Parque Augusta como referência de lazer ambiental e combate às enchentes, por Álvaro Santos

Conversão do espaço em bosque florestado, além de contribuir para temperatura amena e sustentação da fauna urbana, teria especial importância hidrológica em uma cidade onde as enchentes constituem um de seus principais dramas urbanos

Parque do Ibirapuera em São Paulo (Foto: Paulo Pinto/Fotos Públicas)

Por Álvaro Santos*

Conheci pelo G1 (Globo) alguns detalhes do Projeto de Construção do Parque Augusta, esquina da Augusta com a Caio Prado na capital paulista. Assustei-me um pouco com o grande número de “atrações” que o projeto pretende instalar naquele espaço, passando por cachorródromo, academia da 3ª idade, playground, praça, trilhas, arquibancada, bosque, etc. Penso que essa seja uma preciosa oportunidade de conversarmos sobre quais as carências urbanas, e são tantas, que um parque dessa natureza deveria considerar como foco prioritário de atenção do empreendimento.

Adianto minha opinião que esse foco de atenção e vocação do novo parque deva estar na disponibilização para a cidade de um grande bosque florestado, ocupando a maior extensão possível da área total disponível. Do ponto de vista ambiental é notória a nobreza das funções associadas a um bosque florestado, seja na amenização da temperatura, na atração e sustentação da fauna urbana, no oferecimento de um ambiente cultural de contemplação e paz espiritual, seja como um laboratório de educação ambiental, etc.

Mas um bosque florestado cumpre também funções hidrológicas de especial importância para uma cidade que tem nas enchentes urbanas um de seus principais dramas. Sempre bom lembrar que a principal causa das enchentes urbanas está na impermeabilização do espaço urbano, com a decorrente perda de sua capacidade de reter águas de chuva. Do que decorre que a cidade acaba lançando, em tempos sucessivamente menores, um imenso volume de águas pluviais sobre um sistema de drenagem que não mais consegue lhe dar a devida vazão. Essa a equação básica das enchentes. As áreas florestadas, diferentemente das impermeabilizadas, conseguem reter até 85% das águas de chuva que recebe, aliviando em muito os sistemas de drenagem que lhes são próximos.

Conceitualmente podemos entender o bosque florestado urbano como um espaço, uma praça, um terreno público ou privado, inteiramente tomado por árvores de pequeno, médio e grande portes. Comporta-se como se constitui uma porção de uma verdadeira floresta natural, em nosso caso da Mata Atlântica, em todos seus componentes, com destaque à serapilheira, aquele espesso colchão de folhas caídas e restos vegetais que vai se acumulando no chão das florestas naturais. É a serapilheira que proporciona a proteção do solo contra a erosão, da vida biológica ao solo e o enriquece agronomicamente, torna o solo mais fofo e permeável. Outra característica formidável da serapilheira é absorver ela própria de imediato uma grande quantidade de água das chuvas, reduzindo em muito o volume de água que escorre sobre a superfície do solo e que acabaria chegando aos sistemas de drenagem.

Um bom e conhecido exemplo seria a parte alta do Parque do Trianon, na badalada Av. Paulista da cidade de São Paulo. Com seu bosque florestado e com a implantação de outros dispositivos de acumulação e infiltração de águas de chuva o Parque Augusta poderia orgulhar-se de reter todas as águas de chuva que recebesse, inclusive nos episódios pluviométricos mais intensos. Que vitória em um nova cultura de combate às enchentes!

Dito isto, aqui fica a forte sugestão para que o Parque Augusta representa esse novo símbolo de áreas verdes urbanas, quais sejam os bosque florestados, verdadeiros piscinões verdes de inestimável função ambiental e hidrológica para as cidades.

Mais longe ainda vai o sonho, que essa nova cultura paisagística seja abraçada pelas nossas administrações municipais, o que nos permitiria, no caso da metrópole paulistana, vê-la aplicada em outras tantas situações semelhantes, como a Chácara do Jockey, no bairro do Ferreira, e, deixem-me sonhar, em uma futura Grande Floresta do Butantã, a ser implantada na grande área hoje ocupada pelo pretensamente aristocrático, falido e urbanisticamente disfuncional, Jockey Club de São Paulo.

*Geól. Álvaro Rodrigues dos Santos
• Ex-Diretor de Planejamento e Gestão do IPT – Instituto de Pesquisas Tecnológicas
• Autor dos livros “Geologia de Engenharia: Conceitos, Método e Prática”, “A Grande Barreira da Serra do Mar”, “Diálogos Geológicos”, “Cubatão”, “Enchentes e Deslizamentos: Causas e Soluções”, “Manual Básico para elaboração e uso da Carta Geotécnica”, “Cidades e Geologia”
• Consultor em Geologia de Engenharia e Geotecnia

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