Quase 60% dos brasileiros são favoráveis ao aborto em caso de estupro

Foto: Agência Brasil

Jornal GGN – Uma pesquisa feita em 12 regiões metropolitanas do Brasil mostra que o aborto é apoiado por maiorias em algumas situações. A que reúne maior número de apoiadores é a hipótese de interromper a gestação em caso de estupro. Cerca de 59% dos entrevistados responderam que apoiaram essa medida que é prevista em lei, e pode ser derrubada caso o Congresso aprove, em definitivo, a PEC 181.

A pesqisa também mostrou que 48% apoiam o aborto em caso de a mulher correr risco de morte na gestação e/ou no parto. Outros 41%, quando o feto for diagnosticado com alguma doença grave e incurável, como quando a mulher contrai zika. Os percentuais de apoio caem em relação à gravidez de meninas com até 14 anos grávidas (27%), à falta de condições de criar o bebê (19%) e em caso de uma gravidez não planejada (11%). 

Por Helena Martins
 
Na Agência Brasil
 
Uma pesquisa lançada nesta segunda-feira (4) aponta em quais casos o brasileiro é favorável ao aborto, ao ser confrontado com diferentes situações concretas vivenciadas pelas mulheres. Entre os entrevistados, 81% dos participantes da consulta afirmaram que concordavam com a interrupção em, ao menos, um dessas situações: em caso de uma gravidez não planejada; falta de condições para criar; no caso de meninas com até 14 anos; se o feto for diagnosticado com alguma doença grave ou incurável; se a mulher correr risco de vida ou caso ela tenha ficado grávida após ser vítima de um estupro.
 
Tendo em vista cada uma das situações, o maior índice de apoio à interrupção se dá quando a gravidez resulta de um estupro: 59% dos entrevistados se dizem “totalmente a favor”. Se a mulher correr risco de morte na gestação e/ou no parto, o índice passa para 48%. O número chega a 41% quando o feto for diagnosticado com alguma doença grave e incurável, como quando a mulher contrai zika durante a gestação, comprometendo o desenvolvimento neurológico do bebê.
 
Os percentuais de apoio diminuem nas situações em que se trata de meninas com até 14 anos grávidas (27%); se a família não tiver condições de criar (19%) e em caso de uma gravidez não planejada (11%). O maior índice de rejeição à interrupção é exatamente neste último caso: 66% se dizem “totalmente contra” o aborto quando a gravidez não é planejada.
 
Intitulada “Percepções sobre o aborto no Brasil”, a pesquisa foi realizada pelo Instituto Locomotiva e pela Agência Instituto Patrícia Galvão, em 12 regiões metropolitanas do Brasil, entre os dias 27 de outubro e 6 de novembro. Foram ouvidas 1.600 pessoas, entre homens e mulheres com 16 anos ou mais. O estudo indica que, quando as situações não são explicitadas, a maior parte das pessoas se diz contra o aborto. Questionados sobre “o quanto é a favor ou contra que as mulheres possam decidir por interromper a gravidez”, 62% dos participantes se disseram contrários; 26%, a favor; 10%, nem contra, nem a favor; e 2% não sabiam ou não responderam.
 
Contradições
 
O estudo revela que, entre aqueles que se disseram contrários ao aborto de uma forma geral, 75% são favoráveis a que a mulher possa interromper a gravidez em ao menos uma das situações listadas. A aparente contradição é, na opinião da diretora-executiva da Agência Patrícia Galvão, Jacira Melo, uma consequência da forma como o tema é tratado no Brasil. “Quando você coloca o aborto em determinadas situações muito reais e concretas, você vê que as respostas caminham para o lado da racionalidade, da realidade. A população demonstra mais flexibilidade, um olhar mais atencioso para o problema, que é um problema de saúde pública”, afirma.
 
A pesquisa aponta ainda uma relação entre a opinião sobre o aborto e a escolaridade do entrevistado. O número de pessoas favoráveis à interrupção da gravidez acompanha o crescimento do nível de escolaridade. Entre as que têm o ensino superior completo, 35% disseram ser favoráveis ao aborto. Já o grupo de pessoas que têm até o ensino fundamental completo é o que registra maior índice de rejeição à interrupção da gravidez: 67%.
 
Pessoas conhecidas
 
Um dado inédito trazido pela pesquisa aponta que 45% dos entrevistados conhecem uma mulher que realizou um aborto ou interrompeu a gravidez. Em números absolutos, o percentual corresponde a 72 milhões de brasileiros com mais de 16 anos. Do total, 25% afirmaram que a conhecida que interrompeu uma gravidez é uma pessoa próxima e 16% afirmaram não ser “uma mulher não tão próxima”.
 
Quando analisado o gênero dos entrevistados, a pesquisa conclui que mais mulheres do que homens afirmam conhecer alguém que já realizou um aborto. São 52% no caso das mulheres e 34% no dos homens. “Nós estamos falando exatamente dessa questão: ao pé do ouvido, as pessoas estão falando do tema do aborto, sobretudo as mulheres”, alerta Jacira. Para a diretora da Agência Patrícia Galvão, “se esse tema fosse mais debatido, menos interdito na sociedade, nós teríamos outra posição”.
 
Criminalização
 
A pesquisa também investigou a percepção das pessoas sobre a criminalização da prática do aborto. Questionados se “uma mulher que interrompe a gravidez intencionalmente deveria ir para a cadeia”, 50% concordam e 38% discordam. Porém, quando se trata de alguém próximo como uma amiga que tenha feito aborto, 47% das pessoas não fariam nada e somente 7% chamariam a polícia.
 
A abordagem policial da questão não é considerada a mais apropriada, na opinião da maior parte dos brasileiros. Cerca de 8 em cada 10 entrevistados afirmam que a discussão sobre aborto no Brasil é uma questão de saúde pública ou de direitos, enquanto apenas 1 em cada 10 acreditam que seria um “assunto de polícia”.
 
PEC 181
 
Atualmente em discussão na Câmara dos Deputados, a Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 181/2015, que tratava inicialmente da ampliação da licença-maternidade para mães com bebês prematuros, inclui dispositivos que podem abrir a possibilidade de proibir todas as formas de aborto no país, inclusive nos casos considerados legais atualmente, como o aborto. Inicialmente, o texto tratava somente da ampliação da licença-maternidade para mães com bebês prematuros
 
No Brasil, o aborto é legalmente permitido em três casos: quando não há meio de salvar a vida da mãe, quando a gravidez resulta de estupro e quando o feto é anencéfalo. De acordo com a Pesquisa Nacional do Aborto 2016, feita por pesquisadoras da Universidade de Brasília (UnB), apenas em 2015, 500 mil mulheres realizaram um aborto ilegal. O número pode ser maior, já que muitas pessoas praticam o aborto sozinhas e não comunicam o fato.
 

4 Comentários

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MarFig

- 2017-12-05 14:33:21

Quem tem que ser a favor ou

Quem tem que ser a favor ou contra é a mulher que engravidou, em qualquer situação. Pesquisas idiotas como essa só existem porque o mundo está lotado de hipócritas.

vera lucia venturini

- 2017-12-05 10:44:10

Parabéns. Falou melhor do que

Parabéns. Falou melhor do que eu que sou mulher.

vera lucia venturini

- 2017-12-05 10:39:50

É pouco. Quem sabe o

É pouco. Quem sabe o sofrimento de uma vítima de um estupro que depois é condenada a gerar e criar uma criança filha de um ato de violência?

Os hipócritas que condenam a mulher vítima de violência se esquecem que a criança também será uma vítima. Hipócritas de merda.

Ninguém

- 2017-12-05 10:26:46

ABORTO: QUEM NÃO ENGRAVIDA, NÃO APITA!

Por mim, o aborto deveria ser legal, um direito da mulher. Pura e simplesmente. E, em matéria de aborto, APENAS MULHERES DEVERIAM PODER OPINAR. Homem não engravida. Homem tem muito menos chances de ser estuprado (o atentado violento ao pudor foi revogado pela Lei 12.015/09). Quem sofre física e psiquicamente é a mulher. Enfim, SAPO DE FORA NÃO CHIA. Uma sugestão às mulheres, façam um abaixo-assinado chamando um plebiscito PARA CONSULTAR APENAS MULHERES A RESPEITO DE UMA QUESTÃO QUE DIZ ATINGE DIRETAMENTE APENAS ÀS MULHERES.

Gostaria de saber o resultado de um plebiscito no qual APENAS MULHERES PARTICIPASSEM.

ABORTO: QUEM NÃO ENGRAVIDA, NÃO APITA!

SEMPRE NÃO SE ESQUECENDO DO QUE ESTÁ EM JOGO: REFERENDO REVOGATÓRIO, PRÉ-SAL, DIREITOS SOCIAIS E TRABALHISTAS!

 

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