Na Vila de Santo Amaro, um café para D. Pedro II em 1886, por Vera Lucia Dias

Na Vila de Santo Amaro, um café para D. Pedro II em 1886

por Vera Lucia Dias

Visitar e descobrir o bairro de Santo Amaro é percorrer a história da cidade de São Paulo através da formação de seu povo de origem indígena, negra, imigrante e migrante.

O bairro, que já foi cidade de 1832 até 1935, está localizado onde antes predominava aldeia indígena sob a liderança do cacique Caiubi.

Na região viveu o casal formado pelo noviço Pedro Dias com a índia Terebê, filha de Tibiriçá. Eles tiveram treze filhos e dessa linhagem descende Borba Gato.  

Por ali chegavam viajantes oriundos da Serra do Mar usando o rio que margeia, antes Jurubatuba, atual Pinheiros, de confluência com o Guarapiranga. Muitos desses viajantes vieram de Portugal, como o casal João Paes e Suzana Rodrigues acompanhando Martim Afonso de Souza em 1532. Portavam a imagem do Santo e conseguiram construir uma capela em 1560 próximo ao rio. A igreja no atual lugar recebeu vitrais da Casa Conrado.

Nas origens da população, negros foram trazidos para o trabalho. Alemães chegaram em 1829 por determinação de D Pedro I preocupado em povoar e, no início do século XX migração intensa oriunda de vários estados do Nordeste castigados por severa seca.

Conforme censo de 1886 por ali estavam 11 portugueses, 23 italianos, 32 alemães, 147 africanos e os demais 6097 brasileiros com alguma mestiçagem. O brasão da cidade diz “pertenço à mais velha sociedade paulista”.    

A região foi a primeira a utilizar o trem em 1866 com linha férrea (depois substituída pelo bonde em 1913).  O Imperador D Pedro II e sua esposa Dona Tereza Cristina vieram à Província de São Paulo e no dia 14 de novembro, depois da Igreja da Penha, tomaram um bonde puxado a burros e seguiram para a Estação de Ferro em direção a Santo Amaro. Houve queima de fogos. “A Imperatriz foi descansar na casa do Vigário e seu marido foi visitar a Casa de Câmara e Cadeia”. Percorreu ruas e a seguir na casa do vigário mesa com salgados e doces. Ele tomou apenas uma xícara de café.

Nessa Vila sempre aconteciam festas do Divino, de Santa Cruz e as famosas Romarias e seus cavaleiros. Outras religiões também se abrigaram na região, os anglicanos, umbandistas, batistas, metodistas e luteranos.

Santo Amaro tem um dos Cemitérios mais antigos de São Paulo feito em 1856, que no seu início foi administrado por Adolfo Pinheiro.

Esse bairro é berço do intelectual Paulo Eiró, poeta, abolicionista e aluno da faculdade de Direito. É lembrado com nome no teatro. Autor de versos como “Rosa Seca”,

Rosa seca e desfolhada

Oferta de minha irmã

Já não recendes no campo

Já não te orvalha a manhã

Na atualidade um lugar servido por trecho de metrô, trem ou ônibus é bom de passeio para observar construções antigas em meio às modernas, oferece excelentes hotéis, tem a Hípica de 1935 – antiga Fazenda Itiquerê, o São Paulo Golf Club, comércio intenso, três bibliotecas públicas, duas Casas de Cultura, quatro grandes casas de shows, unidade do Sesc, Shoppings e um Mercado Municipal.

Sobre o artista plástico JULIO GUERRA, autor do Borba Gato, é bom saber que iniciou seus estudos de desenho com 14 anos. Fazia figuras com barro do rio Jurubatuba. Admirador de Aleijadinho e da arte etrusca, utilizou policromia. Suas obras lembram ceramistas populares.

Segundo Carlos Lemos a obra em homenagem a Borba Gato remete às esculturas paulistinhas, mede cerca de 12 metros e foi inaugurada em 1963.

Borba Gato era genro de Fernão Dias. Sobre esse trabalho Júlio Guerra disse: “talvez não seja uma obra de arte, procurei fazer uma estátua que alcançasse o povo e fosse por ele entendida”. As pedras utilizadas na escultura vieram de Portugal, de São Carlos, Ouro Preto e do Paraná.

Júlio Guerra esteve na Europa e expôs em Buenos Aires em 1947. Colaborou na obra “Duque de Caxias” com Victor Brecheret. Também é de sua autoria a “Mãe Preta” no Largo do Paissandu.

Caminhando por esse bairro-cidade, a dura realidade contrasta com o poder econômico e faz refletir sobre espaços a serem conhecidos e melhor usados como o belo Coreto da praça central. O Samba da Vela já faz uma frente a essa necessidade e muita arte ainda há que despertar dando voz a moradores. Instituições como Senac, a Prefeitura ou a Associação Comercial são elos para somar às iniciativas.

Um passeio para refletir. 

Fonte: BERARDI, Maria Helena. Santo Amaro, Memória e História. Secretaria de Educação do Estado, 1969.

 

 

 

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2 comentários

  1. D. Pedro ll

    Em tempos como os atuais é que se pode ver a falta que faz um Estadista à frente do Executivo e no exercício do Poder Moderador, auxiliado por um Conselho de Estado formado por verdadeiros patriotas.

  2. Viajando

    Muito boa a descrição e a historia da Vila de Santo Amaro, “abriu meu apetite”. Como devo passar por SP este ano, quero ver se conheço esse pedaço da grande São Paulo.

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