Em “Corpo e Alma”, a gnose possível através de um sonho lúcido, por Wilson Ferreira

por Wilson Ferreira

À primeira vista, o filme húngaro “Corpo e Alma” (Teströl és Lélekröl, 2017), indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, é um conto bizarro e brutal sobre amantes em um matadouro de gado: um casal de funcionários que consegue se encontrar apenas quando dormem, no mundo dos sonhos. Mais exatamente, em um sonho recorrente: um veado e uma corça procurando folhas verdes em uma paisagem de inverno coberta pela neve. A diretora Ildikó Enyedi faz uma incursão no dualismo gnóstico Corpo/Alma: a matéria como uma prisão do espírito. E o sonho como o meio para superar essa divisão. Sem incorrer nos clichês hollywoodianos e motivacionais do tipo “todos os sonhos são possíveis!”. Mas através da imersão em um tipo especial de sonho: o sonho lúcido. Filme sugerido pelo nosso leitor Felipe Resende.

Desde a “Interpretação dos Sonhos” de Freud, o simbolismo dos sonhos foram considerados pessoais e intransferíveis. Duas pessoas até poderiam sonhar com objetos ou situações parecidas. Mas os significados seriam necessariamente diferentes. 

Isso até Karl G. Jung entrar em cena na Psicanálise com o seu conceito de Arquétipo: nossos sonhos se conectariam com outros sonhos ou simbolismos já sonhados pela espécie humana – as narrativas oníricas individuais teriam uma motivação mais profunda, vinda diretamente dos símbolos do inconsciente coletivo no qual a humanidade está imersa.

Se em Freud o sonho é a re-encenação da interdição do desejo ou a sua realização simbólica, em Jung o sonho teria a ver com as aspirações da própria espécie. Porém, ficariam algumas questões: os sonhos seriam uma mera questão de escapismo  da realidade? Apenas uma válvula que libera a pressão do inconsciente sobre o Ego? Ou os sonhos teriam um potencial para transformar a própria realidade que impede os nossos desejos?

Indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, o filme húngaro Corpo e Alma (On Body and Soul, 2017) escrito e dirigido por Ildikó Enyedi, faz uma incursão por essas questões dos sonhos da alma através de um conto estranho e brutal sobre amantes. É uma história de amor que se desenrola através de uma paisagem secreta e interior dos sonhos de dois amantes, em um mundo exterior brutal e sangrento: um abatedouro de gado.

 

A premissa do filme já é apresentada logo nas primeiras cenas: imagens magníficas de uma veado e uma corça, sozinhos, em uma impressionante paisagem de inverno com árvores desfolhadas e o chão coberto pela neve. Juntos procuram folhas verdes sob a espessa camada. Percebemos a força e virilidade do macho que tenta se aproximar de uma corça que, em resposta, procura se manter distante.

Corta! Em seguida o espectador cair em um brutal mundo real do qual o diretor não nos poupa: vemos vacas, cujo fim brutal estamos prestes a testemunhar (as cenas são propositalmente sangrentas e apenas para estômagos fortes…). Parecem olhar para nós com olhares cautelosos e suplicantes, como se suspeitassem o que está por vir. O que acompanhamos é uma carnificina organizada, metodológica e científica de uma indústria de carnes.

Nesse ambiente duro no qual trabalham açougueiros com espíritos embrutecidos, surgirá uma improvável história de amor entre dois funcionários. E os sonhos serão os protagonistas dessas estranha narrativa: dois amantes que descobrem estar sonhando o mesmo sonho figurado na sequência de abertura do filme.

Mas descobrirão que há muito mais: eles poderão deliberadamente se encontrar naquele mundo onírico, personificando um casal de cervos. 

O que Enyedi nos propõe nessa dualidade corpo e alma, realidade e sonho é ir muito mais além da visão dos sonhos como uma realização postiça dos nossos desejos mais secretos. E muito menos, entrar no senso comum hollywoodiano e motivacional de que todos os sonhos podem se tornar verdade se formos persistentes.

Surpreendentemente, Enyedi vai mais além de tudo isso: primeiro, ao incursionar na clássica dualidade gnóstica entre corpo e alma (o corpo como a prisão da luz espiritual); e segundo, a ideia de que os sonhos nada valem para a realidade se não forem lúcidos – o verdadeiro sonho autoconsciente no qual conseguimos superar a mera satisfação alucinatória dos desejos para permitirmos que a força onírica entre na nossa realidade. 

Será que Corpo e Alma propõe uma gnose nos sonhos?

 

O Filme

Olhando para todas aquelas cenas do abate dos animais, do alto do seu escritório o diretor financeiro da empresa Endre (Géza Morcsányi), um sujeito de meia-idade magro, entediado e com um braço atrofiado, observa os funcionários no pátio. Ele é o homem encarregado daquela carnificina comercial organizada.

Até que um dia, ele observa um novo rosto entre os funcionários: uma mulher tímida e insegura chamada Maria (Alexandra Borbély). Ela não é uma funcionária comum. É a nova inspetora de qualidade enviada pelo governo. Uma mulher extraordinariamente precisa, com uma memória fotográfica, capaz de perceber milímetros de diferença na camada de gordura em uma peça de carne. Milímetros que são capazes de determinar o rótulo de qualidade de todo um lote de produção.

Endre começa a perceber que a precisão de Maria está custando o rebaixamento da nota de qualidade da empresa. Ele tenta se aproximar dela para pedir explicações e acaba conhecendo-a melhor: uma “anal retentiva”, metódica e robótica. Aparentemente sem sentimentos e avessa a qualquer tipo de relacionamento mais íntimo.

Até que um belo dia investigadores da polícia chegam no abatedouro: alguém roubou uma espécie de “viagra bovino”, um “pó de acasalamento” para fazer animais de 400 quilos se predisporem à reprodução. Uma psicóloga forense é destacada para entrevistar cada funcionário para tentar encontrar pistas. 

Tudo começa com uma pergunta de rotina sobre os sonhos de cada entrevistado, até a psicóloga descobrir que Endre e Maria estão tendo o mesmo sonho no qual uma corça e um veado procuram folhas verdes sob uma paisagem gelada. Será o começo de um romance improvável.

A partir desse ponto, a relação amorosa do casal passa a ser estranha e platônica: ela, não suporta a ideia de um contato mais íntimo. E Endre é emocionalmente e fisicamente desajeitado e introvertido. Os momentos de intimidade e carinho passam a ser então somente possível através daquele sonho.

 

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Em cada cena fica evidente o confronto corpo e alma: de um lado a realidade brutal de um matadouro e protagonistas travados como se estivessem prisioneiros em seus corpos. E do outro a libertação nos sonhos. Mas mesmo assim, não como eles são, mas através da representação de animais selvagens.

 

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