Carma, alucinações lisérgicas e o airbag psicodélico da mente no filme “The Wave”, por Wilson Ferreira

“The Wave” descreve o quebra-cabeças que o protagonista terá que resolver enquanto está perdido nas alucinações lisérgicas: qual a mensagem que o Universo está querendo passar para ele?

por Wilson Ferreira

 

Quando morremos saltamos para o desconhecido. Mas com um “airbag psicodélico”: a mente liberaria substâncias químicas para amenizar o medo da morte criando telas mentais alucinógenas. Porém, o carma pode transformar essa “viagem” numa “bad trip”. Esse é o argumento central do filme “The Wave” (2019), um mistério dramático e psicodélico: um advogado corporativo com uma típica vida consumista de classe média comemora sua promoção numa noite de festa e bebedeira. No processo, ele ingere uma misteriosa droga que o faz imergir em flash backs compostos por saltos no tempo, locais e realidades. Com tons budistas, hinduístas e gnósticos, “The Wave” descreve o quebra-cabeças que o protagonista terá que resolver enquanto está perdido nas alucinações lisérgicas: qual a mensagem que o Universo está querendo passar para ele? Filme sugerido pelo nosso leitor Alexandre Von Keuken.

Morrer é dar um salto para o desconhecido. Para amortecer esse salto, a mente criaria pequenos airbags psicodélicos durante o mergulho – na verdade, o cérebro liberaria substâncias químicas para amenizar o medo da morte. Mas há um problema: o carma – o efeito das nossas ações quando estávamos vivos, que pode produzir desequilíbrios. E o Universo reivindica a Justiça, ou melhor, a volta do equilíbrio e harmonia para consertar os efeitos das nossas ações e escolhas. Então, as coisas podem se complicar: essa droga gerada pelo cérebro poderia criar uma, por assim dizer “bad trip”, até o momento em que você ouça o Universo e tudo volte ao equilíbrio.

Esse é o argumento filosófico do filme The Wave (2019), com tons de budismo, hinduísmo e gnosticismo – o “airbag psicodélico” na morte estaria na criação de uma “tela mental”, alucinações imersivas nas quais revivemos nossas ações, pesadelos, traumas e sonhos.

Em The Wave acompanhamos um protagonista que inadvertidamente experimenta uma droga que recriaria artificialmente esse “airbag” do momento da morte, durante uma noite de festa e bebedeira. Para as consequências se tornarem imprevisíveis e incontroláveis.

Sem essa introdução filosófica, o filme pode à primeira vista parecer anacrônico – lendo a sinopse, The Wave sugere ser mais um filme dentro de um subgênero que proliferou nas décadas de 1980-90: o “desconstruindo o yuppie” no qual o protagonista sempre é um profissional certinho e financeiramente bem sucedido que de repente se torna prisioneiro de uma sequência de cadeia de eventos caótica com infelizes coincidências que o desconstrói. Para daí renovar-se espiritualmente e se reinventar.

Depois de Horas, Procura-se Susan Desesperadamente, Totalmente Selvagem, Férias Frustradas, Antes Só do que Mal Acompanhado, Crazy People, American Beauty são alguns exemplos dessas aventuras de desconstruções de yuppies – narrativas que seguem pessoas anti-éticas, com falhas de caráter, covardes ou conformistas e que de repente descobrem o quanto foram idiotas na maior parte de suas vidas.

Mas o filme dirigido por Gille Klabin coloca alguns ingredientes a mais na viagem caótica de desconstrução: droga alucinógena, esoterismo e gnosticismo – principalmente a ideia de gnose pós-morte, abordada em filmes como Enter The Void e O Terceiro Olho – veja os links abaixo dessa postagem.

Além do delírio visual psicodélico de muitas sequências de The Wave, há um sincero mergulho dos atores na narrativa – principalmente do protagonista interpretado pelo ator Justin Long: ele próprio vivenciou uma experiência involuntária ao fumar um cigarro que lhe parecia maconha, mas na verdade estava umedecido com PCP (Fenciclidina), conhecido como “pó de anjo” ou “pó da Lua”. Com efeitos alucinógenos que inspiraram o argumento e a narrativa do filme.

 

 

The Wave teve a sua estreia mundial no Fantastic Fest de 2019, em Austin, Texas. Embora conte com uma narrativa que lembra muito Se Beber não Case! (Hangover), não é uma comédia. É um mistério dramático e psicodélico sobre uma viagem composta por saltos entre tempos, locais e realidades, quando o protagonista vai montando o quebra-cabeças do que aconteceu na noite anterior de uma festa que parece não ter acabado nada bem.

O Filme

Frank (Justin Long) é um advogado corporativo de uma empresa de seguros que conseguiu um feito profissional que trará um grande lucro para a companhia: conseguiu negar o pagamento de uma apólice de seguros para a família de um oficial bombeiro que faleceu por problemas médicos – ele supostamente não teria cumprido as recomendações médicas, o que, pela retórica legal, caracterizaria suicídio… e a apólice não cobre suicídios…

Bingo! Frank dá o “enter” no teclado e envia o e-mail do seu relatório para a direção da companhia, abrindo o caminho para a sua promoção e o sucesso. Enquanto para a família do falecido, está reservado à miséria e o desespero.

Seu amigo de escritório Jeff (Donald Faison) insiste que eles precisam comemorar naquela noite, embora no dia seguinte Frank tenha que apresentar o relatório numa reunião pela manhã com a cúpula da empresa.

Mas Frank é casado, vive num subúrbio de classe média em tons pastéis com sua esposa materialista Cheryl (Sarah Minnich) cuja única preocupação é saber com qual cartão vai comprar um vestido novo e quando Frank vai levar o cão para fazer xixi e cocô na rua. Ele volta para casa, até cair a ficha de como sua vida é chata. Ele merece mais! Por isso, acaba ligando para o amigo Jeff, aceitando sair para uma aventura de comemoração e bebidas naquela noite.

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