Democracia em Vertigem: documentário brasileiro reflete desalento global

Cineasta Petra Costa conversou com Luis Nassif sobre as críticas ao seu trabalho que, em uma semana de Netflix, tem quantidade de views superior a de séries de ficção importantes, como Mecanismo e Stranger Things

Petra Barros durante a produção de Democracia em Vertigem. Foto: Diego Bresani/Divulgação

Jornal GGN – “O que têm falado indianos, ingleses, americanos, equatorianos para mim [sobre o meu documentário] é: ‘parece que é a história do meu país, de como [aconteceu] a ascensão da direita, da extrema direita e das polarizações, das divisões [políticas] cada vez mais fortes que vão deteriorando o tecido que compõe a democracia”, comentou a cineasta Petra Costa, diretora de Democracia em Vertigem, em entrevista ao editor-chefe do GGN, Luis Nassif.

O documentário foi lançado mundialmente no dia 19 de junho, no Netflix, e vem recebendo elogios da crítica internacional, suficientes para ser considerado pela revista especializada IndieWire como um dos possíveis documentários nomeados para concorrer ao Oscar no próximo ano.

“Muitos me falam assim: ‘nossa, se a Hillary [Clinton] tivesse ganhado a eleição [presidencial nos Estados Unidos em 2016], era exatamente isso que teria acontecido com ela. O Trump não iria reconhecer a vitória dela e pedir o impeachment'”, contou ainda a cineasta sobre o que tem escutado de estrangeiros à respeito do documentário que, calcula-se, teve o trailer visualizado por mais de 10 milhões de pessoas.

O trabalho de Petra é uma síntese do desalento global com a democracia e mostra que os brasileiros não passam por uma experiência isolada. A transmissão desse sentimento globalizado é que deve ter contribuído para que o Netflix se interessasse por veicular o documentário na sua plataforma.

Petra conta que o trabalho para a produção do filme começou em 2016. Na época, ficou claro para ela que a operação Lava Jato não era “uma investigação normal, imparcial”.

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“Fomos para Brasília, no comecinho de abril de 2016 e, entre idas e vindas, ficamos lá quase até o final de agosto, quando foi o final do [processo de] impeachment [da ex-presidente Dilma Rousseff].

“Logo depois da primeira filmagem na Câmara dos Deputados, fiz um teaser que apresentei para eles [Netflix], e aí se interessaram”.

O documentário da brasileira começou a receber críticas positivas primeiro da mídia internacional. Estreou na noite de abertura do Festival de Sundance e, em seguida, foi apresentado em vários festivais importantes de Copenhagen, Genebra, Nova Zelândia e Nova York, só para citar alguns lugares.

As visualizações do documentário na plataforma do Netflix está em 1,8 milhões, em menos de uma semana desde o seu lançamento. A quantidade de views já é superior à de séries de ficção importantes, como Mecanismo e Stranger Things.

Petra Costa é autora do filme “Omo e a Gaivota”, de 2015, que fala sobre a gravidez, e recebeu vários prêmios, e Elena, de 2013, um romance sobre o suicídio de sua irmã, vencedor de quatro prêmios no Festival de Brasília, de Melhor Documentário no Films de Femmes (França) e com menção honrosa no Festival Internacional de Cinema de Guadalajara (México) e no Festival Internacional de Documentários ZagrebDox (Croácia).

“Acho que os meus dois primeiros filmes eram um pouco a exploração de como o pessoal é político, então um suicídio ou uma gravidez que, geralmente, não são representados de uma forma mais profunda. Acho [que esses temas] são representados de formas muito machistas no cinema mundial e eu queria dar mais uma perspectiva de uma mulher olhando para essas questões. Então era isso, de como o pessoal é político”, observa.

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“Mas, nesse filme, [Democracia em Vertigem] acho que eu inverti a equação: é como o político é pessoal. Então, é como que aqui, desde 2016, e em tantos lugares do mundo, tantas pessoas estão passando por traumas políticos, de perceber que o quê a gente tomava como certeza de uma democracia que ia progredir, ficar sempre mais forte, com ajustes aqui e ali, de repente ficou completamente incerto e o trauma que isso gera, as incertezas, as inseguranças e o caminho de vivência pessoal e de dor pessoal de cada um. Eu queria falar disso”.

Escute a seguir o áudio da entrevista na íntegra.

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4 comentários

  1. O crescimento da extrema direita reflete,de certa forma,o desencanto com o capitalismo predatório que domina o planeta e, é um paradoxo pois,é exatamente essa direita que dissemina essa forma de economia. Baseada na desigualdade e exploração desenfreada das economias mais frágeis. A décadas Bob Dylan fala isso em suas músicas,subliminarmente citando exemplos como a Apple explorando trabalhadores indianos e chineses e seu criador,o maior plagiador da história do capitalismo,dando uma de bom samaritano. Os exemplos são muitos e,as crianças esqueléticas de Biafra,que vi no Cruzeiro aos dez anos,continuam morrendo de fome. A economia deveria ser compassiva e humanitarista pois, só e apenas assim haverá democracia!

  2. sintese do motivo do meu choro:
    “certeza de uma democracia que ia progredir,
    ficar sempre mais forte, com ajustes aqui e ali,
    de repente ficou completamente incerto e o
    trauma que isso gera, as incertezas, as
    inseguranças e o caminho de vivência
    pessoal e de dor pessoal de cada um”.

  3. …precisamos dar uma olhada na literatura que misture a catastrofe, o fantástico e o imponderável ….sobre o acidente do césio 137, as barragens da Vale, o golpe.

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