Carta ao grande Leite Lopes

Professor José Leite Lopes

Em meados de 1988, quando estava trabalhando no JET (Joint European Torus), em Abingdon, Inglaterra, recebi um telefonema bem tarde de uma noite. O soar da campainha me assustou, pois um telefonema tão tarde só poderia ser do Brasil e, possivelmente, trazia notícias urgentes e desagradáveis. Ao atender, ouvi aquela voz agradável com sotaque nordestino: “Galvão, aqui é o Leite, como vai?”. 

Havíamos nos conhecido há apenas cerca de um ano, em função das discussões sobre a criação do Laboratório Nacional de Plasmas, que estava sendo promovida pelo Ministro Renato Archer, mas entre nós já havia surgido uma grande sintonia, apesar de nossas personalidades bastante distintas. 

“As discussões sobre o Laboratório estão emperradas; o pessoal de São Paulo não abre mão de localizá-lo lá. Por isso eu o estou convocando para voltar logo e vir para o CBPF. Você aceita?” Dias depois lhe telefonei para informar porque não poderia aceitar sua oferta naquela ocasião. Ele me xingou carinhosamente, como era de seu estilo, para depois concluir, “mas as portas continuam abertas para você”. 

Em julho de 2004, quando entrei no auditório para a cerimônia de minha posse como Diretor do CBPF, ele já estava lá, sentado numa cadeira de rodas. Ao cumprimentá-lo, a primeira coisa que me disse foi “Você demorou muito para atender minha convocação”. Depois concluiu “mas estou contente que tenha vindo; procure tratar esta casa com respeito e grande dedicação”. 

Este curto testemunho exemplifica a personalidade deste cientista e humanista excepcional, que sempre foi capaz de associar com habilidade um certo tom de irreverência e humor a afirmações sérias e plenas de significado científico e ético. Ele soube usar essa mistura bem balanceada de irreverência e seriedade para divulgar a ciência e discutir os problemas que afligem nossa sociedade com raro brilhantismo, sempre atraindo grandes audiências em suas apresentações. 

No ano passado tive a felicidade de desfrutar momentos preciosos de conversas privadas com ele, algumas vezes no CBPF e outras em sua casa, durante almoços memoráveis, tanto pela qualidade da comida e do vinho como pelos temas abordados. A memória já não lhe era tão fiel e ele estava um tanto desiludido com seu estado de saúde e com o rumo da política em nosso País. Mas o que mais lhe afligia era não poder mais fazer ciência como antes. Sua preocupação com o desenvolvimento científico do Brasil era uma constante. Ele me desafiava, com aquela entonação arrastada que usava quando queria dar um tom de provocação em suas manifestações: “Galvão, você que vem da prestigiosa USSSSP, me indique o nome de pelo menos um jovem físico brasileiro que esteja de fato despontando no cenário científico Internacional”. E acrescentava, “Será que não estamos afogando a criatividade de nossos jovens talentos?”. 

Eu não sabia e ainda não sei como responder corretamente a esta pergunta. Mas tenho certeza de que o exemplo que ele nos deixou, como cientista, professor e humanista, será uma semente que frutificará belamente no espírito de jovens cientistas brasileiros.

Ricardo Galvão
Março de 2006

http://www.cbpf.br/LeiteLopes/

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