemo-lo. Suponho
Que esta mulher amou: tudo está indicando
Que morreu por alguém este ser miserando,
Misto de Treva e Sol, de Maldade e de Sonho.
Isso não me comove: adiante! Risonho
Fere, nevado gume! e, ferindo e cortando,
Aço, mostra que tudo é lama e nada, quando
Sobre os homens desaba o Destino medonho…
Fere este braço grego! E as pomas cor de neve!
E as linhas senhoris que a pena não descreve!
E as delicadas mãos que o pó vai dissolver!
Mas poupa o ventre nu, onde repousa um feto:
Por que hás de macular o sono fundo e quieto
Desse verme feliz que morreu sem nascer?”
– Henrique Castriciano (1874-1947) (‘Monólogo de um bisturi’, 1903).

*

Escritos por mulheres notáveis, os três textos ou excertos de textos republicados a seguir (em ordem cronológica de publicação) foram extraídos do blogue Poesia Contra a Guerra. (O poema acima também.)

*

1. Tragédia evitável.

Margaret Sanger.

Num dia quente de julho de 1912, fui chamada a um apartamento de Grand Street. Minha paciente era uma pequena e fraca judia russa, de vinte e oito anos, aproximadamente, com as feições especiais a que o sofrimento dá expressão de madona. O apertado apartamento de três aposentos estava em triste estado de confusão. Jake Sachs, motorista de caminhão pouco mais velho que a mulher chegara à casa para encontrar os três filhos chorando e ela inconsciente devido aos efeitos de um aborto provocado por ela mesma. Chamara o médico mais próximo que, por sua vez, mandara chamar-me. O que Jake ganhava era insignificante, e quase tudo era consumido na manutenção dos filhos, não muito fortes, se bem que sempre limpos e devidamente alimentados. A habilidade da mulher ajudara o casal a economizar um pouquinho, e o marido preferiu empregar as economias chamando uma enfermeira ao invés de mandá-la para um hospital.

O médico e eu preparamo-nos para a tarefa de lutar contra a septicemia. Jamais eu trabalhara tão depressa, e nunca tão concentradamente. Os dias e noites abafados foram transformados num inferno letárgico. Parecia impossível que pudesse haver tal calor, e cada porção de alimento, gelo e drogas tinha que ser transportada através de três lances de escadas.

Jake era mais bondoso e compreensivo que muitos maridos que conheci. Amava os filhos e sempre ajudara a mulher a banhá-los e vesti-los. Levava a água para cima e descia com o lixo antes de sair, pela manhã, e fez tudo o que pôde por mim enquanto, ansiosamente, observava o estado da enferma.

Após quinze dias, a melhora da sra. Sachs estava à vista. Os vizinhos – geralmente fatalistas quanto aos resultados de um aborto – ficaram verdadeiramente alegres pelo fato de ela ter sobrevivido. A sra. Sachs sorria frouxamente a todos que a iam ver, mas não podia reagir às sinceras congratulações. Parecia estar mais abatida e ansiosa do que deveria estar, e passava muito tempo meditando.

Ao final de três semanas, quando eu me preparava para deixar a frágil paciente retomar sua vida difícil, ela, finalmente, falou de seus receios.

– Outra criança acabaria comigo, não acha?

– Ainda é cedo para falar sobre isso – contemporizei.

Quando o médico veio fazer sua última visita, falei com ele:

– A sra. Sachs está bastante preocupada com a possibilidade de ter outro filho.

– Com toda a razão – respondeu o médico. E postando-se diante dela disse: – Outra brincadeira dessas, jovem, e não haverá necessidade de mandar chamar-me.

– Eu sei, doutor – respondeu ela timidamente, hesitando como se precisasse de toda a coragem para falar. – Mas que posso fazer para evitá-lo?

O médico era homem bondoso e trabalhara muito para salvá-la, mas acidentes como esse eram tão comuns que ele havia muito perdera toda e qualquer delicadeza que pudesse ter tido. Riu-se com vontade.

– Você quer guardar o bolo e, também, comê-lo, não é verdade? Bem, isso não pode ser feito. – Pegando o chapéu e a maleta, para sair, completou: – Diz a Jake para dormir no telhado…

Olhei rapidamente para a sra. Sachs. Mesmo através de minhas lagrimas repentinas pude ver estampada em seu rosto uma expressão de completo desânimo. Olhamos, simplesmente, uma para a outra. Nada dissemos até que a porta se fechou após a saída do médico. Ela, então, levantou as mãos magras, de veias azuis, e uniu-as implorando:

– Ele não pode entender. É somente um homem. Mas a senhora entende, não é verdade? Por favor, diga-me qual é o segredo, e não direi a pessoa alguma. Por favor!

Que poderia eu fazer? Não podia empregar as frases convencionalmente confortadoras que não serviriam de conforto. Fiz, em vez disso, o que foi possível para seu bem-estar físico e prometi voltar dentro de alguns dias para, novamente, conversar com ela. Logo depois, enquanto ela dormia, saí na ponta dos pés.

Noite após noite a imagem da sra. Sachs apareceu diante de mim. Inventei, a mim mesma, todas as espécies de desculpa por não ter voltado. Estava ocupada com outros casos; não sabia, na realidade, o que dizer a ela ou como convencê-la de minha ignorância; sentia-me impotente para evitar tais monstruosas atrocidades. O tempo passou, e nada fiz.

Três meses depois, certa noite, o telefone tocou e a voz agitada de Jack Sachs implorou-me que fosse imediatamente à sua casa; a mulher estava doente, de novo, pelo mesmo motivo. Por um instante doido pensei em mandar outra pessoa mas, naturalmente, apressei-me a vestir o uniforme, apanhei a maleta e saí. Quando em caminho, ansiei por um desastre no metrô, por uma explosão, por qualquer coisa que me impedisse de entrar novamente naquela casa. Nada, porém, aconteceu, nem mesmo para atrasar-me. Entrei pela porta miserável e subi, mais uma vez, as escadas familiares. Lá estavam as crianças, coisinhas tão novas…

A sra. Sachs estava em estado de coma e morreu dez minutos depois. Cruzei-lhe as mãos imóveis sobre o peito, lembrando-me quanto elas haviam implorado, pedido humildemente o conhecimento a que tinha direito. Cobri o pálido rosto como o lençol. Jake soluçava e passava as mãos pelos cabelos, puxando-os como doido. Sem parar, ele gemia:

– Meu Deus! Meu Deus! Meu Deus!

*

2. Aborto: a necessidade de uma nova ética.

Margaret Mead & Rhoda Métraux.

Toda a situação relativa ao aborto neste país [EUA] mudou dramaticamente desde o princípio deste ano de 1973.

Em suas momentosas decisões de janeiro último, a Corte Suprema enquadrou claramente o direito de uma mulher obter um aborto na área da liberdade individual, que este país sempre defendeu explicitamente. Derrogando leis estaduais que restringiam ou vedavam o direito de uma mulher tomar por si a decisão de submeter-se a um aborto, levou a um ponto morto uma feroz batalha travada entre os que pugnavam contra e a favor da ‘liberalização’ das leis do aborto. A base das decisões da Corte foi o reconhecimento de um “direito sobre a própria pessoa”, livre de restrições governamentais.

Entretanto, a Corte Suprema não deixou o país sem direção para o futuro. Nos primeiros três meses da gravidez, decretou a Corte, a decisão de uma mulher deve ser totalmente livre de interferência legal. Durante os últimos seis meses os estados têm a faculdade de “regular o procedimento do aborto de modos razoavelmente relacionados à saúde materna”; ou seja, os estados podem legislar de modo a proteger o bem-estar da mulher que decida interromper uma gestação. E, finalmente, durante as últimas dez semanas da gravidez, quando se presume que o nascituro “tem a aptidão de vida significativa fora do útero da mãe”, o aborto pode ser legalmente proibido, salvo para proteger a vida ou a saúde da mãe.

Portanto, a liberdade de decisão de uma mulher é garantida, mas não absoluta. Nos últimos estágios da gravidez o bem-estar da mãe e, no fim, o bem-estar de um novo ser humano viável recebem proteção. […]

*

3. Transformações sociais e sexualidade.

Marilena Chaui.

Resta-nos uma última referência: a relação entre repressão sexual e a divisão social das classes, referência feita esparsamente no decorrer deste livro e que foi estudada por Rose Marie Muraro, num livro intitulado Sexualidade da mulher brasileira – Corpo e classe social no Brasil. […]

Rose Marie Muraro trabalha ainda com a hipótese da diferença entre o mundo urbano e o rural. Assim, apesar das diferenças e semelhanças de classe no imaginário sexual, a divisão campo-cidade parece assumir um papel importante e a autora escreve: “Em suma, em relação à sexualidade, vê-se uma grande diferença entre o mundo rural e o urbano (que irá acentuar-se mais ainda nas classes médias): a queda real da supremacia masculina, o abalo do dispositivo familiar e do casamento como ideologia e representação, mas permanece sempre a clivagem entre homens e mulheres. Cai muito também no meio urbano a desvalorização da mulher após a menopausa, que é muito alta no campo, mais entre as mulheres do que [entre] os próprios homens. É interessante notar que a proibição do aborto, embora diminuindo na classe operária, é a que permanece como uma distância menor em relação ao campesinato”.

A ideia geral do livro de Muraro é a de transformações sociais globais com relação à sexualidade, em decorrência das transformações econômicas e sociais do país – queda do tabu da virgindade, do casamento como saída natural para a sexualidade, maior aceitação do homossexualismo, da masturbação, dos anticoncepcionais. O carro-chefe dessa mudança ideológica é a classe média urbana liberal e intelectualizada, mais próxima dos padrões dos países chamados desenvolvidos. […]

*

NOTA.

Para ler mais: (1) Hardin, G., org. 1967. População, evolução & controle da natalidade. SP, Companhia Editora Nacional & Edusp. Texto originalmente publicado em livro em 1938. (2) Mead, M. & Metraux, R. 1982. Aspectos do presente. RJ, Francisco Alves. (3) Chaui, M. 1984. Repressão sexual. SP, Brasiliense.

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