‘Matrix Resurrections’ faz narrativa cyberpunk em abismo respondendo a crítica e extrema-direita, por Wilson Ferreira

Muita metalinguagem e autorreferências: um filme dentro de um game de computador criado pela empresa que na verdade é o estúdio que produziu o filme que assistimos

‘Matrix Resurrections’ faz narrativa cyberpunk em abismo respondendo a crítica e extrema-direita

por Wilson Ferreira

Três coisas incomodaram as irmãs Wachowski após a “Trilogia Matrix” (1999-2003): a crítica frontal do pensador francês Jean Baudrillard (uma das fontes de inspiração da Trilogia) de que “Matrix é o filme que a Matriz teria sido capaz de produzir”; a apropriação da extrema-direita dos simbolismos de “Matrix”; e as intromissões da Warner Bros na produção do filme. Por isso, Lana Wachowski retomou para si a narrativa de Matrix na continuação “Matrix Resurrections” (2021), não só recriando o clássico universo cyberpunk, mas tornando-o ainda mais complexo na chamada “narrativa em abismo”: muita metalinguagem e autorreferências: um filme dentro de um game de computador criado pela empresa que na verdade é o estúdio que produziu o filme que assistimos. Além de atualizar a mitologia gnóstica original (do CosmoGnóstico ao PsicoGnóstico), Lana fugiu da crueza esquemática de 1999 (Matrix versus deserto do real) para mergulhar na complexidade do mix hiper-real da ficção com a realidade. Incorporou as críticas de Baudrillard, além de tentar blindar o filme de quaisquer apropriações reacionárias através de uma narrativa ambígua. 

Uma das fontes de inspiração das irmãs Wachowski para a Trilogia Matrix (Matrix, 1999; Matrix Reloaded, 2003; Matrix Revolution, 2003) foi o livro “Simulacros e Simulação”, 1981, do pensador francês Jean Baudrillard. Razão pela qual Baudrillard foi contatado diversas vezes pelas Wachowski, após o primeiro episódio, para ser o consultor da trilogia. 

Baudrillard recusou o convite, alegando que estava havendo um “mal-entendido” a cerca dos seus conceitos. “Matrix é certamente o tipo de filme que a Matriz teria sido capaz de produzir”, disparou Baudrillard em uma entrevista ao “Nouvell Observateur” em 2003:

O valor de Matrix é, principalmente, o de ser uma síntese de tudo isso [Show de Truman, Minority Report, Mulholland Drive]. Mas a narrativa é muito crua e não verdadeiramente evoca o problema. Os personagens ou estão na Matriz, isto é, no sistema digitalizado de coisas, ou estão radicalmente fora dele, tal como em Sião, a cidade da resistência. Mas seria interessante mostrar o que acontece quando esses dois mundos colidem. A parte mais constrangedora do filme é que o novo problema colocado pela simulação é confundido com o tratamento clássico platônico. Esta é uma falha grave. A ilusão radical do mundo é um problema enfrentado por todas as grandes culturas e que é resolvido através da arte e simbolização. O que nós inventamos a fim de dar conta desse mal-estar é um real simulado, que doravante suplantará o real como a sua solução final, um universo virtual do qual tudo o que é perigoso e negativo foi expulso. E Matrix é, inegavelmente, parte disso. Tudo que pertence à ordem do sonho, utopia e ilusão é dada uma forma concreta, é realizado. Estamos na transparência sem cortes. Matrix é certamente o tipo de filme sobre a Matriz que a Matriz teria sido capaz de produzir – clique aqui.

Além dessa crítica frontal à Trilogia, Lana Wachowski demonstrou indignação nas redes sociais ao ver a simbologia de Matrix apropriada pela extrema-direita em sites como 4chan e em comunidades do Reddit como o “The Red Pill”. 

Parece que no fundo Baudrillard tinha razão: a “crueza” no tratamento de um conceito tão complexo como o de “simulação” (abordado de forma esquemática, binária ou rígida – ou estamos na Matrix ou não) facilitou a estratégia semiótica de apropriação, modus operandi da chamada “alt-right”.

Por isso, Lana Wachowski retomou para si a narrativa de Matrix, mesmo depois dos traumas das intervenções dos estúdios em seus filmes (estava longe do cinema desde O Destino de Júpiter, 2015) e ainda viu a série Sense8 ser cancelada pela Netflix depois da segunda temporada.

 Matrix Resurrections (2021), a continuação da Trilogia iniciada há 20 anos, revela estar bem autoconsciente das críticas de Baudrillard e de como a simplificação esquemática de uma metáfora tão poderosa como o da Matrix acabou tornando o universo cyberpunk presa fácil das apropriações políticas da extrema-direita.

Vinte anos depois, Matrix 4 acrescenta novos personagens e muitas novas regras foram adicionadas a este já complicado universo cyberpunk (enxames de bots, programas modais de simulação etc.), inserindo Neo e Trinity em uma nova versão da Matrix. Muito mais complexa, porque, dessa vez, ela foi concebida a partir da mente, memórias, esperança e medo do psiquismo humano – a humanidade não apenas prisioneira em uma cilada tecnológica (CosmoGnóstica), mas também prisioneira em sua própria mente – PsicoGnóstica.

“Nada conforta mais a ansiedade do que a nostalgia”, fala a certa altura uma linha de diálogo no filme. Nada mais revelador da natureza da nova Matrix: Lana Wachowski está bastante consciente de como a “pílula vermelha”, “bullet time”, “O Oráculo” e “O Escolhido” criaram um legado de linguagem e iconografia que se infiltrou na cultura e nas nossas mentes. Por isso, Matrix 4 é totalmente metalinguístico, autorreferencial mas, principalmente, auto-irônico – incorporando a crítica de Baudrillard, Lana mostra como o totalitarismo das máquinas criou uma nova simulação baseada no choque entre realidade e ficção.

Se no passado tínhamos o “deserto do real” oculto por trás da Matrix, agora ele e todos os heróis que lutaram para desmascarar a simulação (Neo, Morpheus etc.) está memória dos habitantes da Matrix, mas como memória ficcional de um game de computador: a Trilogia virou um game de sucesso e Thomas Anderson (Neo) um internacionalmente famoso designer de jogos. E a empresa “Warner Bros” está pressionando Anderson a criar uma continuação da trilogia de games.

Matrix 4 cria uma instigante narrativa em abismo (um filme dentro de um game de computador criado pela empresa que na verdade é o estúdio que produziu o filme que assistimos) o que torna todos os protagonistas do filme em observadores não confiáveis: todas as suas ações estão fundadas na memória de um passado que pode ser tanto real como ficcional.

Portanto, onde está o deserto do real, ponto de referência seguro da Trilogia?

O Filme

Lana Wachowski se esforça em recuperar altos conceitos filosóficos que deram início ao seu universo cyberpunk. Se vinte anos atrás a diretora mergulhou no neoplatonismo, agora ela cria uma narrativa em torno do hiper-realismo: como o real simulado invade a realidade, borrando as fronteiras entre o real e a ficção.

Matrix Resurrections abre da mesma forma que Matrix de 1999: Trinity (Carrie-Anne Moss) arrasa quando cercada pela polícia em um hotel abandonado. Um hacker chamada Bugs (Jessica Henwick) observa a cena se desenrolar e ela está ciente de que isso já aconteceu antes. Mas algo está diferente com um dos agentes que foi enviado para matar Trinity. Bugs percebe que este agente é uma versão do programa de computador de Morpheus (interpretado por Yahya Abdul-Mateen II). Bugs diz a este computador-Morpheus que Neo não está morto e que eles precisam libertá-lo de uma nova versão da Matrix.

Nesta nova versão do Matrix, Thomas Anderson (Keanu Reeves) é um designer de videogame mundialmente famoso. Seu jogo mais famoso chama-se, claro, “Matrix”. Ele baseou o personagem principal do game nele próprio, e o enredo do jogo é exatamente o mesmo enredo dos três primeiros filmes Matrix.

Descobrimos que Thomas Anderson tem dificuldade em distinguir seu jogo da realidade, sofre de episódios psicóticos e começou fazer terapia com um analista (Neil Patrick Harris) depois de tentar pular da cobertura de um prédio. A única coisa que o motiva é a linda mulher casada que vai a uma cafeteria chamada Tiffany (Carrie-Anne Moss). 

As coisas começam a ficar ruins quando seu chefe, Smith (Jonathan Groff) pressiona Anderson e sua equipe a lançarem o quarto Jogo da franquia “Matrix”. Os episódios psicóticos ficam mais intensos. Mas, na verdade, são tentativas fracassadas de libertar Neo desta Matrix.

 Até o momento em que Bugs e a nova versão de Morpheus conseguem acordar Neo. Como no primeiro filme, ele acorda em um pod, mas desta vez, há apenas um outro pod na área. Neo sabe que deve ser Trinity, que também está presa na nova Matrix. Antes que possa salvá-la, ele é levado por uma máquina.

Bugs apresenta Neo à sua equipe, todos os quais o reverenciam como um herói. Tudo o que aconteceu em seus jogos, e nos três primeiros filmes, aconteceu na vida real – faz 60 anos que Neo se sacrificou para acabar com a guerra entre os humanos e os Sentinelas (que aconteceu no final de Matrix Revolutions). 

As coisas são diferentes agora – os humanos trabalham em conjunto com algumas das máquinas, que se autodenominam “sintetizadores”. Houve uma guerra civil mecânica entre os Sentinelas e Sintetizadores, quando os recursos de energia extraídos da velha versão da Matrix escassearam. 

Bugs, sua equipe e Neo entram na nova Matrix para tentar libertar Trinity, mas são confrontados pelo Agente Smith (Groff), um programa e o antigo inimigo de Neo, anteriormente interpretado por Hugo Weaving. Smith explica que ele está preso nesta nova Matrix também, que foi projetada pelo “Analista” – o antigo terapeuta de Neo. 

Num dos momentos mais metalinguísticos, Bugs e Neo enfrentam os “Exilados”: um conjunto cujo líder odeia Neo por ter abandonado a velha Trilogia que, segundo ele, poderia ter rendido excelente “spin-offs”: “tínhamos graça, estilo, arte, livros eram os melhores…”. Narrativa em abismo: os “Exilados” são a metáfora daqueles que perderam o emprego com o fim da franquia, aqui no nosso mundo “real” dos espectadores.

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