O dia em que Pepe Escobar descobriu o Brasil, por Rogério Mattos

A entrada de Pepe Escobar na cena brasileira marca o extremo calor dos debates que têm sido feitos desde que a esquerda se encontrou derrotada de forma tão vil por seus adversários políticos.

O dia em que Pepe Escobar descobriu o Brasil, por Rogério Mattos

Acredito que possa ser feita uma distinção entre progresso e desenvolvimento. A primeira palavra muitas vezes ilustra um estado de coisas relativas a uma história de tipo monumental, ou seja, de grandes feitos, mas cujos efeitos sociais são nulos ou negativos. O próprio ideal de progresso, da época das Luzes até o amplo processo de industrialização e urbanização a partir do século XIX, parece ter virada um monumento da história.

Os signos do progresso são as grandes obras do governo militar, a escolha daquele tipo extremamente seletivo de nacionalismo por nichos bem específicos para se fazer investimento industrial. Em resumo, tudo aquilo que acabou por ganhar o portentoso nome de “milagre econômico”. Curiosamente, os EUA das últimas décadas, e de forma ainda mais visível atualmente, parece ter optado pelo progresso. Ao lado de indústrias de altíssimo valor agregado, como as que orbitam em torno do Vale do Silício, não possuem a dinâmica suficiente para se ramificarem socialmente e espalharem os benefícios menos da divisão de riquezas do que de sua multiplicação. Assim como a ditadura militar brasileira, os norte-americanos mantém uma aparência de modernidade a partir de duvidosos signos vistos como de Progresso.

A entrada de Pepe Escobar na cena brasileira marca o extremo calor dos debates que têm sido feitos desde que a esquerda se encontrou derrotada de forma tão vil por seus adversários políticos. É um sinal de desenvolvimento nacional como um todo, e dos debates sobre o Brasil em particular, e não um oco monumento aos progressos de uma suposta esquerda progressista. Afinal, nos últimos anos não adiantava mais ficar remexendo somente com os pesadelos nacionais. Explicações relativas ao que estava acontecendo no mundo cada vez eram mais necessárias. Igualmente ao que ocorreu pós-64, lançou-se o lema “O golpe nasceu em Washington”. Pepe, você é um daqueles que pode nos ajudar! Esse foi o grito.

E ele sempre foi de uma honestidade intelectual à toda prova e prudente com relação a assuntos brasileiros. Numa entrevista bem interessante no canal TV Democracia, com Fabio Pannunzio e Florestan Fernandes Jr., ele pôde contar um pouco de sua trajetória como jornalista, como saiu da exótica posição (naqueles anos 1990) de correspondente da Folha na Ásia para integrar o recém-lançado projeto do Asian Times. Conseguiu acompanhar de perto, no Oriente Médio, todo o conflito ocorrido a partir do 11/09 e, antes da pandemia, estava envolto em um mega projeto de acompanhamento (um relato de viagens clássico em pleno século XXI) das novas Rotas da Seda.

Por um motivo qualquer do destino, talvez por ter se envolvido mais do que de costume com os assuntos brasileiros ao participar de longas entrevistas semanais (às vezes mais de uma por semana) com diferentes canais brasileiros durante a quarentena, ele resolveu escrever uma crônica exclusivamente sobre o Brasil, algo até então inédito em sua carreira. E quem me lê até agora provavelmente sabe do que estou falando, isto é, sobre sua crônica a respeito do caso Banestado.

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Pepe deve ter pelo menos o dobro da minha idade. Contudo, pude acompanhar esse caso de perto desde que passei a ler os blogs sujos em seus primórdios, com Luís Nassif, Paulo Henrique Amorim, Azenha, Altamiro Borges, entre tantos. Isso deve ter sido lá pelos anos de 2006-7. Sempre foi feita uma ampla cobertura sobre os desmandos tucanos, de maneira muito aguda pelo querido PHA, que morreu falando que Serra era o homem mais rico do Brasil… Daniel Dantas, um dos donos do Brasil, empoderado por FHC e Gilmar Mendes, não teve vida fácil nos tempos áureos do Conversa Afiada.

A história das contas cc-5 é bem antiga. Acredito que não caiba nem mais no modelo jornalismo de denúncia. Não nego que para o jornalismo investigativo tem ampla margem para trabalho. Mas é uma história tão longa, que remonta a um dos primeiros atos da ditadura quando se consolidou de vez após o AI-5, quando foram criadas as tais contas (1969). Deve ser lembrado que a criação desse mecanismo para a evasão de divisas ou para a comodidade dos investimentos estrangeiros no país é o ato institucional que colocou na lata do lixo da história a reivindicação das Reformas de Base pelo controle da remessa de lucros e capitas para o estrangeiro. A criação das cc-5 ainda pelos governos militares foi uma espécie de nova abertura dos portos para as nações amigas.

Existe então o filão investigativa-jornalístico e um filão ainda a ser explorado, de cunho historiográfico. O livre curso de capitais estrangeiros no país irá atingir o paroxismo com a formação do mundo unipolar do pós Guerra Fria e o subterfúgio criado pelo governo FHC é mais um dos capítulos infames dessa história. Sua bibliografia é farta. Para ficar em apenas dois livros, o best-seller de Amaury Ribeiro Jr., “A privataria Tucana”, e o de Rubens Valente, “Operação Banqueiro”.

É curioso que Pepe queira traçar a rota do dinheiro que saiu do Brasil até as zonas de plantação de ópio no Afeganistão protegidas pela OTAN, mas sem se dar ao luxo de sequer procurar saber quem é e foi Daniel Dantas, que continua operando no Brasil através do setor imobiliário e na aquisição de grandes quantidades de terras norte do Brasil (Através do City Bank), também para fins especulativos, e ainda sofrendo (até o golpe pelo menos) processos e investigações sobre trabalho escravo em suas propriedades. Seu avalista, segundo Rubens Valente, foi Gilmar Mendes…

Sem querer entrar no mérito jornalístico do Duplo Expresso ou como expectador bem distante de sua produção (ou seja, que não pode emitir juízo de valor mais contundente – talvez infelizmente…), seria uma tarefa hercúlea acompanhar a produção deles pelo simples fato de que deve-se ter uma quantidade imensa de tempo disponível para assistir a vídeos incrivelmente longos. Quando você procura no site uma matéria jornalística clássica, minimamente sólida, com todo o conjunto de informações recolhidas no exaustivo trabalho que fazem, dá vontade de ver algum vídeo! O site é extremamente dispersivo e parece não conseguir produzir algo sólido o suficiente em termos de texto para ser minimamente replicado. Isso foi algo que Pepe Escobar fez para eles agora…

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E o que acaba por sair dali além de velhas verdades que escondem um tanto de outras verdades amplamente conhecidas pelo público que viveu essas histórias? Uma imputação de responsabilidade a Lula! Nada contra, mas a resposta é evidente para quem acompanhou seu primeiro governo. Se acusam Dilma de ter sido neoliberal quando estava sendo atacada por todos os lados a partir de 2013-4, Lula talvez tenha sido neoliberal ao quadrado em seus primeiros anos na presidência, com altíssimos superávits primários, Meirelles (de cabo a rabo dos mandatos) e a manutenção do tripé do FMI/Plano Real.

Lula tinha um objetivo claro: dar de comer aos brasileiros. Quando esta meta começou a ficar bem encaminhada, lançou o mega projeto de obras públicas, o PAC, e desde o início fez de tudo para reativar a Petrobrás. Nunca foi seu objetivo atacar de frente a casta neoliberal. O mandato tem tempo curto, as oscilações da opinião pública são muito rápidas e os ataques da mídia violentos demais a cada hora do dia. Somente com Dilma se iniciou um processo que poderia ter amadurecido no segundo mandato, o de enfrentamento do sistema bancário privado e o da regulação da mídia, entre outros. Mas, para se chegar a esse ponto, antes atingimos o pleno emprego e saímos do mapa da fome da ONU. Só com o crescente apoio popular um governo nacional soberano consegue atacar de forma mais frontal as políticas neoliberais. E foi exatamente nesse ponto que as elites brasileiras passaram a apostar no tudo ou nada. Provisoriamente ganharam o jogo e se sustentam hoje da maneira precária através de seu fantoche Capetão e sua claque de militares e outros personagens duvidosos.

Lula nunca quis atacar de frente, ainda mais em seus primeiros anos, os inúmeros crimes cometidos pelos tucanos ou pelo “alto clero” parlamentar. Isso foi uma política inúmeras vezes explicitada por ele. Até porque, em suas palavras, não queria utilizar dos mesmos métodos policialescos que sempre foram usados contra ele e seu partido.

Como se vê, a problemática brasileira não é nem um pouco fácil e dificilmente um suposto vazamento poderá ser o fio de Ariadne que nos levará de volta à terra dos bem-aventurados. Assim como o documento que o Duplo Expresso divulgou ruidosamente nas redes tempos atrás estava muito aquém do suficiente para frear os arbítrios do consórcio Globo/Judiciário. Ainda sigo com Paulo Henrique Amorim: sem se falar nos nomes de Daniel Dantas (que ainda está em plena atividade), no alto tucanato e nas suas ramificações no governo Temer e Bolsonaro, como também agora na nefasta figura de Jorge Paulo Lemann, nenhum documento por si será capaz de verdade.

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Espero que Pepe, com o tempo, consiga compreender melhor a história recente do país (se possível, da segunda metade do século XX para cá, no mínimo), e se inteire das investigações feitas recentemente, com amplo acervo comprobatório, como faz (entre tantos), o Jornal GGN e o Diário do Centro do Mundo. Com certeza, existe muito mais coisas para se fazer. Mas, visto daqui do Brasil por alguém que mesmo novo acompanhou a maior parte desta e de tantas outras histórias, a pergunta chave do artigo de Pepe parece uma mera peça retórica. Que ele se inteire de nossa história recente e consiga fazer todas as difíceis conexões com a história que ele viveu no Oriente.

Não sei por qual motivo através dessa longa história recuperada da privataria e da rapinagem tucana e de seus congêneres, sequer se menciona a história do delegado Paulo Lacerda. Homem justo e cuja demissão sem a devida reposição na mesma altura (em momento algum se pensou mais em recuperar esse centro sólido de poder) é um dos pontos centrais da anarquia que as forças policiais e judiciárias caíram nos anos subsequentes [aqui]. Além do mais, Pepe, ao fazer a pergunta retórica a Lula, acaba por falar o que o próprio Duplo Expresso não tem coragem. Quase ninguém tem valor para eles além do próprio Lula. Mas a fúria é tão grande que a gente se pergunta por qual motivo Lula é poupado. Digo por questões de coerência, no mínimo. E o articulista semi-estrangeiro acaba por falar o que seus recém-amigos não podem falar com o risco de perderem o resto de credibilidade que porventura lhe sobram.

 

No mais, o programa costuma apresentar alguns bons convidados. Mas, como dito, sua forma e seu enfoque parecem por vezes colocar tudo a perder (desde o tempo incrível dos vídeos aos textos não esclarecedores, para dizer o mínimo). Espero que Pepe consiga, como tem feito, dar a volta pelo mundo, e retornar com uma história mais sólida a respeito da realidade nacional e não se chamusque com “fatos diversos” quaisquer. Por favor!

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