Revitalização dos centros antigos: toda vida importa?

Jornal GGN – Diferentes cidades brasileiras enfrentam problemas muito parecidos no que diz respeito ao abandono de seus centros antigos. Não é que essas áreas estejam vazias. Degradadas, elas ainda têm importância fundamental para populações mais pobres. O poder público, no entanto, e a iniciativa privada precisam retomar o interesse nessas regiões.

A questão não é propriamente nova. Ações ditas de “revitalização urbana” estão na pauta nacional desde o final da década de 60. As prefeituras de Recife e Salvador foram pioneiras. Mas frequentemente esses projetos sofrem com a falta de continuidade, orçamento e estrutura.

O assunto foi tema de discussão no 66º Fórum de Debates Brasilianas.org.

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Os instrumentos utilizados para revitalização no Brasil

Para o professor da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da Universidade de São Paulo (EACH-USP), André Fontan Köhler, o Brasil tem a tradição de promover essa renovação por meio de três instrumentos: a restauração de monumentos, a criação de equipamentos culturais e a promoção de eventos.

“Existe no Brasil algumas crenças. A primeira em torno do grande monumento restaurado. ‘Restaure os monumentos e os turistas virão’. Só que não funciona bem assim”, disse.

“Até porque o nosso patrimônio é custoso, é difícil de manter, ocupa um local na cidade, engessa o desenvolvimento ao redor. E nós não nos preocupamos em fazer com que esse patrimônio seja decifrado pela população. Então, muitas vezes eu restauro o monumento e não tenho retorno do turista, porque a maior parte das pessoas não entende nem que aquilo é patrimônio cultural”, explicou.

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“Outra coisa é a crença no grande equipamento cultural. O maior tiro n’água, em minha opinião, é um equipamento maravilhoso: a Sala São Paulo. O equipamento em si é muito bom, a acústica é perfeita. Só que ele não dialoga com os arredores. A pessoa vai de carro até lá, estaciona dentro, assiste à apresentação, entra no carro e volta pra casa. É uma catedral no deserto. Lindíssimo, mas não dialoga com nada”.

“Por fim, há a crença nos grandes eventos culturais. Mas eles são muito mais para o público externo do que para o público interno. Nós temos a Virada Cultural, que é importante, mas não temos uma agenda permanente no núcleo antigo da cidade, que faça com que as pessoas vão até lá, ou fiquem um pouco mais depois do expediente”.

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Os caminhos corretos para recuperar os centros antigos

Para André Köhler, os caminhos para recuperar os centros antigos das metrópoles brasileiras passam, necessariamente, pelo incentivo à função residencial dessas áreas. “Precisa ter moradores. Você não vai conseguir revitalizar uma área da cidade que depois das seis horas da tarde fica vazia”.

Além disso, é preciso aproveitar esse público interno, entende-lo como mercado consumidor e inseri-lo nas dinâmicas econômicas locais. “As pessoas que moram lá não podem continuar a ser ignoradas”.

Também é necessário envolver as três esferas do governo no processo. “Aqui no Brasil, quando se tem uma tentativa de recuperar algo, você coloca isso em cima de uma prefeitura, que tem recursos muito limitados. Enquanto não for uma agenda também do governo do estado e do governo federal, você vai ter essa intervenção pública espasmódica”.

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E por fim, há de se reconhecer a importância da iniciativa privada e do terceiro setor. “Nós tendemos a não gostar da iniciativa privada quando estamos falando sobre o espaço urbano. Mas deixando tudo para o poder público fica muito complicado”.

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Iniciativa privada e interesse público

A dificuldade, nesse caso, é não perder de vista o interesse público.

O professor da USP compartilhou o exemplo de Liverpool, na Inglaterra. A cidade tinha o orgulho de ser a segunda principal do Império Britânico. Hoje, sua população corresponde à metade do que foi nos anos 30.

“Nos anos 2000, 17 hectares do centro de Liverpool foram arrasados, completamente arrasados. Foi erguida uma nova cidade no local, ao custo de 920 milhões de libras esterlinas, perto de R$ 5 bilhões”.

“Nesse caso, teve uma privatização total do espaço urbano. A prefeitura de Liverpool passou essa área, com todos os direitos estatutários, para a Grosvenor, que é a firma imobiliária do duque de Westminster. Essa área hoje é completamente privada. A segurança é privada, a iluminação pública é privada, a limpeza é privada. Se você for considerado um elemento indesejável ali, eles podem pedir para você se retirar. Porque os ingleses são muito educados, então, primeiro eles pedem pra você se retirar e depois eles te expulsam”.

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Revitalização, vitalização, vita, vida

Para o professor André Köhler, há um sério problema conceitual com o termo revitalização, que reflete um pouco da perversidade da questão.

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“Quando você fala revitalização, você geralmente está falando em trazer uma vida nova para o espaço. Liverpool tem a menor unidade censitária da Inglaterra. Faz até um sentido falar de revitalização porque a vida saiu dali, não tem pessoas”.

“No Brasil, as grandes metrópoles ainda não enfrentaram esses fenômenos. Você tem uma diminuição do crescimento, como em São Paulo, mas os núcleos antigos ainda não estão sem vida. Muito pelo contrário, eles têm muita vida”.

“Na prática, quando você usa a revitalização, você considera que aquela população que veio não tem tanto valor quanto uma externa que você quer chamar”.

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1 comentário

  1. Como se pensa mal no

    Como se pensa mal no Brasil…

    Primeiro, a iniciativa pioneira de revitalização de áreas centrais com interesse patrimonial ocorreu no Rio de Janeiro, e não em Salvador (que apresentou o projeto mais abrangente) e muito menos no Recife (a menos antiga das três).

    Segundo que a Sala São Paulo jamais esteve inserida em um projeto de revitalização do seu entorno. Seus idealizadores sempre focaram fatores endógenos (a excelência do edifício da estação para o retrofit e a necessidade de uma sede grandiosa para a Osesp) e nunca estiveram envolvidos com requalificação urbana, mesmo do entorno imediato da estação. O projeto de requalificação para a região surgiu mais de 10 anos depois da sala ter sido inaugurada, chamou-se Nova Luz e era um desastre…

    Terceiro que a revitalização por equipamentos culturais (marco do projeto carioca, ancorado em uma série de centros culturais que originalmente se iniciavam na Casa França-Brasil e terminavam no complexo da Cinelândia, com o teatro e o museu de belas artes), ainda resistindo no Rio, não foi o único caminho seguido.

    O Recife tentou outro, que foi trazer a vida boêmia para o setor do Centro abandonado, na Ilha do Recife, onde as ruas eram fechadas à noite, incentivou-se a abertura de bares, restaurantes e casas de shows etc. Deu certo durante algum tempo, mas encontra-se em crise há anos.

    O Rio procurou fazer o mesmo na Lapa, Santos no eixo Rua XV – Rua do Comércio, Curitiba no Largo da Ordem etc.

    Os arquitetos, de uma maneira um tanto lobotômica, repetem há anos o mantra da função residencial como panaceia de requalificação, como se a cidade não necessitasse de áreas mais flexíveis quanto ao nível de ruído à noite, ocupação das ruas etc. O lazer (cinemas, teatros, bares etc.) traz a vida 24 hs que as funções comerciais e financeiras limitam a poucos horários.

    Enfim, o assunto é apaixonante e complexo, pena que haja tanto palpiteiro por aí.

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