A morte de Jorge Wilheim, arquiteto projetista do Anhembi

Do Estadão

 
Ele estava internado desde dezembro de 2013 no Hospital Albert Einstein, no Morumbi, depois de sofrer um acidente de carro
 
SÃO PAULO – Morreu na madrugada desta sexta-feira, 14, o arquiteto e urbanista Jorge Wilheim, de 85 anos. Ele estava internado desde dezembro do ano passado no Hospital Albert Einstein, no Morumbi, zona sul de São Paulo, após ter sofrido um acidente de carro. O corpo está sendo velado no próprio hospital e o enterro acontecerá às 14h30 no Cemitério Israelita do Butantã.

Jorge Wilheim nasceu em Triste, na Itália, em 1928. De família de origem húngara, migrou para o Brasil em 1940. Logo depois de formado, em 1952, pela Universidade Presbiteriana Mackenzie, projetou, na capital paulista, o Parque Anhembi, o Hospital Albert Einstein e o Clube Hebraica, entre outros projetos renomados, como a revitalização do Pátio do Colégio e o Vale do Anhangabaú.

Também concebeu, em 1954, o projeto urbanístico da cidade de Angélica (MT), para 15 mil habitantes. Participou também, em 1957, concurso do ante-projeto de Plano Diretor de Brasília. Criou, entre diversas obras no Brasil, a Cidade Industrial de Londrina, no Paraná, em 1997.

Além da arquitetura, teve uma intensa vida pública como secretário estadual de Economia e Planejamento de São Paulo (1975-1979), secretário municipal de Planejamento paulistano (1983-1986 e 2001-2004), secretário Estadual de Meio Ambiente (1987-1991) e presidente da Empresa Metropolitana de Planejamento de Grande São Paulo (1991-1994). Assumiu, ainda, a presidência da Fundação Bienal de São Paulo, em 1985.

Duas das suas principais marcas no Governo do Estado de São Paulo foram a criação do Procon e do “Passe do Trabalhador”, hoje conhecido como Vale Transporte.

É também autor dos livros “São Paulo Metrópole 65” (1968), “O Substantivo e o Adjetivo” (1976), “Tênue Esperança no Vasto Caos: Questões do Proto-Renascimento do Século 21” (2001) e “A Obra Pública de Jorge Wilheim” (2003).

 

5 comentários

  1. Cabe aqui o registro de que

    Cabe aqui o registro de que Jorge Wilhelm, quando Secretário de Planejamento do Estado de São Paulo, no Governo Paulo Egydio, foi acusado pelo General Sylvio Frota – que havia sido demitido por Geisel, em outubro de 1977, por articular um golpe da ala mais reacionária do regime militar – de ser um dos comunistas ‘infiltrados’ em instituições governamentais. (a lista elaborada pelo então Centro de Informações do Exército, e divulgada pelo alucinado Frota continha 97 nomes, que aliás tinha o apoio de muita gente no meio civil que ainda está por aí no seu intento de retrocesso).

    Cabe também o registro de que o Governador Paulo Egydio contestou o General Frota na época e manteve Wilhelm como Secretário.

    A propósito, Dilma Roussef, então na Fundação de Economia e Estatística da Secretaria de Planejamento do Estado do Rio Grande do Sul, também estava na lista dos 97 comunistas do Frota e foi demitida com outros funcionários da FEE por isto.

  2. Grande perda!

    Abaixo, outra biografia com mais detalhes da sua carreira.

    Biografia
    Jorge Wilheim (Trieste, Itália 1928). Urbanista, arquiteto, administrador público, político e ensaísta. Forma-se, em 1952, pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Vence, nesse ano, concurso fechado para a elaboração do projeto hospitalar da Santa Casa de Jaú, então abre escritório próprio para desenvolvê-lo. Depois é convidado a projetar em Mato Grosso duas clínicas em Campo Grande e, em 1954, a conceber o projeto urbanístico da cidade de Angélica, para 15 mil habitantes, atualmente as duas cidades localizadas no estado do Mato Grosso do Sul. Em 1957, participa do concurso para a realização do ante-projeto de plano diretor de Brasília, com Maurício Segall, Pedro Paulo Poppovic, Péricles do Amaral Botelho, Riolando Silveira, José Meiches, Rosa Kliass, Arnaldo Tonissi, Odiléia Helena Setti e Alfredo Gomes Carneiro. Cinco anos mais tarde, associado a Carlos Millan (1927-1964) e Maurício Tuck Schneider, vence o concurso para a construção do Edifício Jockey Club de São Paulo, no Largo do Ouvidor.

    A partir de meados da década seguinte, realiza inúmeros planos diretores para cidades em desenvolvimento, como Curitiba, Paraná, e Joinville, Santa Catarina, em 1965; Osasco, São Paulo, em 1966; Natal, Rio Grande do Norte, em 1967; e Goiânia, Goiás 1968, e lança também seu primeiro livro: São Paulo Metrópole 65. Concebe e coordena, em 1969, o projeto do Parque Anhembi, em São Paulo, cujas instalações incluem o Pavilhão de Exposições, o Palácio das Convenções e um hotel. Elabora a convite da Empresa Municipal de Urbanização (Emurb), o projeto de reurbanização do Pátio do Colégio, em 1974. No ano seguinte, ingressa na vida pública como secretário estadual de Economia e Planejamento, na gestão Paulo Egydio Martins, entre 1975 e 1979. Em 1981, associado a Rosa Kliass e Jamil Kfouri, vence o concurso para a reurbanização do vale do Anhangabaú, construído e inaugurado dez anos mais tarde. No governo Mário Covas, de 1983 a 1986, é o titular da Secretaria Municipal de Planejamento (Sempla), e coordena a elaboração do plano diretor de São Paulo de 1984 (não efetivado). Em 1985, auxiliado por Jonas Birger, projeta o Centro de Diagnósticos do Hospital Albert Einstein, e torna-se, no mesmo ano, presidente da Fundação Bienal de São Paulo.

    No governo Orestes Quércia, de 1987 a 1991, é nomeado secretário estadual do Meio Ambiente e, na administração seguinte, de Luiz Antônio Fleury Filho, entre 1991 e 1994, ocupa a presidência da Empresa Metropolitana de Planejamento da Grande São Paulo (Emplasa). Em 1994, a convite da Organização das Nações Unidas (ONU), muda-se para Nairóbi, no Quênia, e assume o cargo de secretário-geral adjunto da Conferência Mundial Habitat 2, realizada em 1996, em Istambul. Turquia. De volta ao Brasil, retoma projetos de planos diretores para cidades como Campos do Jordão, São Paulo, em 2000, e Araxá, Minas Gerais, em 2002, além de realizar o projeto da cidade industrial de Londrina, Paraná, em 1997. Retorna à vida pública na administração da prefeita Marta Suplicy, entre 2001 a 2004, novamente como presidente da Sempla, e coordena a elaboração do plano diretor estratégico de 2002. Nesse período, publica o livro Tênue Esperança no Vasto Caos: Questões do Proto-Renascimento do Século XXI, em que procura sistematizar sua experiência no campo do urbanismo, lançando perspectivas para o futuro das cidades.

    Comentário Crítico
    Jorge Wilheim é um dos principais urbanistas brasileiros. Com atuação política, que atravessa diversas siglas partidárias, é um expressivo defensor, no Brasil, do chamado “planejamento estratégico”, criado pelos teóricos catalães Manuel Castells (1942) e Jordi Borja (1941). A propósito, é o próprio Castells quem o define, à sua imagem e semelhança, como um “visionário pragmático, sempre interessado nos grandes debates intelectuais, mas também desconfiado da aristocrática alienação de certos teóricos de esquerda”.1

    Tal vocação urbanística começa a se definir precocemente a partir do projeto para Angélica, em 1954, no Mato Grosso: uma cidade nova no meio de uma floresta, entre Campo Grande e Dourados, hoje no atual estado do Mota Grosso do Sul. Com apenas 26 anos de idade, recém-formado arquiteto aplica a doutrina funcionalista de Le Corbusier (1887-1965) e cria uma separação funcional, com zonas comerciais e residenciais que se assemelham às superquadras propostas três anos depois por Lucio Costa (1902-1998)para o Plano Piloto de Brasília.

    No decorrer de sua carreira, Wilheim vai paulatinamente substituindo a cartilha funcionalista dos Congressos Internacionais de Arquitetura Moderna (Ciams), por um contextualismo mais voltado para a dimensão humana e para a unidade tipológica, próprias à uniformidade humanista das cidades europeias do século XV ao XIX. Vem daí a sua defesa teórica de um “Renascimento do século 21”, bem como sua metáfora da essência do espaço público como um simples “banco de praça”.2  No campo projetual, essa orientação pode ser percebida em sua obsessão pela pedestrianização de ruas comerciais, como na proposta para a Nova Augusta, em 1973, que bloqueia a circulação de automóveis em um longo trecho da via, construindo praças escalonadas com degraus, jardineiras e um mobiliário urbano variado. Tal orientação, que também aparece no projeto “Uma árvore quatro vilas”, culmina na proposta para a reurbanização do vale do Anhangabaú, em 1981, e feita em parceria com Jamil Kfouri e a paisagista Rosa Kliass, e vencedora de um concurso nacional. O partido do projeto é a construção de um túnel para o tráfego motorizado, criando na cota do vale uma grande laje para a circulação de pedestres, que ganha o caráter de uma extensa “praça pública”. Contudo, dada a magnitude e relevância da obra para a cidade, o chamado parque Anhangabaú revela aspectos particulares da reflexão urbanística de Wilheim, tal como certa valorização da vida a pé, e uma associação esquemática, já um tanto anacrônica, entre identidade cívica e espaço aberto.

    No campo da arquitetura, Wilheim projeta e constroi obras importantes, como a sede da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e do Serviço Social das Indústrias (Sesi) da Vila Leopoldina, em 1974, a fábrica da Novelprint, 1975, o Centro de Diagnósticos do Hospital Albert Einstein, 1978 – 1985, e, sobretudo, o conjunto do Parque Anhembi, em 1969, em colaboração com Miguel Juliano, no qual se destacam o Palácio das Convenções, abrigando 3,5 mil lugares, e o Pavilhão de Exposições, com uma área de 67 mil metros quadrados. Com a estrutura metálica tubular em treliça espacial, a imensa cobertura é inteiramente montada no chão e erguida por 25 guindastes durante apenas oito horas. Com cálculo do engenheiro anglo-canadense Cedric Marsh, fornecida e montada pela empresa francesa Fichet Schwartz-Hautmont, representa até hoje “a maior estrutura metálica construída no solo e levantada numa só peça em poucas horas.”3

    Notas

    1 Castelles, Manuel. Um renascentista na metrópole em desenvolvimento. In: WILHEIM, Jorge. A obra pública de Jorge Wilheim: 50 anos de contribuição às cidades e à vida urbana. São Paulo: DBA Artes Gráficas, 2003, p. 07.

    2 WILHEIM, Jorge. op. cit., pp. 221-222.

    3 WILHEIM, Jorge. op. cit., p. 63.

    Atualizado em 02/10/2013

  3. Foi Secretario de

    Foi Secretario de Planejamento da Prefeitura de São Paulo na gestão de Marta Suplicy

  4. Lamento muito a perda, ainda

    Lamento muito a perda, ainda mais porque foi por acidente. Trabalhei sob sua chefia na EMPLASA, nos anos 70, depois acompanhei de longe sua bela tragetória, assim como a de Lúcio Gregori, outro urbanista. Mais uma perda para nós. Meus sinceros pesares à sua família.

  5. Um dos ultimos grandes

    Um dos ultimos grandes arquitetos urbanistas, profissão em extinção no Brasil. A arquitetura brasileira entrou faz tempo numa fase de degenerescencia, com arquitetos-decoradores especializados em casas-vogue, todas iguaizinhos, caixotões de concreto, feios de doer. Os conjuntos de habitações popullares são espantosamente feios, sem uma floreira, um sinal de arte ou bom gosto, palitos de cimento com uma caixa dágua em cima, não tem nada, um adereço de

    humanidade, de civilização.As casas da classe alta não ficam atrás, no estilo pavoroso-brasileiro, quadrados de concreto que parecem presidios ou fabricas de parafusos, nenhum sinal de arte ou elegancia, só o cimento duro.

    O fim da arquitetura brasileira ocorre pela falta de cultura, de gosto pela arte, pelo desrespeito à historia. Na minha rua em São Paulo, nos Jardins, de 9 casas , quatro foram compradas e demolidas sem dó ou piedade, no lugar de lindas casas de época aparecem os caixotões de concreto com pisos de garagem subterranea, coisa chocante.

    Jorge Wilhelm era de uma geração em extinção, de arquitetos-urbanistas que pensavam a cidade como alma viva, em interlocução com os moradores. Fez obras emblematicas e de grande utilidade como o Anhembi, seu livro-catalogo, à venda nas boas livrarias, é uma aula de arquitetura. Tive a honra de substitui-lo por pouco tempo na presidencia da EMPLASA, São Paulo perdeu um de seus urbanistas, ao lado de Prestes Maia,  deixando um legado para futuras gerações.

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