Governo Doria não esclarece se PMs investigados sob suspeita de execução e propina continuam nas ruas

Após reportagem da Ponte e recomendação da Ouvidoria da Polícia de afastar PMs, rotina é mantida no 5º Batalhão da zona norte de SP

Viaturas da Força Tática no estacionamento do 5º Batalhão na zona norte de SP. | Foto: reprodução

da Ponte

Governo Doria não esclarece se PMs investigados sob suspeita de execução e propina continuam nas ruas

por Maria Teresa Cruz

Ponte revelou, em 31 de janeiro, que policiais militares da Força Tática do 5º Batalhão, na Vila Gustavo, na zona norte de São Paulo, são  investigados pela Corregedoria da corporação sob suspeita de simularem um tiroteio para encobrir a execução de um homem em situação de rua, cobrarem propina de uma “biqueira” (ponto de tráfico de drogas) e de terem roubado um fuzil de um criminoso.

Após a reportagem, o então ouvidor da Polícia de SP, Benedito Mariano, que deixou o cargo na última quinta-feira (6/2), recomendou o afastamento dos policiais até a conclusão das investigações por considerar as denúncias “muito graves”.

Contudo, passados mais de dez dias, a gestão de João Doria (PSDB) não atendeu aos pedidos de entrevista feitos pela Ponte e não esclareceu se os militares investigados pela Corregedoria em dois inquéritos estão ou não nas ruas.

A reportagem apurou que os PMs continuam trabalhando normalmente e que o esquema investigado pode ser ainda maior. Por essa razão, a Corregedoria, segundo informou a assessoria de imprensa privada InPress, que atende a Secretaria da Segurança Pública de SP, informou que a pasta “não vai se pronunciar por enquanto”.

Sargento Silas Souza da Silva e cabo Renata Augusta Lima seriam, segundo a denúncia feita à Corregedoria e que é objeto de investigação, articuladores da propina paga por traficantes da biqueira da rua Tenente Sotomano, na zona norte da capital paulista.

Conversas de Whatsapp do dia 23 de janeiro, obtidas pela reportagem, mostram uma suposta conversa entre o policial Silas e um traficante, combinando valores e informando horários de patrulhamento. Em uma das mensagens, cabo Renata é chamada de “Katy Mahoney” (jargão para se referir a uma PM feminina e destemida, em referência a personagem do seriado Dama de Ouro).

Já os cabos Marcus Esperidião Silva Junior e Douglas de Oliveira Santos, e o tenente Diego Reginaldo Pereira também estariam cientes do esquema e teriam participado de uma ocorrência forjada para encobrir a execução de uma pessoa em situação de rua, também investigada pela Corregedoria.

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Em duas oportunidades, nos dias 29/1 e 3/2, a reportagem solicitou entrevista com os citados nas denúncias, mas a assessoria InPress não deu retorno. A reportagem também entrou em contato, por Whatsapp, com os policiais, mas apenas dois responderam: cabo Oliveira disse que a reportagem havia se confundido e ele não era o policial citado nas denúncias; cabo Marcus informou que não iria se pronunciar.

Nesta segunda-feira (10/2), mais uma vez a reportagem solicitou entrevista com o corregedor Coronel Marcelino Fernandes e com o major Paulo Sérgio Pontirolli, comandante do 5º Batalhão da zona norte. A Segurança Pública de SP informou que nenhum dos dois iriam se pronunciar.

Em nota, a Segurança Pública, comandada pelo general João Camilo Pires de Campos, reiterou que um IPM (Inquérito Policial Militar) apura os fatos. “A instituição não compactua com eventuais desvios de conduta e investiga rigorosamente toda e qualquer denúncia contra seus agentes, adotando medidas cabíveis sempre que necessário”, diz trecho da comunicação oficial.

As suspeitas

Em dezembro, a Corregedoria da PM de São Paulo recebeu ao menos quatro e-mails denunciando que policiais da Força Tática do 5º Batalhão da zona norte da capital paulista teriam extorquido traficantes, roubado um fuzil de um suspeito que seria ligado ao PCC (Primeiro Comando da Capital) e forjado uma ocorrência informando um tiroteio para encobrir a execução de um morador de rua na rua Lavínia Pacheco e Silva, no Tucuruvi.

No boletim de ocorrência do episódio registrado como “morte em decorrência de intervenção policial”, em 21 de dezembro, a vítima está como “desconhecida”. O fuzil Colt Sporter Competition teria sido plantado junto à vítima para fazer crer que era um suspeito.

Os PMs do 5º Batalhão foram denunciados à Corregedoria em 24 de dezembro sobre o roubo do fuzil e a possível ação planejada para matar uma pessoa e forjar uma ocorrência.

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No comunicado também havia o relato de um outro fato grave: o de que os PMs estavam fazendo um churrasco “com bebidas e drogas”, segundo denúncia, com parte do dinheiro conseguido com a extorsão contra criminosos da zona norte de SP.

A tenente Luciane, integrante da Corregedoria da PM, foi investigar as denúncias naquele mesmo 24 de dezembro de 2019, mas quando chegou ao batalhão teria sido impedida pelo tenente Diego de fazer a revista.

Mais conversas no WhatsApp apontam a coação contra a tenente. Alguém indicado como cabo Oliveira escreveu: “Corregedoria? Me preocupar com Corregedoria? Com quem? Com aquela tenente puta que veio aqui?”.

Alguns PMs do 5º Batalhão passaram a discutir o caso e o cabo Oliveira novamente se manifestou, segundo material a que a Ponte teve acesso: “Ninguém foi preso nada. Só porque você ficou umas horas na Correg já tá aí se cagando. Tático é isso, mano”. E na sequência continuou: “A gente matou duas vezes em menos de seis meses estive, cadê você na resenha?”.

A outra denúncia também feita à Corregedoria da PM é de que alguns policiais estariam operando um esquema de “mensalão” para deixar o tráfico da rua Tenente Sotomano correr em paz.

A “biqueira” localizada no Jardim Brasil (zona norte de SP) é conhecida de pelo menos dois investigados pela Corregedoria, identificados como Renata e Silas. Em outubro de 2019, os dois prenderam no local um suposto traficante.

Em mensagens do WhatsApp entre Silas e o suposto traficante, o investigado afirma que o lugar “é uma mina de ouro”, com faturamento de R$ 30 mil com a venda de cocaína a cada fim de semana. Em outra conversa, policiais comemoram o aumento da arrecadação para R$ 7.500,00.

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Ponte apurou que ao menos três veículos comuns são usados para coletar a propina da biqueira: um Punto, um Celta e um IX 35. As viaturas que sempre passam pela região são dos seguintes prefixos: M-05012, M-05016 e M-05017.

A reportagem questionou a Segurança Pública especificamente sobre essas informações, mas a pasta também não se manifestou. Em resposta, enviou, no fim da tarde desta terça-feira (11/2), a mesma nota já enviada na segunda-feira (10/2), confirmando a investigação da Corregedoria e destacando que a corporação não “compactua com eventuais desvios de conduta”.

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1 comentário

  1. …e a corporação “não compactua com eventuais desvios de conduta”.
    Mas se rolar um arreguinho fazer o que né?

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