As redes sociais e a privatização da esfera pública – uma ameaça à democracia, por Tarson Núñez

As grandes plataformas são empresas particulares, que não estão sob qualquer tipo de controle por parte do público

Foto: Joana Berwanger/Sul21

do Sul 21

As redes sociais e a privatização da esfera pública – uma ameaça à democracia

por Tarson Núñez

Nos últimos anos se assiste a uma preocupação crescente no mundo inteiro em relação às ameaças sofridas pela democracia. Aqui no Brasil este debate se acirra com a presença na Presidência da República de um indivíduo que defende abertamente a ditadura e que busca de todas as formas impor o seu poder sobre a sociedade brasileira. Mas o fato é que líderes autoritários como Bolsonaro, Trump, Orban não são a causa, são muito mais um sintoma de uma crise muito mais estrutural. Esses fenômenos autoritários são decorrência de um processo muito mais profundo e complexo que vem levando a uma erosão da democracia no mundo inteiro. 

Na verdade hoje a maior ameaça à democracia não se relaciona apenas com estas figuras acima citadas. Ela vem de outras figuras que, olhadas superficialmente, são apenas empreendedores de sucesso que criaram soluções tecnológicas voltadas para melhorar a vida das pessoas. Pessoas como Jeff Bezos, Marc Zuckerberg, Larry Paige, Sergei Brin e Pavel Durov são hoje um perigo muito maior para a democracia do que qualquer líder da extrema direita populista. 

Em meados de maio o excelente blog Tecnopolítica foi vítima de restrições por parte do Youtube, onde está situado. O responsável pelo blog, o professor Sérgio Amadeu, da Universidade Federal do ABC e uma das maiores autoridades do Brasil no que diz respeito às tecnologias da informação, redes e democracia, se manifestou publicamente para denunciar que Youtube bloqueara o episódio que denunciava a injusta prisão de Julian Assange. “Ao desconfiar que o episódio #146 do Tecnopolítica estava com redução de visualizações promovida pelo bloqueio algorítmico do Youtube, fomos impulsioná-lo. Aí o Youtube informou à equipe do podcast que o episódio estava reprovado. Qual o motivo da reprovação? Escreveram ‘Restrição de anúncios políticos no Brasil’.”

Este episódio é importante para abrir nossos olhos para o fato de que hoje a maior parte do debate político na sociedade flui através das redes sociais. Governantes e empresários se comunicam com o público através do Twitter, os mais variados grupos sociais e políticos se articulam através do Whatsapp ou do Telegram, ideias e informações sobre política circulam e são debatidas no Facebook. Gracinhas e memes, mas também manifestações e críticas políticas florescem no Tik tok. Canais de Youtube são os veículos de transmissão de informações, de opiniões e teses políticas. Esta realidade deveria nos levar a refletir de maneira mais aprofundada acerca o impacto que esta forma de diálogo politico tem sobre a saúde da democracia. 

O primeiro grande elemento que aponta a dimensão das ameaças à democracia causada pelas redes sociais diz respeito ao processo de privatização, um verdadeiro sequestro, da esfera pública. As grandes plataformas são empresas particulares, que não estão sob qualquer tipo de controle por parte do público. O espaço onde hoje circulam as informações e a maior parte do debate sobre os temas políticos, econômicos, culturais e sociais são realizados não é um espaço aberto onde todas as opiniões podem circular livremente, contrapondo argumentos e gerando novos consensos. São espaços privados cujos donos têm o poder de decidir o que e como vai ser discutido.

Quem decide o que pode e o que não pode ser veiculado são exclusivamente os proprietários que controlam as redes. Postagens que contrariem os interesses desses proprietários são vetadas, acompanhadas de uma afirmação (que soa bastante irônica) de que seu conteúdo vai “contra as regras da comunidade”. Estas regras não são públicas, são decididas unilateralmente e, mais do que isto, mudam constantemente de acordo com os interesses políticos dos proprietários do espaço. A recente proscrição de sites e de veículos russos nas redes em função da guerra na Ucrânia é apenas a mais recente manifestação dessa possibilidade.

De alguma forma, essa não é uma característica nova. Mesmo antes do advento das redes muito do debate público já era controlado por grupos privados da imprensa escrita e televisiva. No entanto, no caso das redes sociais, este poder se amplia exponencialmente. Enquanto os jornais e as redes de TV podem ser percebidas pelo público como atores políticos portadores de uma opinião (com a qual podemos ou não concordar), as redes se apresentam como meros suportes, como ferramentas técnicas que criam um espaço no qual todos poderíamos nos expressar de forma igualitária e onde aconteceria uma troca de ideias e um debate mais livre. Esta ilusão, cuidadosamente cultivada pelas empresas proprietárias dessas redes, que tratam a si mesmas como “comunidades”, é, em si mesma, uma forma de dar uma aparência de neutralidade aos interesses de seus controladores.

Neste contexto onde o debate público se mistura com uma gestão privada do espaço onde este debate é realizado, há ainda outros impactos profundos sobre a democracia. Sendo essencialmente empresas comerciais, os espaços nas redes sociais são condicionados também pela capacidade dos participantes em pagar para ampliar o impacto das suas intervenções. Portanto as ideias, opiniões e informações distribuídas por atores sociais que têm mais recursos econômicos ganham um destaque maior do que as opiniões dos cidadãos comuns. E quem não paga pouco aparece. A disseminação das posições de quem tem a capacidade de pagar pela ampliação do impacto de suas intervenções nas redes se multiplica exponencialmente de uma forma totalmente artificial, determinada pela capacidade de pagamento de cada um dos interessados no debate. As redes fortalecem a voz daqueles que detém poder econômico.

Mais do que isso, o impacto do poder econômico não se limita apenas ao fato de que o pagamento permite valorizar uma dada opinião para além do valor intrínseco das suas ideias. Poder econômico permite também a alocação de recursos financeiros e tecnológicos que permitem gerar uma maior repercussão de determinadas ideias e opiniões. Do ponto de vista tecnológico temos os bots, dispositivos tecnológicos que permitem multiplicar intervenções nas redes de forma automática, gerando “apoios” artificiais. Os “bots” podem atuar também atacando adversários, gerando um impacto de opinião pública nos debates sem que isto represente uma efetiva e legítima intervenção de pessoas reais. E este tipo de impacto por vezes nem demanda automação. Já é notória a prática de contratação de pessoas e empresas cujo papel é justamente multiplicar o impacto de determinadas posições ou ideias ou atacar adversários, reproduzindo ou repassando materiais produzidos e/ou atacando aqueles que são identificados como “inimigos”. O famoso “Gabinete do Ódio” é apenas mais um exemplo.

Este tipo de intervenção organizada, sistemática e tecnológica, não se limita ao debate político-eleitoral. Recentemente no Brasil foi revelada a contratação de agências de publicidade por parte das grandes plataformas de aplicativos de entregas, cujo trabalho era o de criar intervenções disruptivas sobre os movimentos organizados de resistência por parte dos entregadores. Estes trabalhadores utilizavam as redes como instrumentos para organização e tiveram que enfrentar “comunidades” artificialmente criadas com o objetivo de atrapalhar e desorganizar os movimentos. A intervenção desses “dissidentes” artificialmente plantados nas redes ajudou a derrotar o movimento dos entregadores.

Então o que se pode ver é que, uma vez que as redes se tornaram um dos principais espaços de debate e socialização política, as possibilidades de que o debate politico seja efetivamente realizado em igualdade de condições são muito pequenas. Quem tem dinheiro tem garantido um peso maior para suas opiniões, quem tem dinheiro consegue mobilizar recursos humanos e técnicos para amplificar suas opiniões. E, mais do que tudo, os proprietários dos espaços tem o poder de definir o que pode e o que não pode circular como opinião.

Mas para além destes aspectos relacionados com a propriedade privada dos espaços onde se faz a discussão da política, e das possibilidades de que o poder de grupos poderosos economicamente se imponha no debate, existem ainda outras dimensões nas quais se pode perceber que esta privatização da esfera pública representa uma séria ameaça à democracia. Para além do controle privado dos fluxos de informação e de ideias, o próprio modelo de debate nas redes também tem um efeito negativo sobre a democracia.

O primeiro elemento estrutural deste modelo que impacta sobre a democracia é o fato de que a polarização, as opiniões radicalizadas, escandalosas e agressivas geram um impacto maior nas redes. O mecanismo de faturamento das redes sociais depende de um engajamento permanente, que amplie o tempo de uso por parte dos indivíduos. Nessa medida, os mecanismos das redes tendem a amplificar aquelas manifestações de maior impacto, capazes de gerar atenção, polêmica e engajamento. Isto, via de regra, acontece através daquelas manifestações mais polêmicas, que terminam sendo aquelas que beneficiam mais o faturamento das redes. A famosa cultura da “lacração”. Ataques, acusações, denúncias bombásticas agitam as redes, engajam mais internautas

  Opiniões ponderadas, manifestações reflexivas, críticas ou moderadas não são favorecidas pelo modelo das redes, pelo contrário. Portanto é da natureza mesma das redes a geração de um debate radicalizado, adversarial, e que transforma os oponentes em “inimigos” a serem derrotados. E não há, por conta do próprio modelo de negócio das empresas, um estímulo real para reduzir a polarização. Afinal, radicalização gera engajamento, engajamento gera lucro. A construção da democracia demanda o contrário. A busca de consensos e a aceitação de opiniões dos outros é a base de uma cultura democrática. A dinâmica das redes vai na direção oposta desta perspectiva, na medida em que seu sucesso depende justamente de um conjunto de usuários radicalizados, sedentos por conflitos onde vejam seus pontos de vista se afirmarem em detrimento dos seus “inimigos”. 

Outro elemento estrutural, que vai além do tema do poder econômico decorre da própria natureza dos algoritmos. Desenhados para “satisfazer os interesses” dos usuários, os algoritmos são desenhados para levar a cada um o que seriam supostamente os temas de seu interesse, baseados na sua trajetória pregressa. Com isso o que se assiste é a formação das famosas “bolhas”, onde cada cidadão recebe, em geral, mensagens que são convergentes com o seu ponto de vista. Somos confrontados permanentemente com informações e ideias que convergem com o que pensamos e sentimos. Visões distintas, argumentos novos, ideias diferentes, o contraditório são elementos que não aparecem nos conteúdos a que temos acesso. Estes conteúdos tendem sempre a confirmar nossas opiniões, reforçar nossos preconceitos e a fortalecer os valores de defendemos. O debate político através das redes tende portanto a prejudicar uma visão mais plural, ponderada e reflexiva, que seria fundamental para a democracia. 

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Uma das condições básicas para a democracia é o pluralismo, o reconhecimento do contraditório, a capacidade de se ponderar as distintas posições possíveis em relação a cada problema. O modelo das redes sociais leva na direção contrária, ao isolamento de cada um no seu universo fechado, que é reforçado pela sensação de que “todo mundo pensa assim como eu”. Este reforço positivo tende a fortalecer opiniões fechadas a qualquer outra alternativa que não seja a reafirmação das ideias pré concebidas de cada um.

Por fim temos também um processo de rebaixamento do conteúdo do debate político. O meio determina a mensagem. Os 150 toques do twitter, os poucos minutos de um reels no instagram ou de um tik tok trazem consigo uma necessidade de síntese que é prejudicial ao debate de temas complexos. Qualquer manifestação mais longa no Facebook já fica prejudicada pelo repúdio geral ao que se convencionou chamar de “textão”. O padrão do debate impede o aprofundamento e o questionamento. O debate nas redes se torna um amontoado telegráfico de fatos desconexos e o padrão acelerado do debate impede qualquer possibilidade de uma discussão mais profunda e cuidadosa dos temas em questão.

O debate político qualificado demanda conteúdo e aprofundamento das questões. A compreensão da complexidade dos temas é essencial para uma tomada de decisão correta. Uma cultura democrática implica em argumentação e contra-argumentação, demanda o exame das evidências, a capacidade de olhar todos os lados de cada questão. O ritmo e as limitações do conteúdo ao modelo “150 toques” ou 30 segundos vão na direção contrária da construção de uma reflexão mais ponderada. 

Bolsonaro, Trump, Orban evidentemente são ameaças à democracia. Mas sua existência, e sucesso, decorrem de um ambiente geral de despolitização, polarização, ignorância, superficialidade, consumismo e imediatismo que é gerado por este novo ambiente de socialização política através das redes sociais. E estes líderes políticos sempre estarão, de alguma forma, sob escrutínio público. Podem perder eleições, podem ser derrubados por movimentos contestatórios, pois seus lugares dependem de uma legitimação que é política e pública.

Já as redes sociais são, por definição, totalmente impermeáveis ao controle público. Pelo contrário, além de controlar a forma e o conteúdo dos debates públicos, as redes cada vez mais se tornam capazes, elas mesmas, de estabelecer as pautas e de conduzir as opiniões dos cidadãos. Seu incessante trabalho de mineração de dados já passa hoje, como demonstrou a professora de Harvard Shoshana Zuboff em seu livro “A era do capitalismo de vigilância”, não apenas por se tornar capaz de vender produtos adequados aos nossos desejos, mas de determinar que desejos são esses. 

A democracia está sob ameaça, mas é importante saber de onde mesmo é que vem essa ameaça. E ela vem de onde menos se espera. De nada adianta combater os efeitos dos processos sem enfrentar as causas. A reconstrução dos espaços públicos, o controle democrático da internet, a redução do poder das chamadas Big Tech, são os principais desafios daqueles que hoje defendem a democracia.

Tarson Núñez – Doutor em Ciência Política pela UFRGS

O texto não representa necessariamente a opinião do Jornal GGN. Concorda ou tem ponto de vista diferente? Mande seu artigo para [email protected]

1 Comentário

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Bernardo Speller Trajano

- 2022-07-08 09:10:33

REGULAÇÃO JÁ! E essas a plataformas digitais deveriam deixar um quinhão dos bilhões (ou trilhões) que eles faturam para o Estado investir no mundo real.

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