Era uma vez um lugar que excluía as crianças, por Raissa Melo

A intolerância com as crianças nos lugares públicos é uma barreira maior que a violência e outros problemas sociais

Foto Ju_Incubus

Era uma vez um lugar que excluía as crianças

por Raissa Melo

A pesquisa “Viver, Brincar e Aprender,” realizada em 2018 pela Rede Criança Hunsol em parceria com o Centro Universitário Internacional (UNINTER), constatou que apenas 4% dos projetos de leis nas capitais brasileiras tratam sobre espaço público e infância. A pedagoga doutora Nilse Silvério, uma das coordenadoras da pesquisa, explica que há muitos projetos voltados para creches, saúde ou até mesmo para criação de instituições de acolhimento, mas quase nada que relacione a criança e a cidade. “Vagas em creches, escolas e hospitais infantis sempre estão entre as principais promessas de vereadores e prefeitos em período eleitoral. Sem dúvidas essas são demandas importantes para nossa população mais jovem, porém é necessários pensar sobre as crianças além das suas necessidades essenciais.” Afirma a pesquisadora. Segundo a pedagoga, a cidade é elemento essencial para o desenvolvimento social e saudável das crianças e também da sociedade. “Se a criança não vivenciar as ruas, as diferenças, conhecer as pessoas, ela não irá assimilar o que é a sociedade e a cidade e, consequentemente, não sentirá pertencimento com o espaço.” Ainda de acordo com a pedagoga, é só a partir do pertencimento que crianças e adolescentes terão real interesse em transformar e se integrar com o espaço, aplicando seus conhecimentos, vivências e exercendo a cidadania.

Rogério Góes, sociólogo e coordenador da pesquisa, explica que a cidade é pensada para o comércio e o trabalho, por isso o espaço das crianças é um espaço privado: “não vemos as crianças pelas ruas, dentro das escolas, dentro dos carros, dentro do espaço destinado para crianças, ou seja, nem os espaços privados são pensados para vivência das crianças”. Afirma o sociólogo. De acordo com Góes, uma sociedade que não convive com suas crianças se torna incompleta, pois é só a partir da convivência com todos os tipos de cidadãos que se constrói uma sociedade pautada na educação, cidadania respeito e tolerância. “O que acontece é que todos querem impor um ritmo de mercado para as crianças, as crianças tem o próprio ritmo” diz o sociólogo.

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Gabriela Nunes, é mãe duas filhas: Thaila, 3 anos e Sula, 4 anos, estudante de artes cênicas e militante de causas sociais, relata que a cidade não é feita para crianças “ Não há praças com parquinhos em todos os bairros nem lugares adequados para crianças, com banheiros, cozinha e etc”. diz Gabriela. A estudante também fala sobre a proibição ou preconceito da sociedade com as crianças “Quando eu chego com as milhas filhas, sempre há olhares negativos, não importa se elas estão comportadas ou não”, afirma.. Outra queixa da mãe é sobre os preços dos espaços de recreação para crianças. “Não há atividades de cultura, lazer e conhecimento e, quando há, não são acessíveis. Mesmo nos shoppings e espaços privados as crianças não são bem vindas. Se minhas filhas não estão nos parquinhos ou no espaço que isolam para elas, não sou bem atendido, funcionários e população me olham com preconceito”, relata Gabriela.

Juliana Teodoro, psicopedagoga explica que a restrição para crianças em espaço públicos  é um discurso de ódio: “o desrespeito com as crianças é não considerá-las como seres humanos. Não conseguiríamos aceitar um discurso ‘livre de seres humanos’, mas aceitamos um discurso  que diz sobre ‘espaço livre de crianças’ porque não as consideremos seremos plenos, com sentimentos, vontades e direitos”, afirma Juliana. Ainda de acordo com a psicopedagoga, esse tipo de discurso e comportamento enfatiza os comportamentos individualistas da sociedade, que só se importa com suas próprias vontades, ignorando a comunidade e a democracia.

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O sociólogo Rogério Goes  afirma que é importante lembrar, ainda, que a tentativa de impedir a presença de pessoas consideradas diferentes em algum espaço é algo com que convivemos constantemente ao longo da História – pessoas negras, mulheres, pessoas com deficiência e que não seguem a heteronormatividade também sofrem com discurso de ódio e restrição ao seu direito de coexistir. “O que está acontecendo com as crianças segue a mesma  lógica, é um comportamento de ódio e exclusão”, diz Góes.

É nesse contexto que as cidades se desenvolvem: excluindo pessoas desde a infância até a vida adulta e esperando que sejam grandes cidadãos no futuro. Só no mundo onírico de quem governa nossas cidades que isso é possível. Na prática, a construção de uma cidadania que ignora a necessidade de construir espaços adequados para as crianças está mais para um conto de fada sem final feliz.

Raissa Melo é jornalista, documentarista, especialista em sociologia política pela Universidade Federal do Paraná e parceira do BrCidades.

 

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