Carta ao entregador Matheus Pires, por Paula Nunes

Fico pensando aqui quantas e quantos entregadores de aplicativos passam por isso com frequência ao entregarem alimentos em condomínios com muros altos.

Carta ao entregador Matheus Pires

por Paula Nunes

Caro Matheus,

Escrevo essa carta porque eu vi o vídeo que mostra um homem branco dizendo que você tinha inveja da cor dele e nunca conseguiria o que ele tem. Apesar de ter embrulhando o meu estômago, assisti até o fim e vi a resposta que você deu. Obrigada por ela. Obrigada por ter questionado com tanta força a falência de um modelo de sociedade que concentra riquezas e mantém desigualdades. Apesar de sua força, Matheus, eu não gostaria que você tivesse vivido isso. Fico pensando aqui quantas e quantos entregadores de aplicativos passam por isso com frequência ao entregarem alimentos em condomínios com muros altos.

Vi nas redes sociais muitas pessoas elogiando a sua calma. Achei curioso. A sociedade é tão violenta conosco, negras e negros, a todo o momento, mas esperam que tenhamos calma diante dessas situações de violência. Quantos de nós já ouvimos que somos negros raivosos, não é mesmo? A mesma raiva que destilam sobre nós todos os dias.

Por isso, o que mais me chamou atenção no vídeo foi quando o homem usou a palavra “inveja”. Eu imediatamente me coloquei no seu lugar. Quando eu era criança, lembro de me olhar no espelho e me perguntar por quê, dentre tantas pessoas com as quais eu convivia, Deus tinha decidido que eu nasceria com esse tom de pele e com esse cabelo. Por muito tempo eu tive, sim, “inveja” das meninas de pele mais clara e cabelo mais liso do que o meu. Eu demorei alguns anos de vida para entender que esse sentimento, que eu entendia como “inveja”, na verdade era fruto do próprio racismo que estabelecia um padrão de beleza que nunca seria alcançado por uma mulher como eu.

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Foi só quando eu entendi que as dores provocadas pelo racismo são coletivas, que eu entendi a importância de coletivizar também as saídas para acabar com essas dores. Algumas feministas negras, como Vilma Piedade, chamam esse processo de “dororidade”, ou a solidariedade que é desenvolvida entre nós a partir das dores que compartilhamos.

Ao entender e reconhecer a minha negritude, eu passei a sentir orgulho da minha trajetória, da minha família, dos nossos ancestrais, e também da cor da minha pele, do meu cabelo, do meu nariz e da minha boca. Passei a sentir orgulho das nossas músicas, das nossas roupas, das nossas comidas e dos nossos costumes. Esse orgulho é o que me move e me faz lutar todos os dias para que pessoas como eu e como você – que temos trajetórias de vida muito diferentes e compartilhamos muitos sentimentos em comum – nunca mais tenhamos que passar por situações como a que você passou na última semana. Para que as crianças que vierem depois de mim não precisem se olhar no espelho com vergonha de seus traços.

Talvez, Matheus, pessoas como aquele homem nunca entendam o real sentido dessa solidariedade. E essa carta, na verdade, é para te dizer que você não está sozinho nessa, nem nas dores e nem nas respostas que precisam ser dadas. Não se preocupe, você não anda só.

Com carinho,

Paula Nunes.

Paula Nunes é advogada, especialista em Segurança Pública, ativista do movimento negro e pré-cocandidata da Bancada Feminista do PSOL, candidatura coletiva à vereança em São Paulo

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4 comentários

    • “Bah tchê”! “Curto e grosso” sou eu nascido e criado no RS.

      Ela fala do caso E fala de si. Falar de si e do seu passado é terapêutico. É a base da terapia psicanalítica.

      Falar de si também serve como referência para milhares de outras pessoas que compartilham da mesma “inveja” pregressa da autora, por não se enquadrar no padrão de beleza dominante. Um sentimento negativo que é melhor superado coletivamente.

      É interessante observar no discurso da autora a troca da “inveja” por “orgulho”, um sentimento socialmente inútil. Uma troca melhor seria por autoconfiança, tranquilidade, …

  1. Mais um Almeida Prado

    O agora, convenientemente, esquizofrênico agressor chama-se Mateus Abreu Almeida Prado Couto. Curiosamente, o mesmo sobrenome do desembargador de Santos. Não é coincidência.

    Acho que foi por volta de 2010/2011 que surgiu o personagem humorístico de grande sucesso professor Hariovaldo Almeida Prado, o mestre Hari (anauê!). Até hoje não sei quem é o criador do personagem. A escolha do sobrenome não foi aleatória, há método nessa genial criação, pois Almeida Prado remete à aristocracia cafeeira do século 19, tempo dos barões do café.

    Não por acaso mestre Hari é um ferrenho defensor e saudosista da “Revolução de 32” e do ideário paulista quatrocentão, e marchou com Deus e a família contra o comunismo ateu em 1964, de terço na mão. Consta que a família Almeida Prado é imensa, pois mesmo após gerações e os casamentos fazem questão de preservar o sobrenome, invocando uma nobreza perdida no tempo e falida. E tem de tudo: ricos, pobres, remediados e falidos (a maioria). Mas orgulhosos do sobrenome.

    Tanto o desembargador de Santos quanto o “esquizofrênico” de Valinhos estão em linha com a aristocracia cafeeira – e escravocrata – do século 19.

    Aqui, um comentário feito em 20.07.2020, sobre o caso de Santos:

    Luiz Fernando Juncal Gomes 20/07/2020 at 11:54
    Eduardo ALMEIDA PRADO Rocha Siqueira

    Alvíssaras! Certamente é parente do grande e impoluto professor Hariovaldo Almeida Prado [ No combate ao comunismo ateu e na defesa da família cristã ], o mestre Hari, anauê, anauê, anauê! E se é parente do mestre Hari, certamente também é um digno representante dos Quatrocentões Homens Bons da Pátria!

    O nobre, impoluto,correto, probo e ilibado desembargador quatrocentão é mais uma vítima da sanha comunista orquestrada pelos agentes bolchevistas do PT, que perseguem os melhores Homens Bons da Pátria.

    Não passarão! Anauê!

  2. Ao entregador Matheus, meus parabéns pela resposta, pela calma e pelo poder de não se intimidar.
    Mais que isso, ao poder que ele não deu ao brancão faminto de ofendê-lo, porque ofensa a gente só aceita se admitir que o outro tem poder sobre nós, assim rezam os mandamentos de auto ajuda.
    Quanto a negrice, o tempo é o senhor de todas as coisas e justo como o quê.
    Todo branco tem inveja de preto a partir dos 30 anos, porque o negro além de ser mais forte, não envelhece.
    Sobre cabelo ruim, vale trazer ao presente a lenda sobre o desafio entre o Ronny Von e o Tony Tornado na época do “black power”.
    Dizia-se que o Ronny teria dito que seus longos cabelos cresciam mais que o “pixaim” do Tony Tornado, ao que este teria dito:
    “O seu cabelo cresce pra baixo e pode ir até o chão, enquanto que o meu cresce pra cima e vai ao infinito”.
    Lendas…
    No mais, resta a luta de diária de todos nós, brancos ressentidos, nordestinos revoltados, pretos perseguidos, pobres injustiçados e brasileiros inacreditáveis, em quem mais que a covid nos contamina o vírus do ódio.
    Vacinemo-nos pois contra o ódio há cura.

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