O “novo normal” é esquecer os nomes por trás dos números da Covid-19, por Mariana Lima

Enquanto shoppings e bares reabrem, número de mortos pela Covid-19 continua crescendo no país e já ultrapassa os 100 mil. Para quem observa a tragédia, sensação é de que vidas perdidas passaram a ser vistas apenas como números

Foto: Foto: Marcio James | Semcom | Via Fotos Públicas

do Observatório do 3º Setor

O “novo normal” é esquecer os nomes por trás dos números da Covid-19

por Mariana Lima

No dia 8 de agosto de 2020, o Brasil chegou à marca de 100 mil mortos pela Covid-19, enquanto diversas cidades promovem a reabertura de shoppings, bares e outros estabelecimentos comerciais. A reabertura das escolas também já está começando.

Se o país decretasse um minuto de silêncio por cada uma das vítimas do SARS-CoV2, vírus causador da Covid-19, os brasileiros passariam 70 dias sem poder dizer uma palavra.

A flexibilização que vem ocorrendo traz uma falsa sensação de normalidade, e o discurso do ‘novo normal’ parece adormecer o significado das mil mortes diárias e dos 105,6 mil óbitos confirmados, até o momento, pelo levantamento do consórcio de veículos de imprensa, com base em dados das secretarias estaduais de Saúde.

Talvez seja difícil dimensionar o tamanho da tragédia quando ela está distante, mas histórias como a de Carla Vitória, 21, infectada pelo novo coronavírus enquanto estava grávida de gêmeos e que acabou perdendo um dos bebês, e a do casal Anníbal Amaral, 54, e Divia Amaral, 40, vítimas fatais da Covid-19 que deixaram quatro filhos, continuam ocorrendo.

“Ele era um poeta do sertão”

José Maria dos Santos, 76, era casado e tinha um filho. Natural de Alagoas, seu sonho era conseguir ter a própria casa na terra em que nasceu. Aposentado desde 1987 da fábrica em que trabalhava, continuava fazendo bicos. Não sabia ficar parado.

Ele era um poeta do sertão. Era uma pessoa muito amorosa, que prezava as amizades. Aqui em casa, ele tinha o hábito de rezar o terço, pegar o radinho dele para ouvir Luiz Gonzaga ou pegar uma gaita e ficar tocando”, conta o padre Flávio José dos Santos, 43, vigário da Catedral Nossa Senhora do Carmo de Santo André (SP) e filho de José Maria.

Padre Flávio José (dir.) com o pai, José Maria | Foto: Arquivo Pessoal

É desta forma que se lembra do pai, que há dois meses morreu vítima da Covid-19. “Tínhamos uma relação boa, bem próxima. Ele viajava bastante. Ficava uma temporada em Alagoas e outra por aqui [em São Paulo]. Mas sempre buscava estar presente nos momentos importantes”, comenta.

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Antes do primeiro caso ser confirmado no país, José Maria viajou para Alagoas e ficou no estado até maio, quando conseguiu uma passagem de volta para São Paulo.

No início de junho, apesar de não ter histórico de problemas de saúde, começou a apresentar uma leve coriza e calafrios. Depois de muita insistência do filho, ele foi ao médico.

“Ele já ficou internado com o diagnóstico de Covid. Estava com 60% do pulmão comprometido por uma infecção. E apesar de tratar isso, parece que o vírus corre pelo sangue também, e ele precisou passar por hemodiálise. Uma semana depois de ser internado, ele faleceu”.

Flávio e a mãe não conseguiram visitá-lo antes disso, recebendo as informações do quadro clínico por telefone. Sem velório, José Maria foi enterrado no final da tarde do mesmo dia em que morreu.

“Ele me deixou a lição de lutar pelos meus sonhos, por aquilo que te completa. Aquela casinha em Alagoas, que lutou para conseguir, é simples. Mas era o que ele queria, uma casa e um terreno para plantar. Isso bastava”.

Lembranças da infância, das conversas e da presença do pai fazem parte do dia a dia de Flávio. “Memórias de quando eu era criança e ele contava histórias, me ensinava a andar de bicicleta. Nossa conversa quando eu quis ir para o seminário. Sempre voltam com carinho”, revela.

Na hora de definir o pai, Flávio tem uma imagem clara na mente: “Meu pai era um homem de um sonho muito extraordinário, que o fazia voar, que o fazia buscar aquilo que o inspirava”.

“Vejo as pessoas mais tranquilas, mas eu não consigo”

Stephanie Ágata Martins Pinheiro, 25, é enfermeira em um hospital de Porto Alegre (RS). Desde que o novo coronavírus chegou ao país, ela viu sua rotina virar do avesso como profissional da saúde e cidadã.

Apesar de o hospital em que trabalha ser de baixa complexidade, no início da crise sanitária houve uma explosão de casos entre os profissionais do local.

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“Chegou um momento em que eram mais de 70 funcionários infectados. Os que não estavam tiveram uma sobrecarga muito grande de trabalho. Tinha turnos de 18 horas seguidas”, relembra.

Foi neste cenário que o medo começou. O medo de contaminar um paciente saudável. De ser contaminada. Ou de levar o vírus para casa.

Stephanie não visita familiares ou amigos desde o início da pandemia. A única pessoa com quem convive, fora do ambiente hospitalar, é o marido.

Ele é o responsável por fazer as compras e cuidar das necessidades básicas da casa. Fora do hospital, a única atividade externa que Stephanie faz é uma caminhada pelo bairro em que reside.

“Passei a ter dores no corpo, dificuldades para comer, crises de pânico e paralisia do sono. Tinha dias em que não conseguia levantar. E agora tem o preconceito contra os profissionais da saúde. No meu prédio, por exemplo, cogitaram a possibilidade de não deixar quem trabalha na saúde usar o elevador social. Num mês são palmas e nos outros, ataques”, comenta.

Todo esse cenário levou Stephanie a desabafar no Twitter após sair de um plantão de 18 horas e encontrar pessoas aglomeradas numa praça, enquanto tomavam chimarrão.

A enfermeira Stephanie Ágata com alguns do EPIs (Equipamentos de Proteção Individual) que precisa usar para trabalhar. | Foto: Arquivo pessoal

“Aquilo despertou uma ira. Minha vida e de diversos pacientes estavam em risco diariamente, e ver pessoas na rua que não davam a mínima me revoltou muito”, conta.

Nas últimas semanas, Stephanie tem observado uma banalização em relação às mortes e ao perigo da Covid-19.

“Não veem mais como vidas, mas como números. Naturalizou muito a questão do tratamento. A pessoa se acostuma com essa tragédia diária. Pensam: ‘ontem foi pior, eram mil. Agora são só 800’”, pondera.

O fato de continuar cumprindo o isolamento a faz se sentir sozinha em uma atitude que deveria ser nacional.

“Eu olho da minha janela para a rua e vejo as pessoas sem máscara se reunindo. Abrir os shoppings não é um aval para que as coisas retornem. Não estamos no momento de retornar. As emergências estão lotadas. As UTIs continuam lotadas”, desabafa.

Stephanie aponta que as pessoas estão cansadas de ficarem isoladas, mas que não devem naturalizar a questão de furar a quarentena, como se fosse uma travessura de criança.

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“Eles ainda não conseguem entender que é uma forma de banalização, mesmo se não for intencional. Não é o momento de agir assim. Não há perspectiva de melhora”, explica.

O fenômeno da banalização pela paisagem

Para o sociólogo Fábio Gomes, CEO da Bateiah Estratégia e Reputação, a banalização que vem sendo observada agora é resultado da naturalização do cenário, como se fosse algo presente na paisagem.

“Falta a sensibilidade de olhar esse número de mortos. Os que dão mais importância são os que perderam, que tiveram problemas ou se recuperaram. Quem vê de perto tem um respeito maior. Quem não convive acaba perdendo o medo, acha que não vai pegar”, argumenta.

Ele ressalta que o distanciamento com a realidade da tragédia causada pela Covid-19 acaba promovendo um apoio à reabertura e uma busca pelo ‘novo normal’.

As histórias não sensibilizam. O ‘novo normal’, que antes se referia à mudança no comportamento, acabou virando o costume com a estatística. Enquanto não alcançar uma pessoa próxima, se torna algo banal”, aponta.

O sociólogo ainda pondera sobre o impacto da falta de uma liderança nacional na forma como o Brasil vem respondendo à crise sanitária.

“O fenômeno da banalização pela paisagem é acrescido pela ausência de uma liderança nacional que não dramatize ou minimize o tema, que coloque como deveria ser abordado. Com um líder nacional que fala em ‘gripezinha’ e cloroquina sem base científica, fica difícil ter um cenário diferente. Não sei quando essa curva vai diminuir”.

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