Almoço em família, por Dora Incontri

Mas… há tantos que têm teto, mesa, comida farta e ainda assim não usufruem da graça e do aconchego de almoços e jantares entre familiares e amigos.

Almoço em família, por Dora Incontri

Estamos pendurados num fio de esperança sobre a areia movediça do futuro. Há tantos pesadelos nos assombrando o presente, que quase não nos permitimos pensar sobre outras coisas que não sejam as múltiplas causas pelas quais temos o dever de militar… (sem militares!)

Mas precisamos pensar no que é bom, no que é humano, no que nos dá acalento e força.

E aproveitando que estou desenvolvendo um tema no meu programa diário Boas palavras para um Bom dia, no Canal Paz e Bem, vou aprofundá-lo aqui: almoços em família, o sagrado em torno de uma mesa bem posta, a união na divisão do pão.

Já me assopra a consciência social: como posso falar desse tema, quando há tantos passando fome? Tantos que não têm uma mesa e uma casa, uma família e um teto? Sim, cabe-nos pensar nesses milhões ao redor do mundo. Indignarmo-nos por isso e fazer todo o possível que estiver ao nosso alcance para mudar as estruturas de uma sociedade que distribui tão mal suas riquezas e relega grande parte da população mundial à exclusão dos bens básicos de subsistência.

Mas… há tantos que têm teto, mesa, comida farta e ainda assim não usufruem da graça e do aconchego de almoços e jantares entre familiares e amigos.

Fui criada em família italiana, meu avô materno, de origem calabresa, que fazia pães e massas, molhos e berinjelas, pastéis e doces, tinha uma frase clássica que até hoje ressoa em meus ouvidos: “a hora da mesa é sagrada”. Ou seja, não se ligava a televisão, não se contava piada suja, não se brigava. Hoje, ele diria algo contra os tablets e celulares em plena refeição em que ninguém se olha e se conversa. Na casa dos meus pais, às vezes uma refeição se estendia por mais de hora depois da sobremesa, em longos debates, em que entrava tudo: religião, política, sexualidade… Debates ardorosos, em voz alta, como fazem bons descendentes de italiano, mas sem nenhum conflito insolúvel. Depois de 5 minutos estava tudo bem.

Quem já não experimentou na vida o prazer de uma comida bem feita, entremeada de uma conversa fecunda entre amigos?

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Jesus transformou água e vinho num casamento, em sua primeira aparição pública no Evangelho e terminou sua mensagem numa ceia, dividindo o vinho e o pão. Meu avô tinha razão, a hora da mesa é sagrada.

Para isso, há que se valorizar o ambiente acolhedor, a comida feita com esmero, mesmo simples (uma das comidas mais confortadoras que comi na vida, além dos almoços do meu avô, foi um feijão no forno a lenha, numa pensão simplíssima no interior de Minas).

Nada de fast food, trash food, transportado por I food… mas a comida cozinhada, com tempero e afeto, que produz o prazer do paladar e o prazer de estar junto.

Infelizmente, muitas famílias hoje desconhecem essa rotina. Mas ela é marcante na vida das crianças, ela é reconfortante para os idosos e um oásis para os que estão na ativa e precisam de respiros humanos.

Nem sempre é possível, nem sempre as rotinas têm essas brechas, mas procuremos por elas. E sempre quando pudermos, também convidemos os parentes e amigos que não tenham condições de fazerem almoços fartos ou que vivam sozinhos, para a partilha do pão e do afeto à volta de mesa!

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