ANCINE retira filmes brasileiros: alegando isonomia, suspeita é de censura

Declarações de Bolsonaro contra produções brasileiras, incluindo a de temática LGBT, juntamente com nomeação do pastor e apresentador Edilásio Barra ao Fundo Setorial do Audiovisual, levantam suspeitas

Foto: Reprodução

Jornal GGN – A Agência Nacional de Cinema (ANCINE) retirou de todos os seus corredores de seus dois prédios, na avenida Graça Aranha e na rua Teixeira de Freitas, no Rio de Janeiro, os cartazes de filmes brasileiros. A justificativa dada pela agência é que se decidiu priorizar o setor regulador do que o fomento à divulgação das produções nacionais.

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Cartaz de “Cabra Marcado para Morrer”, de Coutinho

Um total de mais de 100 quadros, emoldurados em vidro que formavam parte das paredes dos prédios da Agência, foram retirados, hoje completamente esvaziados. Os cartazes incluíam desde novas produções que seriam lançadas em breve até clássicos do cinema brasileiro, como “Deus e o Diabo na Terra do Sol” (1964), de Glauber Rocha, “O Bandido da Luz Vermelha” (1968), de Rogério Sganzerla, e “Cabra Marcado para Morrer” (1984), de Eduardo Coutinho.

Uma televisão que exibia na entrada do edifício principal da ANCINE os trailers de filmes nacionais também foi desligada desde a última sexta-feira (29). O mesmo ocorreu no site da agência: o espaço que mostrava cartazes das novas produções brasileiras, com ficha técnica e descrição dos filmes, não existe mais.

ANCINE retira filmes brasileiros de seu site oficial

Sem explicar exatamente como as divulgações de todos os filmes brasileiros no site, em comparação a somente algumas, poderiam influenciar em uma destinação maior de recursos, a resposta do diretor de comunicação da entidade, Érico Cazarré, à Folha de S.Paulo foi que se estava priorizando a área reguladora e que entre publicitar somente algumas produções do que outras, preferiram retirar todas.

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“Havia muitos pedidos de divulgação, de festivais a eventos e palestras. Se eu fosse botar um filme, teria que ter todos. Depois, informações de distribuidores e produtores, e por aí vai. Por isonomia, optamos por não divulgar mais nada”, disse ao jornal.

“Na compreensão de que diversos agentes econômicos estão à espera de um tratamento institucional isonômico, e (…) considerando a impossibilidade de contemplar as demandas específicas de cada um, a Ancine optou por interrupção das ações de divulgação constantes”, continuou.

Duas teses correram as redes sociais e os bastidores da imprensa nesta quarta-feira (04) para justificar a medida: uma a de que a Ancine não queria mais divulgar filmes brasileiros que contrariam as posições políticas do atual governo de Jair Bolsonaro. A segunda suspeita é a nomeação do pastor e apresentador Edilásio Barra ao Fundo Setorial do Audiovisual, ocorrida há poucas semanas.

A primeira não substitui a segunda possível razão. Apesar de a ANCINE negar que a medida tenha relação com posições políticas, as declarações do governo de Jair Bolsonaro, que já proibiu edital com filmes de temática LGBT no Brasil, ocorrem ao mesmo tempo da nomeação do nome conservador ao FSA.

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Edilásio Barra ao lado de Bolsonaro – Foto: Reprodução

O Fundo Setorial do Audiovisual (FSA) toma conta do Fundo Nacional da Cultura, que é responsável pelo desenvolvimento da indústria audiovisual brasileira, fomentado com recursos da Condecine (Contribuição para o Desenvolvimento da Indústria Cinematográfica Nacional) e da Fistel (Fundo de Fiscalização das Telecomunicações).

Bolsonaro também já havia mencionado em uma de suas transmissões ao vivo pelo Facebook, sobre as agendas e posições semanais do mandatário, que estaria disposto a fechar a ANCINE. “Não posso admitir que, com dinheiro púlico, se façam filmes como o da Bruna Surfistinha. Não dá. Não somos contra essa ou aquela opção, mas o ativismo não podemos permitir, em respeito às famílias, uma coisa que mudou com a chegada do governo”, havia dito.

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E os próprios bastidores da ANCINE também revelaram a suspeita: “Isso tem cheiro de censura”, disse Vera Zaverucha, ex-diretora da Agência à Folha de S.Paulo. Apesar de Vera não integrar mais o posto na ANCINE, ela apresentou uma carta à agência questionando a retirada dos quadros no prédio. “Lamentável”, completou.

 

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