O início da decadência do ex-presidente colombiano Álvaro Uribe, por Camila Koenigstein

Uribe é fruto de décadas de violência e de um emaranhado de histórias que parecem uma novela sem fim.

O início da decadência do ex-presidente colombiano Álvaro Uribe

por Camila Koenigstein

»En Colombia la pregunta es: ¿Quién nos va a matar?, ¿Los guerrilleros, los paramilitares, los narcos o los políticos?

Jaime Garzón, assassinado em 13 de agosto de 1999.

Em 4 de agosto foi decretada a prisão domiciliar de Álvaro Uribe Vélez, o ex-presidente que mudou os rumos da Colômbia e hoje é considerado, para o bem ou mal, o maior político da história do país. Todavia não sabemos se chegou ao fim o uribismo ou se a prisão vai gerar um culto (como ocorre no continente) ao ex-mandatário.

Uribe é fruto de décadas de violência e de um emaranhado de histórias que parecem uma novela sem fim.

Em 1983, Alberto Uribe Sierra, pai de Álvaro, foi assassinado dentro de casa. Segundo diversas testemunhas, foram as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) responsáveis pela morte de Uribe Sierra. Até hoje a organização não reconhece nenhum envolvimento com o caso. Fato é que a morte do patriarca comprometeu as finanças do clã Uribe – ele tinha deixado dívidas, o que gerou revolta na família com as guerrilhas já estabelecidas do país.

Ainda jovem, Álvaro Uribe cursou direito em uma universidade de elite na Colômbia, e em seguida se especializou na Harvard. Saiu da instituição com o título de administração, gerência e negociação de conflitos.

Para muitos as práticas truculentas de Uribe no âmbito social se originaram da morte do pai, para outros essa foi somente uma desculpa para pôr em prática seu desejo de exterminar não só o conflito iniciado décadas antes entre guerrilhas, narcos e paramilitares, mas eliminar qualquer vestígio da esquerda no país. A única certeza é que a gestão do ex-presidente foi marcada pela violência.

Sua carreira política começou como prefeito de Medellín (1982/86), e posteriormente ele foi governador do departamento de Antioquia (1995/97), sempre defendendo uma política de mãos duras contra todas as partes envolvidas no conflito: paramilitares, narcotraficantes, guerrilheiros e os diversos grupos de paramilitares. As Farc chegaram a oferecer 400 mil dólares a quem o matasse.

Em 2002 Uribe ganhou as eleições de forma independente, sem estar vinculado a nenhum partido, com a promessa de combater com força o que denominou grupos rebeldes, tanto de esquerda e direita, instituindo “cooperativas” de civis com a finalidade de combater a violência no país. As cooperativas de confiança provocaram o rechaço de grupos humanitários que previam a morte de civis e afirmavam que a responsabilidade para solucionar os conflitos deveria ser do governo. A complexidade de tal medida gerou a formação de pistoleiros (homens pagos para matar), e muitos deles terminaram se juntando às guerrilhas.

O conflito extremamente violento fez com que a Colômbia se tornasse o país com o maior êxodo interno – indivíduos obrigados a sair de seu lugar de origem em busca de segurança dentro de um cenário que atingia diretamente os campesinos. Paradoxalmente, as guerrilhas, que surgiram para proteger os homens do campo contra os grupos de autodefesa, também começaram a sequestrar, violar e se envolver com o mundo dos cartéis de drogas.

Leia também:  O infame julgamento de extradição de Assange: audiência de 8 de setembro, por Craig Murray

Com a chegada de Uribe à Presidência houve uma diminuição drástica nos números de mortos e deslocados. O país que até então era dirigido por um “paraestado”, ou seja, um Estado dominado pelos grupos envolvidos no conflito, estava finalmente rumo à normalidade.

A ausência do poder público e de políticas protetivas, que nunca ocorreram na Colômbia, deixou uma massa de indígenas e agricultores dentro de um contexto de terror, uma violência que gerou o assassinato de 94.754 atribuídas aos paramilitares, 35.863 as guerrilhas e 9.804 a agentes do Estado. Torturas, massacres e violações foi a realidade da população colombiana por anos.

Además de la lucha contra las fuerzas guerrilleras de extrema izquierda, los vínculos con el narcotráfico y la radicalización hacia la extrema derecha, los grupos paramilitares comenzaron a relacionarse con otros sectores de la sociedad. Poco a poco, alimentados por la debilidad de las instituciones estatales y la descentralización política y administrativa, estos grupos se fueron infiltrando en las clases políticas, adquiriendo puestos de poder en los Gobiernos locales y regionales y consolidándose como un poder más en el territorio colombiano, apoyado por miembros de las élites del país.

Aparentemente o discurso de Uribe caiu perfeitamente para uma população que somente desejava o fim do conflito entre militares, paramilitares e narcotraficantes, que de certo modo estavam vinculados pelo dinheiro tirado dos campesinos, empresários, políticos e civis, por meio de sequestros, ameaças e corrupção. Essa tríade usufruiu da situação caótica por anos, exemplo: Pablo Emilio Escobar, o maior traficante dos últimos tempos, que sempre esteve ligado com políticos e membro das guerrilhas. A morte de 80% da população civil teve financiamento do narcotráfico.

Com a eleição de Uribe em 2002, surgiu algo de esperança para os cidadãos cansados da ausência estatal.

O discurso de “neutralidade” contra qualquer tipo de violência foi o que fez dele um dos presidentes mais queridos do país. No entanto, passados os anos e com sua reeleição em 2006, quando formou o Partido Centro Democrático, chapa do atual presidente Ivan Duque, começou a aparecer denúncias, entre elas a que possibilitou sua prisão neste momento.

Uribe e o envolvimento com os paramilitares

Em 2014, durante um debate no Congresso, o senador da ala esquerda Iván Cepeda acusou Álvaro Uribe de estar envolvido com grupos paramilitares, inclusive na formação de algumas agrupações. Cepeda apresentou diversas testemunhas, mostrando que sua acusação não era equivocada. Uribe negou e decidiu processar o político na Corte Suprema, pedindo uma investigação detalhada sobre a possível compra e manipulação de testemunhas, e solicitou uma investigação minuciosa.

Durante a averiguação, que durou anos, Cepeda foi inocentado, em seguida abriu um processo contra o ex-presidente.

A investigação se concentra nesta fase em determinar se pessoas ligadas a ele, como seus advogados, e com seu consentimento, deram dinheiro e ofereceram benefícios judiciais a ex-paramilitares para que se retratassem. A denúncia original de um paramilitar aponta que um grupo das autodefesas foi criado em uma antiga propriedade da família Uribe. Tratava-se dos 12 Apóstolos, que, entre ameaças à população, conivência com as forças de segurança, retenções e um relacionamento estreito com Santiago Uribe, irmão do ex-presidente, operavam de acordo com um grupo de testemunhas em uma fazenda da família.

Leia também:  O erro de Freixo, por Aldo Fornazieri

Essa não é a primeira vez que o ex-presidente é acusado de práticas ilícitas. Há uma lista com 276 processos que envolvem seu nome, entre eles o massacre La Granja y el Aro em Antioquia.

Aconteceu em 22 de outubro de 1977, quando as autodefensas começaram a se consolidar em Antioquia. Aproximadamente 150 paramilitares, chamados “Mochacabezas” chegaram ao corregimento El Aro, de Ituango e assassinaram 17 pessoas. Tomaram controle do território por 17 dias, torturando publicamente suas victimas. Uma foi atada durante todo o dia em um árvore, tiraram seus olhos e coração, como consta no Centro nacional de Memória Histórica […] Durante o massacre, a Força Pública nunca apareceu para combater as Autodefensas, tampouco algum representante do Governo de Antioquia, que nesse momento era liderada por Álvaro Uribe Vélez.

Nesse contexto começaram a surgir os casos e denúncias sobre os chamados falsos positivos, prática que consistia na execução de civis por agentes estatais com a alegação de que as vítimas eram guerrilheiros, grupos armados ilegais.

Como se sabe, han sido miles los colombianos que han sido asesinados por agentes estatales y los han hecho pasar por miembros de grupos armados ilegales. Hace poco más de una semana, el diario The New York Times reveló cómo en el Ejército colombiano había documentos que comprobaban que a los comandantes de brigadas y regiones se les ordenaba aumentar los resultados en capturas y bajas de miembros de grupos armados organizados. A cambio, se daban una serie de gratificaciones. Como se sabe, una orden similar en el gobierno de Álvaro Uribe Vélez (2002-2006 y 2006-2010) llevó a que poco más de 4.000 colombianos civiles fueran asesinados por agentes de las fuerzas de seguridad del Estado y los presentaron como miembros, en su mayoría, de grupos guerrilleros.

Além do possível vínculo da família com o narcotráfico.

O problema do campo

Como em boa parte do continente, os conflitos agrários são pouco discutidos, sempre postos de lado, embora a maioria dos problemas esteja exatamente nas mortes de indivíduos que vivem em regiões de pouca visibilidade, os mais vulneráveis, e na indiferença a eles.

Muito antes de Uribe e todo o contexto de desumanidade instalado na sociedade colombiana, a questão do campo determinou um período conhecido como La violencia (1925-1958), que desencadeou uma espécie de guerra civil. O conflito causou entre 113 mil e 300 mil mortos e o êxodo dos campesinos rumo às zonas urbanas em busca de proteção. Quase 11 milhões de habitantes se deslocaram. Segundo Camilo Torres: “Como nos tempos feudais, os campesinos buscaram a cidade como lugar de segurança”. Ainda que haja ocorrido fenômenos na cidade, o período de la violencia foi integralmente rural, marcado pelo conflito entre o partido liberal e conservador, entre grandes latifundiários e campesinos que produziam agricultura de subsistência. Nas palavras de Eric Hobsbawn:

Leia também:  A Crise Indiana, por Ronaldo Bicalho

Em todos os países da América Latina se encontram fundamentalmente dois tipos de zonas agrícolas: a agricultura de subsistência, atrasada, que se encontra fora e marginalizada das atividades econômicas, e as de produção de mercado, que em parte alimentam as cidades em rápido crescimento, mas na maioria alimentam o mercado mundial, uma produção sistemática.

Nesse período surgem os grupos de autodefesa, profundamente conservadores, buscando proteger a propriedade privada, e também ocorre a formação de um pequeno grupo de guerrilheiros de orientação guevarista. Em 1964, 48 campesinos fundam o Programa Agrário Guerrilheiro, que viria a ser as Farc, ou seja, a ponta do iceberg, de um problema que envolveu todo um país, deixando marcas até os dias de hoje.

A história é longa e merece uma matéria focada somente nesse período, mas é importante salientar que não há igualdade sem a proteção das comunidades indígenas e campesinos, que são os responsáveis pelo cuidado do meio ambiente como pelo cultivo de alimentos. No entanto, são exterminados nesse continente, vide o que Jair Messias está fazendo no Brasil.

Neste momento a Colômbia atravessa um momento extremamente conturbado com o governo liberal do presidente Ivan Duque, uma espécie de marionete de Uribe, com mortes de líderes sociais – só neste ano, 184 pessoas foram assassinadas, violações de menores em mãos de militares e paramilitares, e o aproveitamento da pandemia para todas as barbáries cometidas.

O Acordo de Paz entre Estado e guerrilhas, realizado há alguns anos, parece que está perdendo a concretude, pois nunca foi realmente reconhecido pelas forças escuras que governam o país. Como bem disse Camilo Torres, a população segue sofrendo e com medo dos senhores feudais que ainda dominam não só Colômbia, mas o continente.

Camila Koenigstein. Graduada em História, pela Pontifícia Universidade Católica – SP e pós graduada em Sociopsicologia pela Fundação de Sociologia e Política – SP. Atualmente faz Mestrado em Ciências Sociais, com ênfase em América Latina y Caribe pela Universidade de Buenos Aires (UBA).

El expresidente Álvaro Uribe, registrado como preso en el sistema penitenciario colombiano

https:https://pacifista.tv/notas/historia-y-testimonios-de-las-masacres-que-salpican-a-alvaro-uribe///www1.folha.uol.com.br/folha/mundo/ult94u41771.shtml

htthttps://elpais.com/internacional/2019/05/28/colombia/1559060232_419756.

htmlps://www.bbc.com/mundo/noticias-america-latina-48536482

Los paramilitares colombianos, enemigos de la guerrilla

https://www.nodal.am/category/suramerica/colombia/

Hobsbawn, Eric. Viva la Revolución.Ciudad Autónoma de Buenos Aires: Crítica, 2018.

 

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor.

Assine e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Assine agora

1 comentário

  1. Não há país que não tenha instabilidade política, crise de Estado – investindo num discurso de violência – e combate com grupos paramilitares/ terroristas ou narcotráfico – que não tenha os Estados Unidos. E até infiltração de funcionários e ex-funcionários de serviços de “segurança e inteligência”. Colômbia, Panamá, Afeganistão e até mesmo o México.
    O Brasil será – ou é? – o próximo.

Deixe uma mensagem

Por favor digite seu comentário
Por favor digite seu nome