A desconstrução da mitologia política e masculina do cowboy em ‘Ataque dos Cães’, por Wilson Ferreira

O filme começa com todos os ingredientes do gênero, para lentamente se transformar em um gótico americano sombrio, ecoando a atmosfera hitchcokiana de “Psicose”. 

A desconstrução da mitologia política e masculina do cowboy em ‘Ataque dos Cães’

por Wilson Ferreira

Um homem coberto de sujeira da cabeça aos pés que encarna um personagem em crise masculina. Ele tem uma necessidade constante de provar que é o líder mais rude e duro dentro de uma estufa masculina de cowboys. Provavelmente para ocultar sua adoração e afeição pelo homem que o ensinou muito mais do que montar um cavalo. “Ataque dos Cães” (“The Power of the Dog”, 2021, disponível na Netflix), de Jane Campion, mostra a melhor atuação de Benedicte Cumberbatch na sua carreira representando um personagem que desconstrói não apenas a si mesmo. Mas toda a mitologia do cowboy e do Western cinematográfico. O filme começa com todos os ingredientes do gênero, para lentamente se transformar em um gótico americano sombrio, ecoando a atmosfera hitchcokiana de “Psicose”. 

O faroeste e a figura do cowboy foi uma criação mitológica tardia. As suas origens estão no famoso “O Show do Oeste Selvagem de Buffalo Bill”, uma espécie de circo itinerante que passou a correr por cidades em 1883 nos EUA. O show incluía uma parada de cavaleiros demonstrando suas habilidades na cela, participação de índios americanos e demonstrações da habilidade de atiradores.

Uma mitologia que representava o ideal de liberdade individualista que vivia o conflito natureza vs. civilização e liberdade vs. normas sociais. Uma mitologia que acabou criando o mito do cowboy ariano, afastando índios, negros e americanos. Para ocultar o fato de que o cowboy na verdade trouxe a civilização para o Oeste, representado pelo arado que destruiu planícies, índios e búfalos.

Escritores do século XIX como Frederic Remington descreveram o cowboy como o herói americano que pode se deleitar com a liberdade e o gado e a mineração como a própria essência americana, o sal da terra.

 O cinema mudo iniciou a desconstrução dessa mitologia, como em Vaqueiro Avacalhado (Go West, 1925) de Buster Keaton. Para depois o mito ser retomado pelos esforços ideológicos de propaganda de Hollywood com John Wayne e a fixação do gênero Western ou a figura do cowboy da Marlboro na publicidade. 

Ataque dos Cães (The Power of the Dog, 2021), de Jane Campion, nos conta uma estória que se passa em 1925 (não por acaso – é o ano do lançamento do filme de Buster Keaton) em um rancho em Montana, com grandes planícies e montanhas com cumes nevados. Por todos os lados encontramos os clichês que compõem essa mitologia do western – cowboys durões e másculos que tocam pelas planícies grandes rebanhos de gado, a mitologia do saloon, a desconfiança com indígenas, o confronto da civilização com a liberdade do cowboy etc.

Mas, pouco a pouco, numa narrativa em “queima lenta” em estilo minimalista, esses mitos são desconstruídos, principalmente a figura masculina, incorruptível e confiante do cowboy.

O filme é baseado no romance homônimo de 1967, aclamado pela crítica, de Thomas Savage (autor cuja homoafetividade foi tardiamente assumida), inspirado em seus anos de crescimentovivendo e trabalhando em um rancho em Montana.

A narrativa combina o retrato intenso da masculinadade tóxica com um conto gótico feminino – sobre aquelas histórias de mistério sobre mulheres em espaços sufocantes assombradas por fantasmas, sejam eles literais ou não, trazendo à tona um redemoinho de desejos reprimidos.

A paisagem de montanhas imponentes parece ser uma metáfora do aprisionamento psicológico dos personagens. Todos os personagens tentam ocultar alguma coisa, homossexualidade, alcoolismo ou mesmo crime.

O diretor de fotografia Ari Wegner utiliza de lentes de grande amplitude para capturar as colinas com tantos detalhes quanto os personagens em primeiro plano para garantir enquadramentos com composições inspiradoras. E a trilha sonora de Jonny Greenwood é francamente sinistra. 

Os eventos acontecem em uma parte isolada de Montana (na verdade, as cenas foram rodadas na Nova Zelândia), onde o Oeste ainda é uma mitologia forte. Os carros não são comuns aqui. Juízes e homens da lei nunca são vistos. Tudo o que conta nesse lugar são as longas horas de trabalho dos homens, os laços entre si que compartilham e o que podem ensinar uns aos outros sobre a vida, as mulheres e o gado.

Em Ataque dos Cães não há nenhum evento sísmico seja tiroteios, socos ou estouro do gado. Apenas a lenta desconstrução da mitologia do cowboy.

O Filme

A narrativa acompanha Phil Burbank (Benedict Cumberbatch). Por décadas, Phil e seu irmão George (Jesse Plemons) criam gado no rancho de sua família em Montana, uma extensão árida cercada por montanhas irregulares. Tão duro e isolado como a terra de Montana, Phil tem bancado o cowboy durante toda a sua vida adulta: ele raramente toma banho, toca um banjo e castra bezerros usando uma lâmina que segura nos dentes para poder terminar o procedimento implacável com suas próprias mãos.

O oposto de George, sempre usando terno, mesmo quando cavalga. Além de dirigir o único carro da região.

Os irmãos têm formação universitária, mas seus pais deixaram o rancho para eles, para continuarem o rico negócio. Phil cultua uma figura mítica chamada Bronco Harry, “do tempo em que havia homens verdadeiros”, como ele exalta. Bronco Harry ensinou aos irmãos tudo o que um vaqueiro deve saber para viver naquela planície cercada de imponentes montanhas. 

Mas, o filme parece sugerir que ele ensinou muito mais do que isso.

Tudo começa a mudar quando George se casa com Rose (Kirsten Dunst), uma viúva com um filho adolescente, Peter – Kodi Smit-McPhee, que com o passar do tempo evoca cada vez mais o jovem Anthony Perkins de Psicose

Phil vê Rose como uma oportunista e escreve uma carta de reclamação para seus pais, a quem os irmãos, mais comicamente do que afetuosamente, se referem como a Velha Senhora e o Velho Senhor (Frances Conroy e Peter Carroll). É uma atitude infantil, mas de acordo com o infantilismo que ainda molda o relacionamento difícil dos irmãos e sua estranheza com os outros, especialmente mulheres. Antes de Rose, as únicas mulheres no rancho eram uma cozinheira mais velha e uma jovem ajudante, ambas convenientemente assexuadas.

Peter é um estudante de medicina, magro, sensível e dândi. Mas, para Phil e os cowboys do rancho, uma “bicha”.

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