Cartografias AstroGnósticas do Além em “Destino Especial”, por Wilson Ferreira

por Wilson Ferreira

Um filme que ecoa John Carpenter, Spielberg e Stephen King. “Destino Especial” (Midnight Special, 2016) é muito mais do que um filme AstroGnóstico – categoria de filme gnóstico no qual nossa empatia se volta para aliens exilados nesse mundo tentando retornar para sua casa, como uma metáfora da própria condição humana. Um menino dotado de poderes especiais tenta retornar para seu lar, fora desse mundo, enquanto uma seita religiosa e o Governo tentam capturá-lo. Mas, diferente de muitos outros filmes Astro Gnósticos, o lar distante não está nas estrelas, planetas ou universos alternativos. Mas muito mais perto do que possamos imaginar numa espécie de nova “cartografia do além”: se estamos exilados nesse mundo, de onde viemos?

Os filmes AstroGnósticos (subgênero dos filmes gnósticos, ao lado dos CronoGnósticos, PsicoGnósticos, TecnoGnósticos – clique aqui) possuem um forte centro narrativo. Não importa o gênero (seja road movie, thriller, aventura, sci fi), sempre está lá, no élan narrativo, a velha desconfiança gnóstica de que não pertencemos a esse mundo – apesar de vivermos em um mundo belo aparentemente dado a nós pela graça divina, o atrito com essa existência cria estados emocionais que levam à depressão, loucura, assassinato etc.

Seríamos como aliens, exilados nesse mundo, tentando encontrar de alguma maneira o caminho de volta, seja pela religião, misticismo, seitas, drogas lisérgicas ou tecnologia. E aqueles que, de alguma maneira, manifestam essa natureza “alienígena” são perseguidos – ou por uma massa de pessoas desesperadas ao vê-lo como um “Deus”, ou pelas forças governamentais que têm o interesse em manter essa massa na ignorância a respeito da sua própria condição.

Do pequeno alien do filme ET ao misterioso Newton (David Bowie) em O Homem Que Caiu na Terra, por que esses protagonistas nos causam tanta empatia? Será por que no fundo é assim que nos sentimos?

Destino Especial (Midnight Special, 2016), do diretor Jeff Nichols, é mais um filme que vasculha esse arquétipo contemporâneo dessa sensação de sermos estrangeiros, mesmo dentro de nossos lares e cercados por entes queridos.

Um menino tenta retornar para ser verdadeiro lar, “fora” desse mundo seguindo coordenadas geográficas bem precisas, auxiliados pelos seus pais em uma narrativa que combina aquilo que é mais caro no cinema norte-americano: as perseguições de um road movie e os mistérios de uma boa ficção científica.

E atrás do menino em uma perseguição implacável, a religião e o Governo – uma estranha seita religiosa (chamada “O Rancho”) e o FBI. 

Junto com tudo isso, Destino Especial conta com uma narrativa inteligente que ecoa Stephen King, Spielberg e John Carpenter, com uma questão fundamental para aqueles que sentem-se como Estrangeiros: mas, afinal, somos exilados de onde? De algum planeta distante do outro lado do Universo? De alguma realidade alternativa ou mundo paralelo? Viemos do “Nosso Lar” dos espíritas kardecistas? Ou apenas esperamos o Juízo Afinal aguardando que Deus nos leva para a Nova Jerusalém?

Destino Especial dá uma abordagem diferente para essa verdadeira cartografia do além: não existe um “fora” daqui – em outro lugar distante como o céu. Esse outro mundo já está aqui, entre nós. Mas não o sentimos.

 

 

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O Filme

Hollywood sempre teve uma obsessiva preocupação em criar narrativas em que tudo seja explicável e evidente desde o início: conspirações ou motivações dos personagens sempre têm que estar evidentes em diálogos expositivos, voz over ou narrações excessivamente explicativas para que o espectador entenda o que está ocorrendo a cada momento. Tudo por extenso.

Mas Destino Especial respeita a inteligência do espectador, deixando que toda a explicação venha muita mais pela emoção e pelas imagens do que pela narrativa. Jeff Nichols parece entender o poder da linguagem cinematográfica, na qual as imagens podem ter o poder de falar por si mesmas.

Logo nas primeiras sequências, caímos literalmente na estrada com os protagonistas, sem maiores explicações sobre o que está ocorrendo. Teremos que buscar pistas narrativas e visuais para aos poucos montarmos o quebra-cabeças.

 Dois homens, Roy (Michael Shannon) e Lucas (Joel Edgerton) estão em um quarto de motel assistindo às notícias sobre a perseguição a sequestradores de uma criança. Encontramos um menino num canto entre duas camas lendo uma HQ com uma pequena lanterna e usando um tipo de óculos escuros de natação. Seu nome é Alton (Jaeden Lieberher) e logo percebemos que ele é “especial”.

Roy e Lucas fogem com o menino no banco de trás de um carro por uma estrada na madrugada. Guiam com óculos de visão noturna para poderem desligar as luzes do veículo e não serem rastreado pelos seus perseguidores – uma seita religiosa chamada “O Rancho” e agentes especiais do FBI.

Toda aquela seita cresceu em torno das qualidades especiais de Alton. Seu pai adotivo e líder da seita, Calvin Meyer (Sam Shepard), veneram o poder de Alton em transmitir algo transcendente através de fortes luzes que emanam dos seus olhos. Principalmente, uma sequência numérica e a data de alguma coisa importante que acontecerá. Claro que, para a seita, será o próprio Juízo Final. A sequência parece determinar algum local preciso no qual ocorrerá algum misterioso evento.

 

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Porém, para o FBI não é nada disso, principalmente quando descobrem que a sequência numérica coincide com algum tipo de código secreto do Governo. Um agente especial chamado Paul Sevier (Adam Driver), analista de segurança nacional, tenta entender o que aquela seita sabe sobre o garoto, enquanto o FBI tenta colocar as mãos nele. E como o menino teve acesso a esse código secreto.

Na fuga, Alton vai ao encontro da sua mãe Sarah (Kirsten Dunst), quando acompanhamos o drama de pais que amam seu filho, mas que devem ajuda-lo a encontrar seu verdadeiro destino para, então, certamente deixa-lo. 

Percebemos que a narrativa está nos conduzindo para um território estranho e desconhecido, nos fazendo lembrar de Starman (1984) de John Carpenter ou ET (1982) de Spielberg. Mas há algo mais.

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2 comentários

  1. Como conversei com você

    faz uns 8 anos que leio suas análises aqui e no Cinegnose.Tenho aprendido muito. Até quando ainda não vi certos filmes, aprendo por signos, com a linguagem, com seu conhecimento.

    E quando você vai além da cinematografia… compartilho com prazer.

    Sinto que quanto mais acessível, mais se atinge uma parcela que quer o saber, mas se perde nisso.

    Obrigada, Wilson.

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