A tela do cinema como espelho, por Arnaldo Cardoso

Mais recentemente, foi pelas mãos de Nanni Moretti que a Itália foi novamente posta na grande tela para, recorrendo à memória, se ver protagonista de um episódio dos anos 1970, de singular significado, e com isso se indagar sobre seu presente.

A tela do cinema como espelho

por Arnaldo Cardoso

Berço de mestres da sétima arte como De Sica, Rosselini, Fellini, Visconti, Monicelli, Bertolucci, a Itália mais uma vez tem se olhado no espelho através de novas produções cinematográficas dirigidas por outros de seus talentosos diretores.

Do período áureo do cinema político italiano, entre os anos de 1960 e 1970 aos nossos dias, muitas mudanças ocorreram tanto no plano técnico quanto estético e ideológico, mas o cinema continua sendo um importante instrumento de crítica social e, como propôs Walter Benjamin “um tiro certeiro no inconsciente”.   

Em 2013, numa Itália marcada pelos longos anos de Silvio Berlusconi no poder, o diretor Paolo Sorrentino com seu “A grande beleza” lançou seus espectadores numa incômoda reflexão sobre a decadência de uma sociedade, a perda de valores e de visão sobre o futuro. Tendo Roma como cenário, o filme explorou a beleza da cidade eterna contrastando-a com o vazio intelectual de uma elite cínica e sem redenção.

Em 2018 Sorrentino voltou mais provocativo e irônico, com seu filme Loro (Eles), em 2 partes,  retratando a vida do ex-primeiro ministro, Silvio Berlusconi, em seus cinco últimos anos de governo, marcados por escândalos de corrupção, sexo e drogas, enevoados por símbolos de status e poder. Em entrevista durante apresentação do filme no Festival de Cannes, Sorrentino fez a polêmica afirmação de que “Berlusconi é um arquétipo da ‘italianidade’”. A bilheteria alcançada pelo filme nos primeiros dias de exibição na Itália pareceu dar força a avaliação de Sorrentino.

Mais recentemente, foi pelas mãos de Nanni Moretti que a Itália foi novamente posta na grande tela para, recorrendo à memória, se ver protagonista de um episódio dos anos 1970, de singular significado, e com isso se indagar sobre seu presente.

No documentário “Santiago, Itália”, filmado em setembro de 2017 e lançado em dezembro de 2018, assiste-se logo no início, através de imagens de arquivo, a festa que tomou conta do Chile com a vitória de Salvador Allende em eleição presidencial de 1970. Em contexto de governos autoritários de direita e de esquerda pelo mundo, a eleição no Chile representava uma possibilidade de um governo socialista, “humanista e democrático” como avalia um dos vários entrevistados que integram o filme. Na sequência vê-se o Palácio La Moneda, sede do governo, sendo bombardeado e Allende derrubado em 11 de setembro de 1973.

Em meio a perseguição política, detenções arbitrárias, torturas e assassinatos sob a ditadura sangrenta liderada por Augusto Pinochet e apoiada pelos EUA, a embaixada da Itália em Santiago se tornou um refúgio que, em poucas semanas, recebeu mais de 700 pessoas, salvando-as do pior.  

A Itália de 1973 que recusou reconhecimento ao governo Pinochet, ao tornar sua embaixada um espaço de solidariedade e refúgio para perseguidos e que depois acolheu esses cidadãos como asilados, contrasta com a Itália de hoje, governada pelo nacionalista e xenófobo Matteo Salvini, que instiga o ódio aos imigrantes e refugiados.

O diretor Nanni Moretti em entrevista por ocasião da estréia do filme disse “Decidi contar essa história hoje em dia porque boa parte da sociedade italiana está precisamente andando na direção oposta da acolhida e da solidariedade”. 

Ao resgatar o papel desempenhado pela embaixada italiana naqueles dias de terror no Chile, o documentário fala ao presente da Itália, às novas gerações, sobre responsabilidade e capacidade de se ver no outro. 

Na cena tida como a mais emblemática, quando Moretti diante de um dos líderes militares da repressão no Chile – hoje preso –, afirma não ser imparcial, reforça o caráter político do filme e rejeita pretensas neutralidades diante do inaceitável.

Para Moretti e muitos outros o cinema é político desde seu nascimento e, em momentos críticos como o que vivemos, não pode ser desperdiçada sua potencialidade.

E.T.: Em 2017, na abertura de um festival internacional de cinema o cineasta brasileiro Eduardo Escorel lançou a seguinte pergunta a cineastas, produtores e demais profissionais presentes: “Estaremos à altura do nosso tempo?” referindo-se a “capacidade de interagir com o público através de filmes que reflitam a gravidade da crise que o país atravessa”.

Passados dois anos da pergunta de Escorel, os desdobramentos da crise no Brasil produziram uma realidade sobre a qual o cinema pode provocar a reflexão sobre como chegamos onde estamos e, ainda mais importante, como retomar o caminho para a construção de uma sociedade mais justa e fraterna. Algumas recentes produções tem nos colocado diante dessas questões.

Arnaldo Cardoso é cientista político, pesquisador e professor universitário.

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