Crítica de Dor e Gloria! Sinestesia, por Érico Andrade

Almodóvar funde as diversas linguagens artísticas numa só película. Assim, as artes plásticas, o teatro, a literatura, o próprio cinema, ganham corpo numa narrativa cinematográfica sobre o desejo.

Enviado por Antonio Pereira

Crítica de Dor e Gloria! Sinestesia

Érico Andrade

Cor, sabor, cheiro, textura: sinestesia. As diversas linguagens artísticas sobretudo na contemporaneidade não raro almejam transpassar a barreira dos sentidos para as quais se voltam prioritariamente. A estratégia do diretor Pedro Almadóvar em Dor e Gloria para lidar com esse desafio estético é inovadora. Ele funde as diversas linguagens artísticas numa só película. Assim, as artes plásticas, o teatro, a literatura, o próprio cinema, ganham corpo numa narrativa cinematográfica sobre o desejo.

A temática é cara ao diretor. Sabemos. O que muda é forma como ele conduz o desejo por meio dos afetos de dor e glória. É um passeio nas artes para lhes tirar o que é mais estético, seguindo Maurice Merleau-Ponyt: dar existência visível àquilo que a visão comum crer ser invisível. É por isso que no filme de Almadóvar não importa mais a distinção – frequentemente artificial entre ficção e realidade – porque o que ele torna visível é o sofrimento que borra as fronteiras da percepção para se inscrever na nossa existência e em tudo aquilo que emana dela. O que é real, o que importa, é o sofrimento. Para ser mais preciso; a forma como a arte lhe oferece um contorno para que nossa percepção saia do ordinário e possa imergir no que nos conecta à terra: o tempo.

Com a arte não precisamos, para continuar um pouco mais com Merleau-Ponty de um sentido muscular para ter a voluminozidade do mundo. É por isso que os músculos, as articulações, expostos nas tomografias, são apresentados em Dor e Glória, compondo a montagem do filme (são cenas) e de um modo dinâmico. Elas flutuam. Não são resultados de um exame. É arte. Elas dançam diferentemente da personagem principal, presa à dor crônica, e mostram a voluminozidade da dor. Em outras palavras, ela são um bale de imagens cuja autonomia mostra paradoxalmente a falta de autonomia de quem suporta a glória a base de medicamentos. Como, aliás, o diretor frisa em repetidas cenas em que a quantidade de medicamentos é sublinha pela diversidade de suas cores.

Se podemos tomar o bale das tomografias como uma espécie de instalação que figura como cena do filme, é no teatro que Almadóvar funde ficção e realidade para que num monólogo – expressão mais literária do teatro – sobre o vício e o amor os momentos de felicidade retornem com a presença de um amor que dá matéria à memória. Textura.
E é a textura das artes plásticas que adensam as imagens do filme. O quadro do filme Sabor é desenhado por uma boca cuja língua é morango. Além de presentificar o invariavelmente correto estudo do vermelho, sobre o qual voltaremos mais na frente, indica, pela ambiguidade do sabor do morango, a ambiguidade dos sentimentos. E é o vermelho que conectas os dois quadros principais do filme. Sabor e Vício. Prazer e dor. É pelo vermelho que Almadóvar mantém a relação umbilical entre esses afetos em cujo apogeu repousa a apresentação da heroína; do prazer que alivia a dor e da dor que é desprazer para as populações responsáveis por sua distribuição, os traficantes. A Espanha pobre que assombra a memória do narrador.

É na ambivalência do desejo que o cinema de Almadóvar faz casa. São os afetos que roubam nossa respiração e preenchem a atmosfera de desejo nas cenas em que Salvador e Alberto percorrem os corredores da memória ou nas cenas quando Salvador lembra do seu primeiro, para recuperar a imagem de Manuel Bandeira, alumbramento. Com essas cenas Almadóvar enquadra como nossa relação com a memória é marcada por aquilo que nos escapa no presente. Afetos que não mais sentimos, mas que mantêm o vigor de ter sido. É a presença do que falta. E é também a velhice que realiza o que o corpo não comporta mais fazer. Certos sabores passam a pertencer apenas à memória. Viram quadro. São como alguns filmes de arte que posteriormente se vêm fadados a exibições esporádicas em salas rareadas de filmes alternativos.

Se a arte é, como dizia uma amiga, adiar a nossa morte, o cinema de Almadóvar mostra como ela – a morte – pode ser lenta e gradual para receber o nome de velhice. Ela acontece quadro a quadro no roteiro aberto de nossas vidas. E é na profusão de vermelhos, presente na última cena do filme, que aprendemos que a memória retém matizes de uma narrativa que como na arte é travessia.

Érico Andrade – Filósofo, psicanalista em formação, professor da Universidade Federal de Pernambuco

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