A hiper-realidade da banalidade do mal em “O Ato de Matar”, por Wilson Ferreira

Um surrealismo medonho ao som de "Born Free". Como a banalidade do mal pode se tornar hiper-real.

A hiper-realidade da banalidade do mal em “O Ato de Matar”

por Wilson Ferreira

O holocausto nazista, com suas milhões de vítimas, foi imortalizado por centenas de filmes e documentários. Porém, o genocídio político ocorrido na Indonésia entre 1965 e 1966, no qual foram massacradas mais de um milhão de pessoas (famílias inteiras, entre mulheres e crianças), é pouco conhecido – um expurgo político perpetrado por paramilitares e milícias em nome da luta contra a suposta ameaça comunista. “O Ato de Matar” (“The Act of The Killing”, 2012, de Josh Oppenheimer) é um documentário cujas câmeras mostram como os líderes daquele genocídio ainda gozam do status de heróis e continuam atuantes sob o atual regime de extrema-direita. Tão orgulhosos que resolveram, durante as filmagens, fazer um outro filme dentro do próprio documentário: eles próprios reencenaram seus massacres, enquanto emulavam gêneros hollywoodianos como filmes de gangsteres e musicais. Criando um curioso efeito metalinguístico – um surrealismo medonho ao som de “Born Free”.  Como a banalidade do mal pode se tornar hiper-real. 

 

A palavra “gangster” vem da palavra inglesa “gang” que designa membros de uma quadrilha de criminosos. Sua origem veio do período da chamada “Lei Seca” de 1920 a 1933, na qual surgiram diversas quadrilhas que faziam contrabando de álcool – mais tarde alcançaram grande nível de organização e autonomia liderados por criminosos famosos como Al Capone (Chicago) e Lucky Luciano (Nova York).

No cinema, tornaram-se personagens famosos do gênero policial ou “filmes de gangsters”. Sempre morriam no final (como deve ser o vilão), mas a suas figurações como personagens ricos, elegantes, poderosos, cercado de mulheres e rajadas de metralhadora, deram a ambiguidade necessária para se tornarem populares: odiados, mas, ao mesmo tempo, temidos e admirados.

Gangsters hollywoodianos alcançaram o mundo até seus filmes chegarem na Indonésia, nos anos 1960. Lá, a palavra gangster ganhou uma nova, por assim dizer, etimologia: “homem livre”. E tornou-se uma justificativa para o expurgo político nos anos 1965-66, na verdade um genocídio, sob o regime de extrema-direita de Suharto.

Mais de um milhão de pessoas foram cruelmente assassinados: famílias inteiras acusadas de serem “comunistas” – membros de sindicatos, fazendeiros pobres, intelectuais de esquerda e políticos de oposição, além de chineses étnicos.

Ignorado pelo Ocidente, dentro da lógica da Guerra Fria (o regime Suharto era pró-Ocidente), o genocídio foi perpetrado por verdadeiras milícias que se consideram “gangsters”, ou “homens livres” – para se opor aos comunistas que iriam acabar com a “liberdade”.

Principalmente a liberdade de ver filmes hollywoodianos, que davam boa bilheteria nos cinemas locais, muito dinheiro para essas milícias, além de servirem modelos para sua autoimagem: queriam ser como os gangsters do cinema ao som das músicas de Elvis Presley – serem ricos, poderosos e matarem mulheres e crianças “comunistas” sem culpa. Como se a vida fosse uma película cinematográfica.

Esse é o arrepiante e absurdo documentário O Ato de Matar (2012) de Josh Oppenheimer, produzido pelo lendário cineasta Werner Herzog (Aguirre, a Cólera dos Deuses, Fitzcarraldo, Nosferatu): ficamos chocados ao ver como esses “homens livres” foram celebrados e apoiados pelo governo local e pela mídia – em programas de TV falavam abertamente sobre suas técnicas de matar “mais humanas” sem a brutalidade necessária, enquanto o público aplaudia.

Mas O Ato de Matar não é um documentário comum – é um documentário “em processo” ou um meta-documentário: os próprios algozes da época, como o infame Anwar Congo, vêm na filmagem de Josh Oppenheimer a oportunidade de reencenarem as chacinas e os violentos interrogatórios para as câmeras. Começam a dirigir seu próprio filme dentro do documentário, assumindo os personagens dos seus filmes hollywoodianos tão amados – principalmente os filmes de gangsters e os nazi-exploited.

Para eles, com uma clara vantagem: não eram meros atores, eles fizeram tudo aquilo!

Essa inesperada proposta metalinguística de O Ato de Matar mostra as complexas relações atuais entre ficção e realidade – aquilo que chamamos de “hiper-realidade”. Se os nazistas estetizaram a política com mitologias e rituais, também os gangsters indonésios estetizaram o genocídio com a estética hollywoodiana. Para seus atos se revestirem da mesma amoralidade dos gangsters da ficção.

Para tentarem se blindar da culpa. Mas os fantasmas de milhares de mortos os perseguem…

O Filme

Além do tema da tragédia histórica esquecida pela paranoia anticomunista da Guerra Fria, Joshua Oppenheimer e sua codiretora Christine Cynn tiveram que imergir num submundo de grupos paramilitares ainda atuantes na Indonésia, agora também sob o governo de extrema-direita de Duterte.

Porém, encontraram fontes extremamente cooperativas e entusiasmadas com o fato de serem objeto do documentário. Principalmente a estrela principal: Anwar Congo, responsável direto por mais de mil assassinatos, com técnicas que orgulhosamente descreve e performa para as câmeras – mais “humanas” e eficientes, sem espalhar tanto sangue pelo chão.

Há momentos hilariantes, como quando o vice-presidente da Indonésia participa da reunião da milícia “Juventude Pancasila” e elogia com entusiasmo o contínuo serviço leal ao país, enfatizando que a nação necessita de mercenários políticos como eles para a segurança e manutenção do regime – o documentário mostra flagrantes de como os milicianos extorquem dinheiro dos pequenos comerciantes. Em outras palavras, como “vendem proteção” ao comércio local.

A extorsão é mostrada pelas câmeras e eles se mostram orgulhosas – sentem-se como gangsters nos filmes americanos. Intimidam pequenos comerciantes que não têm outra alternativa, senão dar dinheiro em espécie.

Acompanhamos o crescente entusiasmo de Anwar Congo e seus colegas, a ponto de decidirem fazer um filme dentro do documentário – maquiagens, efeitos especiais cenográficos e figurino (ainda bem que com baixo orçamento) irão reproduzir cabeças decepadas, estrangulamentos etc. Enquanto outro líder paramilitar chamado Herman Koto procura extras nas ruas locais para atuarem como “mães comunistas” e “crianças comunistas” que serão assassinadas e estupradas nas cenas do filme dentro do documentário de Oppenheimer.

Temos exemplos finais da famosa expressão “banalidade do mal” – eles realmente não pensam no que se comprometeram ou no que estão fazendo. Não têm a menor vergonha disso.

Um outro líder, já aposentado e que se transformou num empresário, Haji Anif, (mas que é convocado por Anwar Congo para atuar no filme), justifica a relatividade do conceito de “crime contra a humanidade”: “quando Bush estava no poder, Guantânamo estava certo… as Convenções de Genebra podem estar certas hoje, mas amanhã serão as de Jacarta… a definição de ‘crimes de guerra’ é feita pelos vencedores”, reflete orgulhoso. Uma afirmação que faria qualquer adepto da teoria da luta de classes concordar.

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1 comentário

  1. O documentário tem uma sequência: The Look of Silence.

    Que ninguém duvide: o sonho de Jair Bolsonaro seria poder fazer em Pindorama o que Suharto fez na Indonésia em 1965-1966.
    Bolsonaristas dispostos a ingressar numa Pemuda Pancasila tupiniquim e massacrar “comunistas” não lhe faltariam.

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