Kobe Bryant e a luta por moradia, por Cesar Vieira e Paolo Colosso

Em 2011, Kobe anunciou uma iniciativa para tentar erradicar o problema desses jovens sem-teto de Los Angeles.

Kobe Bryant: o gigante no Basquete e sua militância pelo direito à cidade nos EUA

ou

Kobe Bryant e a luta por moradia

por Cesar Vieira e Paolo Colosso

A tragédia com o jogador de basquete Kobe Bryant chocou o mundo. Bryant foi considerado o maior da NBA após a “Era Jordan” no Chicago Bulls, não por acaso. Vinte temporadas na NBA com 18 presenças no All-Star Game, cinco títulos da NBA, dois prêmios de MVP das finais e MVP da temporada de 2008. Nesse período, além de ser um gigante no esporte Kobe soube se valer de sua carreira meteórica  para reduzir a vulnerabilidade da população pobre e negra estadunidense.

Desde a crise de 2008, gerada pela irresponsabilidade dos bancos americanos e estabilizada pelos Estados Nacionais, os EUA sofrem uma crise de moradia e desemprego. Assim como no Brasil, a política de austeridade assegura a estabilidade das instituições financeira e lança os ônus para os cidadãos comuns, que não conseguem pagar suas hipotecas e sofrem com desemprego. Chocou Kobe o fato de que, somente em Los Angeles, entre a população sem-teto havia cerca de 10 mil jovens com idade de até 24 anos.

O paraíso anunciado pelos neoliberais brasileiros, que apregoam os EUA como o exemplo a ser seguido, ignora essa massa crescente de pessoas sem uma casa para morar. Nos dois anos seguintes após a crise de 2008, mais de 20 milhões de pessoas perderam suas casas e mais de 8 milhões perderam seus empregos. Enquanto levava os Lakers até as finais da NBA nos anos de 2008 e 2009, Kobe percebia em seu trajeto quase diário até o Staples Center milhares de moradores sem-teto, em sua maioria jovens, a poucos quarteirões do ginásio onde eram realizadas as partidas.

Leia também:  Abono salarial de Doria é falso reajuste para professores, diz Apeoesp

Em 2011, Kobe anunciou uma iniciativa para tentar erradicar o problema desses jovens sem-teto de Los Angeles. Ele e sua esposa criaram a Kobe and Vanessa Bryant Family Foundation (KVBFF) para dar moradia e uma opção de vida para os sem-teto e demais pessoas carentes. Um gesto que demonstra a grandeza de uma pessoa extraordinária dentro e fora das quadras, mas não apenas isso. É interessante notar como o ex-astro da NBA fez questão de colocar o nome de sua esposa, com quem ficou casado por mais de 20 anos, e de destacar sua família no nome da fundação, na contramão do egocentrismo que estamos habituados.

Porém, mais de uma década após da crise imobiliária norte-americana, iniciativas solitárias como as de Kobe não foram suficientes para deter as consequência da ganância dos banqueiros estadunidenses e os efeitos ainda são sentidos na pele. Segundo relatório da Autoridade de Serviços para Pessoas Sem Teto de Los Angeles, em 2018, 59 mil pessoas no Condado de Los Angeles eram moradores de rua. A maior parte deles, 36 mil, vivia na cidade de Los Angeles, terra natal dos Lakers. Ainda segundo o mesmo relatório, cerca de 8.800 famílias vivem nas ruas e o número de jovens morando nas ruas é assustador: aumento de 24% em relação à medição anterior do mesmo instituto. Como se não bastasse, 75% dessas pessoas não têm acesso a abrigos, vivendo em parques, dentro de carros e barracas espalhados pelas ruas.

O custo de vida nas cidades estadunidenses é alto. Pesquisas apontam que uma em cada três famílias de Los Angeles gasta mais de 50% da sua renda para pagar o aluguel, nada muito diferente do que acontece por aqui. O custo de vida nas cidades brasileiras subiu muito nos últimos dez anos e, em grande medida, puxado pelo preço da moradia. Nesse período o preço de venda dos imóveis subiu 236,5% e para locação teve alta de 93,3%. O boom registrou seu auge em 2015, mas os preços seguem estáveis no período de recessão e estagnação dos anos seguintes. No Rio de Janeiro, essas altas foram de 227% e 85,5% no mesmo período.

Ainda que em curvas menos ascendentes, o preço dos alugueis nas grandes cidades também ficam acima da inflação. Obviamente, o impacto não é só para quem busca casa, mas também para os comércios e serviços que locam um galpão ou um escritório. Por isso, para quem vive de salário, está cada vez mais distante ter uma moradia digna e cada vez mais difícil viver nos grandes centros. O método de expulsar as pessoas pelos preços exorbitantes dos aluguéis parece ser universal e atinge as camadas mais vulneráveis da população, tanto lá como aqui.

Leia também:  Abono salarial de Doria é falso reajuste para professores, diz Apeoesp

Por aqui, nossos atuais governantes fazem pouco caso do problema gigante. Não só não propõem saídas, como distorcem as políticas habitacionais, cortando as linhas de crédito para população de baixa renda e subindo o teto da “habitação de interesse social” a ponto de distorcer tal conceito e tornar a politica habitacional somente uma de ativação do mercado imobiliário. Por lá, na chamada “terra da oportunidade”, o Estado gasta anualmente mais de U$$600 milhões com habitação popular, demonstrando mais uma vez que essa história de “Estado Mínimo” é conversa para quem não faz ideia do que é pagar aluguel para morar num lugar do tamanho de um garrafão de basquete.

Toda essa situação demonstra a importância de ídolos da magnitude de Kobe Bryant.

Kobe era um ídolo e um ícone digno desse status. Diferente de outros jogadores do basquete e do futebol, se valia de sua posição privilegiada para reverter desigualdades, conquistar direitos, sobretudo do povo negro. Ainda que fosse um gigante do esporte, via-se pouco em ostentações gratuitas ou caprichos. Menos da autopromoção, promovia antes um bem-estar aos seus. Ainda que seja muito mais importante criarmos políticas públicas adequadas, ao invés de salvadores da pátria, é bom ter como referência alguém que, para além da sua privilegiada condição social, olhou para as pessoas em situação de vulnerabilidade e tentou fazer algo para melhorar suas vidas. Precisamos de mais pessoas como Kobe para ser exemplo para os mais jovens. Ser uma lenda é muito mais que ser um mito, um pseudo-heróis das massas que faz de tudo por um holofote, ou falsos ídolos que ostentam suas riquezas em iates, enquanto desviam de pobres pelas ruas como se desviassem de uma poça de lama.

Leia também:  Abono salarial de Doria é falso reajuste para professores, diz Apeoesp

Kobe foi uma lenda, um verdadeiro ídolo do esporte. É de gente assim, que são também exemplos, que precisamos em nossos dias amargos.

Cesar Vieira é jornalista, documentarista e assessor de comunicação da Rede BrCidades.

Paolo Colosso é arquiteto-urbanista, bacharel em Filosofia pela Unicamp, mestre e doutor em Filosofia pela USP e membro da coordenação da Rede BrCidades.

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor

Assine e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Assine agora

3 comentários

  1. O cara era gente boa, sem dúvida, mas fiquei com mais pena da menina de 13 anos que não deveria estar lá, naquele “saco de pedra voador”, na minha opinião.
    Agora, vamos combinar, CHEGA de matéria sobre esta tragédia! Afinal, é mais uma entre milhares diariamente…
    Já não basta aturar o “grupo globo-time-fife” entupindo a grade com este assunto???

    • Olhar comentário com esse acima ?? me faz sempre lembrar o quanto existem pessoas carentes de conhecimento.
      Lindo artigo, me emocionei! Kobe pra mim representa mais do que um grande jogador, representa o esporte num todo. São poucos que conseguiram chegar num patamar que transcende as linhas das quadras de basquete… Enfim, lindo artigo

    • Olhar comentário com esse acima ?? me faz sempre lembrar o quanto existem pessoas carentes de conhecimento.
      Lindo artigo, me emocionei! Kobe pra mim representa mais do que um grande jogador, representa o esporte num todo. São poucos que conseguiram chegar num patamar que transcende as linhas das quadras de basquete… Enfim, lindo artigo

Deixe uma mensagem

Por favor digite seu comentário
Por favor digite seu nome