A dependência bioquímica da felicidade no filme “Little Joe”, por Wilson Ferreira

Imagine o clássico filme sci-fi de terror Os Invasores de Corpos refilmado na nossa era dos antidepressivos.

por Wilson Ferreira

“Little Joe” é um curioso sci-fi de terror. Na verdade anti-terror. Na maioria dos filmes de terror estremecemos com espetáculos de autodegradação: o corpo é violentamente possuído por vírus, bactérias, aliens etc. Mas em “Litte Joe” vemos o oposto: as vítimas se transformam nas versões mais felizes e saudáveis de si mesmas. Porém, “zumbis” felizes. Uma espécie de versão do clássico “invasores de Corpos” na era dos antidepressivos. Uma cientista sênior de um laboratório de biotecnologia cria uma planta geneticamente modificada cujo pólen, ao ser inalado, produz uma sensação de “felicidade” – na verdade um mix de euforia, apatia e perda do senso crítico. As plantas geneticamente modificadas são a metáfora da proliferação dos antidepressivos e de uma certa ideia de felicidade que implica em adormecimento, sonolência e um conforto que advém de uma passividade conformista. A dependência bioquímica de uma certa ideia de felicidade esperada pelas corporações e sociedade de consumo. Filme sugerido pelo nosso leitor Alexandre Von Keuken.

Em que lugar está escrito que devemos ser felizes? Em qual passagem da Bíblia, da Constituição, Talmud ou Alcorão se diz isso? De repente, por algum motivo, a noção de que viemos para esse mundo para alcançarmos a felicidade tornou-se uma espécie de direito fundamental, assim como o acesso à educação, saúde e moradia.

Felicidade tornou-se um equivalente geral na indústria publicitária, valor oferecido a qualquer coisa que estivesse à venda. Criou também uma espécie de autoindulgência humana de que somos especiais e distintos de todos os outros animais nesse planeta: como criações divinas a imagem e semelhança Dele, merecemos a felicidade como um destino divino.

Mas hoje alcançamos o paroxismo dessa pretensão: na atualidade a sociedade reúne todo um arsenal médico-terapêutico-psicológico-farmacêutico para extirpar o mal que atormenta milhares de almas: a melancolia e a depressão, os grandes inimigos da Felicidade.

Mas, o que esse complexo fármaco-terapêutico-publicitário entende por “Felicidade”? Em reportagem do jornal Folha de São Paulo (“Drogas psiquiátricas provocam efeito zumbi”), um operador de telemarketing deu o seguinte depoimento: “Sabe quando você está numa ressaca brava? Era pior. Saía da cama e sentia uma coisa paranormal, como se não fosse eu. Era outra pessoa me controlando e eu assistindo à cena, sem controle. O remédio fazia eu me sentir assim, um zumbi.”

Essa é a crítica da provocadora diretora austríaca Jessica Hausner com o seu sétimo longa Little Joe(2019) – imagine o clássico filme sci-fi de terror Os Invasores de Corpos refilmado na nossa era dos antidepressivos. Essa é a ideia de Hausner, com uma forte crítica social a uma indústria que estimula uma viciosa busca da felicidade a todo custo. Mas tudo o que entrega é um coquetel químico que produz um mix de euforia, apatia e perda do senso crítico.

Zumbis, mas não como aqueles que andam gemendo pelas ruas largando pedaços de carne pelo caminho… Na realidade, a princípio as pessoas sentem-se felizes, aparentemente é a mesma pessoa. Porém, parece ter perdido seus sentimentos genuínos e apenas finge ser a pessoa que era antes, como uma estranha espécie de autoconsciência irônica, como fosse um ator performando a si mesmo.

Essa ousada crítica da diretora, e confirmada por pesquisadores como Mark Gould (clique aqui, em inglês) e Erik Wilson (clique aqui), é o mote central da estória de uma mãe que está ocupada demais com o trabalho para perceber que o seu filho adolescente chamado Joe foi infectado pelo pólen de uma planta projetada por ela própria – uma bio-farmacêutica que projetou geneticamente a planta e trouxe para casa como um presente.

Joe continua sendo o mesmo Joe… porém, algo está estranho: ele não é mais o mesmo filho que era – tornou-se “plano”, um zumbi plácido, sem variações de humor, monocórdico e dominado por uma estranha devoção à planta chamada “Little Joe”.

Ou será que uma mãe divorciada, workaholic e ausente não está conseguindo entender que Joe está apenas se tornando adulto?

O Filme

Alice Woodward (Emily Beecham – prêmio de melhor atriz de 2019 no Festival de Cannes) é a cientista sênior dos laboratórios da Planthouse Biotechnologies, na Inglaterra. Sem dúvidas, esse laboratório corporativo deu a Alice o seu próprio País das Maravilhas: faz experiência de sequenciamento e manipulações genéticas, cuidado da sua própria raça de flores cujo pólen, uma vez inalado, poderia induzir o seu dono a um sentimento de satisfação suprema – a própria felicidade.

Naturalmente, a empresa, incluindo o cético chefe Karl (David Wilmot), vê o potencial comercial dessa biopílula da felicidade. Principalmente porque Alice pensou em um detalhe comercialmente excelente: as plantas são estéreis, dessa maneira prevenindo a Planthouse de ser vítima de qualquer tipo de pirataria, espionagem industrial ou engenharia reversa.

Seu assistente Chris (Bem Whishaw) nutre uma queda íntima por ela. Mas Alice só pensa no projeto “Little Joe”, nome inspirado no seu filho Joe (Kit Connor), um adolescente nerd que passa seus dias solitários enquanto a mãe dedica-se quase integralmente ao trabalho.

Sentindo-se culpada e achando que Joe é um jovem triste e solitário, Alice quebra os protocolos de segurança da empresa e leva um exemplar da flor de presente para seu filho. Que logo adquirirá uma estranha devoção àquela flor de intenso vermelho.

Essa breve sinopse pode fazer parecer tudo muito bizarro e selvagem, como um tradicional terror de ficção científica. Mas a narrativa, o visual e o tom são austeros, produzindo uma experiência fria e de distanciamento. O oposto do que a sinopse sugere.

Vemos uma estética asséptica, em cores simultaneamente vibrantes e frias, criando uma atmosfera alienígena. As flores (são fileiras e fileiras delas na estufa do laboratório) abrem-se criando uma imagem ao mesmo tempo bela e assustadora: a explosão de vermelho com gavinhas suaves parece dançar sensualmente quando os botões se abrem – parecem querer nos atrair, para depois escravizar.

O pólen aspirado no início provoca espirro. Depois a vítima adquire devoção pela flor, fazendo de tudo não só para protege-la: mas também para trazer outras pessoas para cheirá-la. Em seguida, o comportamento aparentemente feliz, adaptado e sem mais altos e baixos emocionais. As pessoas ao redor sentem algo estranho – é a mesma pessoa, mas… não é mais ela! Até também aspirar o pólen e adotar também um tom de felicidade estereotipada.

 

 

>>>>>Continue lendo no Cinegnose>>>>>>>

Você pode fazer o Jornal GGN ser cada vez melhor.

Assine e faça parte desta caminhada para que ele se torne um veículo cada vez mais respeitado e forte.

Assine agora