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Contos de fadas, por Walnice Nogueira Galvão

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Contos de fadas, por Walnice Nogueira Galvão

Contos de fadas 

por Walnice Nogueira Galvão

Contos de fadas podem gerar filmes fora do padrão Disney, como demonstrou Jacques Démy. O cineasta da Nouvelle Vague granjeou fama de original, porque não seguia as receitas. Conheceu enorme sucesso com Os guardachuvas do amor, uma ópera moderna, toda cantada num fio de voz pela juvenilíssima Catherine Deneuve, que mal estreava seus 17 anos. Ganhou a Palma de Ouro em Cannes e tornou-se cult. Depois viria outra  proeza com Les demoiselles de Rochefort. Ambos são contos de fadas modernos, lindos, coloridíssimos.

Mas conto de fadas mesmo, não modernizado, é outro filme de Jacques Démy. Em Pele de asno, baseado em Charles Perrault,  a protagonista passa o filme inteiro coberta pelo couro do burro, antes que o príncipe descubra o anel que ela deixou cair dentro de um bolo.  O pai incestuoso, vivido por Jean Marais, no final chega para o casamento de helicóptero, versão atualizada do deus ex machina do teatro clássico.  O anacronismo é uma piscadela para o espectador, semelhante ao tênis de grife que Sophia Coppola incluiu entre os calçados de época na sapateira de Maria Antonieta. Em ambos, trata-se de um recurso anti-ilusionista de estranhamento. Os três filmes de Jacques Démy foram servidos à perfeição pela maravilhosa música de Michel Legrand, a quem Pele de asno  rendeu o Oscar de melhor trilha sonora.

Outro caso é uma reduzida série de filmes de Jean Cocteau, que não era um profissional do cinema mas um artista cujos talentos iam da poesia às artes plásticas, célebre também no teatro e na prosa. Seus filmes são sobretudo poemas filmados. O mais renomado deles é A bela e a fera, de atmosfera mágica impecável, em que a fera quase morre de amor. Penetrado de surrealismo,  multiplica os efeitos, pondo em cena, entre outros, candelabros constituídos por braços humanos que saem da parede a intervalos regulares, empunhando velas acesas.

E Orfeu émais surrealista ainda. No antigo mito grego, tão reproduzido em literatura, música, artes visuais, Orfeu, o maior poeta do mundo, que até os animais apaziguava com sua lira, perdeu a esposa e ficou inconsolável. Os deuses lhe facultaram ir aos infernos buscá-la, mas se olhasse para trás a perderia para sempre – e foi o que aconteceu. O Orfeu de Cocteau é um poeta dos dias de hoje, fascinado pela Princesa Morte, que o disputa à esposa Eurídice. Há mensageiros do outro mundo que circulam de motocicleta, ou então travessia  de espelhos que são passagens para os mundos ínferos.Todos são filmes de arte.

Os amores de Astrée et Céladon, filme de Eric Rohmer, outro nome da Nouvelle Vague, aproveita uma novela de Honoré d`Urfé. Árcade e barroca, com pastoras e pastores que tocam lira, situada numa aldeia gaulesa do séc. V, não é uma novela de cavalaria transposta para a tela, mas sim o que pensavam os do séc. XVII que era uma novela de cavalaria típica da Idade Média. Uma história de amores contrariados ou realizados: uma beleza de fantasia e devaneio lírico, que transcreve falas do texto original.

Perrault  era um bom compilador – não só porque redigia os relatos orais que ouvia, como consta, mas também porque compilava narrativas que já estavam escritas por outrem. E sobretudo por mulheres, posteriormente tornadas invisíveis e apagadas da História. Por exemplo, o mais famoso deles, A bela e a fera, já tinha sido redigido e publicado, sendo muito divulgado à época. Sua autora pertenceu a um grupo de mulheres que escreviam contos de fadas no séc. XVIII, na França. Também o conceito de “conto de fadas” foi criado por ela.  Quem vem estudando e revelando essas e outras preciosidades, que pesquisa mundo afora,  é Susana Ventura, autora de A Bela e a Fera e outros contos de fadas de Madame Leprince de Beaumont, que acaba de sair. Um belo livro, todo ilustrado e multicor. Muito conhecida, e com livros de sua autoria no gênero infanto-juvenil, Susana tem biblioteca com seu nome em Osaka, no Japão – raríssima homenagem a exigir muito respeito.  Outro de seus livros, Um lençol de infinitos fios, tratando dos refugiados entre nós, vendeu 100 mil exemplares: ninguém pode dizer que falte interesse.

Walnice Nogueira Galvão é Professora Emérita da FFLCH-USP

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