Comentário sobre o Oscar (1), por Walnice Nogueira Galvão

Em 2021, e com enfática aprovação de todo o mundo, destaca-se o comprometimento sem restrições do Oscar com a diversidade.

Comentário sobre o Oscar (1)

por Walnice Nogueira Galvão

Um apanhado das linhas gerais que presidiram à premiação do Oscar 2021 pode esclarecer suas principais tendências. Antes disso, é bom lembrar que os filmes já estão disponíveis em diferentes plataformas, para que seja possível vê-los,  assessorando nossa fruição e nosso juízo.

Em 2021, e com enfática aprovação de todo o mundo,  destaca-se o comprometimento sem restrições do Oscar com a diversidade. Diversidade de gênero, diversidade de etnia, diversidade de … diga aí, e ela estará contemplada neste Oscar. Grande avanço com relação aos anteriores, e até bem recentemente, quando de repente se percebeu que o Oscar, e a Academia constituída pelo corpo de eleitores que votam nele, era dominado por homens brancos adultos, que não prestavam atenção ao trabalho cinematográfico de mulheres e de negros. Para dizer o mínimo…

Não faz muito tempo, a diretora negra Ava Duvernay, nova mas não estreante, fez o excelente Selma, sobre a marcha liderada por Martin Luther King, marco incontornável da campanha pelos direitos civis nos anos 60. Nem menção obteve, pois para aquela Academia o filme tinha dois defeitos, era sobre negros e dirigido por uma mulher (negra). Pior ainda, participantes do filme foram à estreia com camisetas “Não consigo respirar”, em protesto contra o assassinato, público e filmado, do negro George Floyd pela polícia branca, suscitando objeções de membros da Academia, que resolveram boicotar o filme.

Há pouco, em meio às crescentes revelações de abuso sexual do magnata hollywoodiano  Harvey Weinstein, afinal condenado a 23 anos de prisão, as mulheres do cinema convocaram e repassaram a palavra de ordem de comparecerem vestidas de preto à premiação do Golden Globe 2018; e assim foi feito. Oprah Winfrey, feminista histórica especialmente homenageada na ocasião, soltou o verbo em seu discurso de agradecimento. Foi um belo gesto coletivo.

Não custa lembrar que o movimento MeToo (Eu também), que se desdobraria no Time´sUp (Agora chega), nasceu e foi sustentado pelas intrépidas mulheres de Hollywood.

Ante a grita geral – se estão lembrados, e isto se passou apenas há dois ou três anos –a Academia foi levada a rever sua própria composição e a abri-la às minorias, os resultados não se fazendo esperar. Agora, se somarmos todas as indicações, em todas as categorias, constatamos a presença de 70 mulheres, o que é motivo de regozijo e um recorde desde a fundação do Oscar: nunca tantas mulheres foram indicadas. E quase não dá para acreditar, quando verificamos que, dos cinco indicações a melhor diretor(a), duas são mulheres e três são homens. Ou seja, quase em pé de igualdade.

Mas, como não será difícil de perceber,  a diversidade impera igualmente nos assuntos e nos candidatos nas várias categorias.

No capítulo das atrizes, a grande Viola Davis foi forte concorrente em  A voz suprema do blues, vivendo uma cantora dos primórdios do jazz, a famosíssima Ma Raney, reputada por sua radicalidade e intransigência. É oportunidade para nos despedirmos de outro grande ator, prematuramente falecido aos 43 anos, que contracena com ela: Chadwick Boseman, astro do filme de orgulho étnico Pantera Negra.

Outro filme tem projeto semelhante, mais uma biografia de uma diva do jazz, Estados Unidos vs. Billie Holiday, estrelada por Andra Day, e a perseguição policial racista de que a cantora foi alvo a vida toda. Mas o colegiado preferiu uma brilhante representante da arte, branca esta, Frances McDormand, no filme Nomadland, que levaria o Oscar de melhor atriz.

A categoria melhor ator contou com dois peso-pesados, Anthony Hopkins em Meu pai e Gary Oldman  em Mank, revivendo Joseph Mankiewicz, o genial roteirista, alcoólatra e rebelde, do clássico de Orson Welles Cidadão Kane.  Ambos ingleses, ambos magistrais, já trabalharam inclusive em mais de um filme juntos. O leitor deve lembrar-se do primeiro como o tétrico Hannibal o Canibal, que lhe valeu o Oscar, e o segundo como Winston Churchill em O destino de uma nação, outro Oscar. Aos 83 anos, Hopkins, grande ator,  levou mais um Oscar, com toda justiça.

Walnice Nogueira Galvão é Professora Emérita da FFLCH-USP

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