Explosão em Beirute: quando a negligência se transforma em tragédia, por Mauro Bertotti

Para que um acidente ocorra com nitrato de amônio, muitos aspectos devem ser neglicenciados ao mesmo tempo, e parece que este foi o caso da explosão em Beirute.

do Jornal da USP

Explosão em Beirute: quando a negligência se transforma em tragédia

por Mauro Bertotti

 

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Por ser um reagente com potencial uso explosivo, a aquisição do nitrato de amônio é controlada pelo Exército. Entretanto, tal composto é estável à temperatura ambiente e pode ser encontrado em laboratórios químicos, inclusive nos de graduação em cursos de nível superior. Para que um acidente ocorra com nitrato de amônio, muitos aspectos devem ser neglicenciados ao mesmo tempo, e parece que este foi o caso da explosão em Beirute.

Processos de combustão requerem oxigênio, o qual existe em grande quantidade no nitrato de amônio. Esta substância não explode espontaneamente, mas em elevadas temperaturas decompõe-se de forma muita rápida, com formação de gases. Esta propriedade foi a responsável pelo acidente em Beirute, porque um gás assume volume muito superior ao de um sólido, e este volume aumenta ainda mais em elevadas temperaturas, como as resultantes dos processos de combustão. Como consequência da expansão do ar em curto espaço de tempo, originam-se as chamadas “ondas de choque”. Não existem ainda informações conclusivas sobre como o acidente se iniciou, mas há evidências preliminares de que um incêndio pode ter atuado como fonte de ignição para a combustão do nitrato de amônio. Como provavelmente o material não estava armazenado de maneira segura, houve consumo total durante a combustão, resultando numa catástrofe de dimensões alarmantes.

Por conta dos enormes riscos associados à combustão do nitrato de amônio, o armazenamento seguro requer a manutenção da substância longe de qualquer combustível e fonte de ignição. O estoque deve ser feito em recipientes pequenos e afastados uns dos outros para que, se um deles explodir, a combustão fique restrita ao local onde ele se encontra e não se alastre. O nitrato de amônio é classificado como reagente perigoso e todos os aspectos envolvendo o seu uso são rigorosamente regulamentados no Brasil.

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A explosão em Beirute nos mostra o quão importantes são essas normas e por que elas devem ser cumpridas com muito rigor. Acidentes similares com o nitrato de amônio já ocorreram no passado e em diferentes países, e esta mais nova tragédia comprova que, infelizmente, ainda temos muito a avançar na criação de protocolos rígidos de segurança para lidar com substâncias potencialmente perigosas.

Mauro Bertotti, professor titular do Instituto de Química da USP

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1 comentário

  1. “…quando a negligência se transforma em tragédia… A realidade brasileira diária, destes 90 anos de NecroPolítica, se repetem eventualmente pelo Planeta. Beirute teve 1 dia de Brasil.

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